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Noventa anos de vida em dedicação à arte do candomblé

Meire Oliveira | Sáb, 02/05/2015 às 10:00

 

Mãe Stella atua na preservação da religião e é contra o sincretismo
Lúcio Távora | Ag. A TARDE Mãe Stella atua na preservação da religião e é contra o sincretismo

O envolvimento em projetos e atividades fez o tempo passar mais rápido. Com a mente em estado permanente de ebulição, aos 90 anos completados neste sábado, 2, a ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, Maria Stella Azevedo Santos, não deixa de fazer planos e de viabilizá-los.

“É gostoso viver. Nasci com cinco meses e meio. Estava com pressa de vir ao mundo. Às vezes me pergunto se vou fazer essa idade mesmo”, brinca Mãe Stella de Oxóssi.

Hoje, o dia iniciou ao som de clarins e alvorada de fogos na entrada da casa da sacerdotisa. Como o sábado é dedicado a Oxum e a Iemanjá, é com elas que Mãe Stela começa o dia. “Todos os dias, meu primeiro contato é com o sagrado, ajoelhada e agradecendo”, contou.

Em seguida, o café da manhã ocorre na Casa de Xangô, em tom de confraternização como as demais refeições ao longo do dia de hoje. O encerramento dos festejos será na área externa do templo, a partir das 19h, com música, coquetel e mais homenagens para a suma sacerdotisa do Afonjá.

Como presente, pede para seguir sua missão. “Desejo deixar uma obra interessante e um lugar que sirva de parâmetro de alegria e equilíbrio para quem procure. Anseio que as pessoas se respeitem. A bondade e a verdade são obrigações de toda a humanidade”, afirma a líder espiritual.

Trajetória

O espírito de liderança aflorou ainda na infância. “Adorava a hora do recreio. Era uma roça e eu sempre puxava as brincadeiras com meus amigos”, contou.

A habilidade para cuidar de vidas também não tardou. Mãe Stella se formou em enfermagem pela Escola Baiana de Medicina- área em que se aposentou – e ampliou o sentido desse cuidado ao se tornar ialorixá em 1976. É a quinta na sucessão do terreiro já comandado por Eugênia Anna dos Santos (Mãe Aninha – fundadora em 1910), Mãe Dadá, Mãe Senhora e Mãe Ondina.

Iniciada por mãe Senhora, aos 13 anos, Mãe Stella sempre atuou na preservação da religião e contra o sincretismo. Em 1983, liderou um manifesto em defesa do fim da prática.

Pouco antes do jogo que a indicaria como ialorixá (Foto: Aristides Baptista | Ag. A TARDE | 22.3.1976)
Pouco antes do jogo que a indicaria como ialorixá (Foto: Aristides Baptista | Ag. A TARDE | 22.3.1976)

“Hoje minha dedicação é exclusiva ao cuidado de vidas e das divindades. Tenho um santo maravilhoso. Oxóssi tinha que ser meu pai e eu nasci para ser filha dele. Tem gente que vem aqui, segura na minha mão, pede um abraço e fico feliz em causar esse impacto”, disse.

O retorno também é garantido pelos filhos e filhas de santo que se revezam no zelo com a mãe. “Não sei o que é desgosto. As pessoas me tratam bem e se preocupam muito comigo”.

Além do cuidado mútuo, o dia a dia na casa localizada no território sagrado não tem rotina. “Aqui ninguém morre de tédio. Aprendemos e brincamos muito com ela”, contou Graziela Domini Peixoto, filha de santo do Afonjá. A explicação está na dijina (nome sagrado) da ialorixá que é Odé Kayodê (Caçador da Alegria).

“É uma emoção a cada meia hora”, brinca Mãe Stella. “Gosto de conversar, pois aprendo muito com pessoas de todas as idades. É com os mais jovens que me atualizo”, explica Mãe Stella.

As madrugadas também são produtivas. “Ela costuma acordar e lembrar de mitos, músicas, faz traduções. O gravador está sempre pronto”, disse Graziela.

Foi em uma situação como essa que surgiu a música-tema do mais novo sonho de Mãe Stella. A partir de junho deste ano, o Afonjá irá abrigar o Brincadeira tem hora. Um domingo por mês, crianças e adultos terão um dia de recreação. “A ideia não é fazer as crianças brincarem como antes. É apresentar as brincadeiras e contar a história e a simbologia delas”, afirmou Mãe Stella.

Ela citou a cama de gato, que consiste em desfazer armações de um barbante entre dois participantes. “Com ela se aprende que o seu problema pode ser resolvido com a ajuda do outro”. Ainda este ano também será lançado o DVD Folha ENcantada, baseado no livro  O que as Folhas Cantam (para quem canta folha), de 2014.

A postura ao longo da história de vida da sacerdotisa expõe mais uma característica do orixá ao qual foi consagrada: como caçadora que é, vê bem longe e vai somando um vasto legado.

Religiosa é a quinta na sucessão do terreiro Ilê Axé Opô Afonjá (Foto: Lúcio Távora | Ag. A TARDE)
Religiosa é a quinta na sucessão do terreiro Ilê Axé Opô Afonjá (Foto: Lúcio Távora | Ag. A TARDE)

 

 

Extraído do site do Jornal A Tarde / Salvador – BA

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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