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‘Nos atacam dia e noite’, afirma pai de santo sobre intolerância religiosa

‘Até nossos filhos sofrem com essa falta de respeito. Vivemos com medo de sair na rua’, diz

Vários casos registrados no PI – 10/08/2017 às 09h37

 

É cada vez mais comum notícias de ações violentas motivadas por questões religiosas. Nos últimos meses o que chamou a atenção em Teresina foram ataques a terreiros, centros espíritas, destruição de imagens, xingamentos e até mesmo agressões físicas. O pai de santo e babalorixá Flávio D’Ogum falou ao 180 como esses fatos afetam os seguidores das religiões de matriz africana.

“Crimes ligados à intolerância religiosa existem desde os primórdios. Ao analisarmos a história mundial, tomamos conhecimento de diversos momentos em que a religião foi usada como motivo para a discórdia. Hoje existe templos evangélicos que ganham dinheiro nos atacado, isso é um absurdo”, conta pai Flavio.

CASOS RECENTES
No mês de junho, quatro casas foram alvos de vandalismo, injúrias e difamação em Teresina. O terreiro de Santa Luzia Oxum de Apará, do pai Eudes de Oxum, teve sua casa invadida com imagens da religião quebradas. “Uma pessoa colocou uma ripa de madeira na grade da janela do terreiro e quebrou, pelo menos, 5 imagens. Acordei com o barulho e quando fomos ver, a pessoa já tinha fugido”, declarou o pai de santo Eudes.

O religioso acredita que os ataques de vandalismo foram provocados pela intolerância religiosa. “Acredito que os responsáveis são pessoas que possuem raiva da nossa religião”, finaliza.

O terreiro da mãe de santo Ester de Iansã, teve imagens quebradas, uma porta de vidro destruída e chegaram a entrar em um espaço chamado de ‘quarto sagrado’ do terreiro.

Pai Tony de Iemanjá, terreiro que fica localizado na zona Sudeste de Teresina, foi vítima de injúria e difamação, tendo sua imagem nas redes sociais, onde foi acusado de ser ‘matador de crianças’. O religioso se manifestou contra acusação caluniosa e chegou a registrar um boletim de ocorrência.

“Esse camarada tem uma promessa de matar mais de 30 ou 40 crianças, é a informação que eu tenho. Compartilhem para que ele seja preso, mas na minha opinião ele não deve ser preso, deve morrer”, diz um trecho do áudio que foi compartilhado várias vezes em grupos do WhatsApp.

O material contém palavras ofensivas, ameaças de morte e uma acusação séria sobre o suposto planejamento do pai de santo, em que ele pretenderia matar 30 crianças.

Questionário religioso feito com os guardas municipais para a criação de uma capelania – Reprodução

“Dou meu íntegro repúdio a esse ato ilícito cometido a minha pessoa e principalmente a minha casa ofendendo-lhe a minha dignidade”, disse o pai de santo em postagem no Facebook. O caso já está com a polícia que vai apurar o crime de calúnia e injúria.

– Pai Tony de Iemanjá

O último ataque foi na casa de Nossa Senhora da Conceição do pai de santo Luis D’Ogum, na Zona Sudeste de Teresina, onde destruída imagens, vidros, objetos e o próprio cachorro da família foi amarrado pelos pés com faixas.

“É um absurdo tudo isso. Nunca pensei que minha casa seria alvo dessa violência, fico revoltado e triste com essa intolerância religiosa. Nos da umbandistas pregamos amor e dedicamos nossas vidas para ajudar e levar o bem ao próximo e quando menos espero, um bando de ignorantes faz uma coisa dessa, quebram nossas imagens, vidros, portas, tudo isso é caro e trabalhamos para ter nossas coisas, nada é de graça. Eu nunca xinguei, nem quebrei, nem ataquei nenhum templo evangélico, católico ou de qualquer religião e nem conheço nenhum pai de santo que fez isso, mas isso só acontece com nossa umbanda. Só queremos respeito”, declarou pai Luiz D’ Ogum.

– Pai de santo Luis D’Ogum

DIFICULDADE E ACEITAÇÃO
Segundo pai Flavio D’Ogum o inicio dos terreiro na capital era muito difícil, ele conta que quando tinha cultos, a policia invadia e batia e fechava os templos, mais isso foi legalizado em 1965, onde foi tido como religião, a umbanda foi reconhecida como religião. “Na verdade a única religião brasileira que existe é a umbanda. O catolicismo não é daqui, os evangélicos não nasceu aqui, todos são de fora. Nossa umbanda é uma mistura de cultos africanos com o povo indígeno, mas desde de 1965 pra cá, continuou as consequências da intolerância religiosa”, disse.

– Pai Flavio D’Ogum

De acordo com ele, até os filhos de umbandista sofrem com essa falta de respeito. “Tem um caso de uma mãe de santo que a professora da criança arrancou a guia do pescoço da menina, pois aquilo era coisa do demônio, e em nossos cultos você não vai ouvir a palavra e nem o nome de demônios, nem diabo e nem outra coisa do tipo, palavras essas que em outros cultos evangélicos que começa chamado o diabo e termina falando em demônios, mas o nome de Deus ninguém escuta. Nossas casas de Umbanda, Candomblé não são casas do diabo, não existe isso em nossos templos. E estamos casados de vivenciar essa intolerância dia e noite. Nosso povo se sente com medo, teve alguns casos de invasão aqui em Teresina e isso faz todos ficarem com medo de serem vitimas de violência, pois ninguém está seguro, amanhã pode ser a minha”, completou.

O pai de santo comenta ainda que muito dos ataques vem de pessoas ‘evangélicas’. “Sim. Infelizmente a verdade tem que ser dita. A igreja evangélica e seus sacerdotes, não digo todos, mas a grande parte nos ataca. O maior exemplo é só ligar a TV, Radio em certos programas que você irá ver o ataque. Eles nos ataca de manhã, tarde e noite e é 24 hora no ar. A maior parte vem dos evangélicos, eles nos criticar e usa nosso nome para ganhar dinheiro”, concluiu.

 

Extraído do site de notícias 180 Graus / Teresina – PI
http://180graus.com/noticias/somos-atacados-dia-e-noite-por-causa-da-intolerancia-religiosa-conta-pai-flavio-dogum

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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