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O Candombe afro-uruguaio: “Por quem os tambores chamam”

Publicado há 2 dias – em 11 de outubro de 2014 » Atualizado às 10:57

 

 

candombe-meninoEscravos Ngolas, Benguelas, Congos e Nganguelas chegaram ao Uruguai a partir do século XVII. Com outros africanos cativos, criaram um ritmo que ainda hoje agita as ruas da capital Montevideu. Deram-lhe um nome kimbundo: candombe. História desconhecida dos povos de Angola no outro lado do grande oceano.

Pedro Cardoso, em Buala. Fotografias de Candombe TV/Maxi López

“Ta-ta-ta, tata! Ta-ta-ta, tata…” O som seco de um batuque ecoa nas ruas de fim de tarde do Barrio Sur de Montevideu. Um homem sentado à soleira da porta de um casarão velho deste antigo bairro de escravos africanos, marca o ritmo com uma baqueta, no costado de madeira do seu tambor solitário. “Ta-ta-ta, tata…”

A rua está deserta mas o silêncio está por acabar. A resposta logo vem, de longe: ” Ta-ta-ta, tata!!”. De outro norte do bairro, grita mais um batuque. E outro. E mais outro ainda: “Ta-ta-ta, tata!!”. Tambores em crescendo. Os vizinhos debruçam-se sobre janelas e varandas. Todos sabem: começou a llamada (chamada). E, mais tarde ou mais cedo, o velho solitário sentado à porta da sua casa estará rodeado de tamborileros (percussionistas) vindos de todos os lados. Convocados pelo batuque que ecoou no silêncio do Barrio Sur, reúnem-se em batidas diferentes que se entrelaçam num ritmo único.

“É o candombe, senhores!”, anuncia Lalo Baraibar à Austral, numa entrevista telefónica a partir de Montevideu. Apaixonado por esta tradição de raiz africana, conta: “candombe é isso mesmo: quando uma, duas, três pessoas começam a tocar os tambores e começam a chegar mais tamborileros das ruas vizinhas. Juntam-se de forma espontânea, no que conhecemos como llamadas”. Desta forma, cumprem-se mais de 200 anos de tradição, que começou bem lá atrás, no tempo dos escravos.

candombe-tambores-no-chão

Batucada de areia

Montevideu transformou-se num porto negreiro a partir da segunda metade do século XVIII. À capital da então chamada “Banda Oriental” chegaram, entre 1752 e 1843, de 50 a 60 mil africanos, conta o académico Oscar Montaño ao portal “Multicuralismo en Uruguay”.

Congos, Ngolas, Benguelas, também Nganguelas, Quissamas, Cabindas, entre outros, enchiam o porto na boca do Rio del Plata. A maior parte esperava novo embarque para Buenos Aires, Peru ou Bolívia. Os que ficaram por Montevideu foram poucos, mas suficientes para transfigurar a cidade. Em 1790, conta o historiador Poncio Torrado em “La Esclavitud en Uruguay”, somavam já cerca de cinco mil, mais de metade da população da cidade colonial.

A partir de 1760, ano em que os escravos passaram a gozar de uma inédita folga aos domingos, os baldios de areia junto à muralha de Montevideu transformaram-se em terra ritual. Ao sair da casa dos seus “amos”, os africanos convocavam-se uns aos outros ao som de batuques, que ecoavam pelas ruas da cidade. Descreve o cronista da época Isidoro de María, citado pelo Portal Candombe, que “cabindas, benguelas […] reuniam-se para os seus cantos e bailes, entoando os seus cadenciados yé yé, yé, Calunga yé, eeé llumbá”.

Com o passar do tempo, os diferentes toques de batuque dos africanos em Montevideu acabariam por fundir-se num toque colectivo ao qual se chamou “candombe”. Uma palavra que muitos especialistas actuais associam ao termo kimbundo “kandombe” – negrito. No Portal Candombe, o historiador uruguaio Oscar Montaño apresenta uma hipótese: “é um aporte benguela do povo Ndombe, mais numeroso e notório entre as etnias africanas que chegaram a Montevideu”.

Com um nome influenciado pelos povos (hoje) angolanos, o candombe virou força vital entre os africanos cativos. Desde então, os tambores nunca mais se calaram em Montevideu.

candombe-tambores

Salve Baltazar!

À medida que os escravos da cidade se organizavam, as batucadas deixaram a areia das muralhas e passaram a ecoar nas “Salas de Nações”, organizações que reuniam africanos da mesma origem. Os encontros davam-se a cada domingo e duravam “até ao cair do sol”, conta o cronista Agustin Beraza, citado pelo académico Gustavo Goldman no livro “Candombe”. Velas, flores e vestimentas ao estilo europeu faziam parte deste ritual presidido por reis e rainhas eleitos entre os escravos.

Nestas reuniões massivas, recordavam as suas origens, alternando-as com novos elementos captados no contexto em que viviam. Foi assim que desenvolveram um complexo sincretismo religioso que misturava Kalunga e Nzambi com figuras católicas impostas pela Igreja e as suas confrarias. Entre os santos venerados pelos africanos, um deles sintetizava, mais que nenhum outro, a sua condição: São Baltazar, o rei-mago negro.

A devoção era frenética. Durante a primeira metade do século XIX, Montevideu habituou-se a acordar especialmente ofegante, sempre que o calendário marcava 6 de Janeiro. A cada dia dos Reis, milhares de africanos invadiam religiosamente as ruas da capital uruguaia em frenética batucada em honra a São Baltazar. O candombe vivia o seu apogeu.

As cerimónias começavam “quase com a alva, com o soar dos tambores nas salas Mina, Congo, Angola e Banguela “, conta o jornal El Ferro-carril em 6 de Janeiro de 1882, num artigo reproduzido por Gustavo Goldman em “Candombe”. Às “8 ou 9 da manhã, formava-se uma comitiva encabeçada pelo rei dos Congos ou pelo rei dos Angolas , seguidos por delegados de outras nações”, descreve Vicente Rossi em “Cosas de Negros”. Este cortejo real saí, então, em visitas de cortesia às autoridades políticas, militares e religiosas de Montevideu.

Só por volta das 14 horas, os africanos tomavam de assalto os arredores de Montevideu, dando início à verdadeira festa. Ecoavam tambores, “kissanjes, marimbas, apitos” e “um coro de milhares de vozes descomunais”, conta o Ferro-carril. Todos participavam, “desde os morenos de cem anos […] até à negrita pequena ”.

Apesar da força destes festejos, o tempo não corria a favor de São Baltazar. A morte dos anciãos que chegaram como escravos a Montevideu, e a influência do crescente “sector negro crioulo”, avesso a “coisas de África”, confluiu no fechar de portas das Salas de Nações por finais do século XIX, conta Gustavo Goldman. Com estas organizações, desapareceram também os grandes cortejos do dia dos Reis. Nas primeiros décadas do século XX, o candombe passou a ser uma mero apontamento nos desfiles de carnaval, levado às rua por grupos chamados “compars