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O Corpo como altar vivo


Helena Theodoro
23/05/2014 15h23

 

O Grupo de pesquisa Tambor, de Belém do Pará, está organizando o II Encontro Paraense de Etnocenologia, no período de 03,04,05 e 06 de junho próximo, comandados pelo Dr.Miguel Santa Brigida e tendo como tema Corpo lugar de festas. Vamos participar do encontro situando a tradição afro-descendente, que .situa o corpo como um pedaço de barro modelado, retirado da matéria-prima LAMA, que, de acordo com os mitos, serviu para a criação das pessoas, após um acordo com o orixá IKU- morte -responsável pela restituição, que possibilita a criação de novos corpos, estabelecendo assim uma relação direta entre nascimento e morte.

Vamos proferir a palestra de abertura situando que para o corpo adquirir EXISTÊNCIA precisa receber e conter o ar-massa, chamado EMI – princípio da existência genérica, que se materializa pela respiração e que é elemento essencial na diferenciação de um habitante da terra (ARA-AIYÊ), de um ser mítico (ARA-ORUN). Os indivíduos respiram, contendo o EMI em seus corpos, que foi o elemento soprado por OLORUM (Deus).
Para os iorubas, cada individuo na terra é proveniente de uma entidade de origem que lhe transmite suas propriedades materiais e seu significado simbólico. Tais entidades de origem – os progenitores, existência genérica , ancestrais divinos ou familiares, se desprendem para constituir os elementos de um indivíduo. Tais elementos , conforme Juana Elbein dos Santos, em seu livro Os nagô e a morte, de 1977, possuem dupla existência: enquanto uma parte vive no ORUN – o espaço infinito do mundo sobrenatural, a outra parte está no indivíduo, em regiões particulares de seu corpo, ou em estreito contato com ele. Desta forma, existe um doble de cada indivíduo no ORUN, que pode ser invocado ou representado.

O corpo de cada pessoa é composto de cabeça – ORI e suporte da cabeça – ÀPÉRÉ , que são modelados com porções de substâncias massas-progenitoras. No entanto, o interior de cada pessoa, o ORI-INU, é unico e representa uma combinação de elementos intimamente ligados ao destino pessoal. É o contéudo do ORI, que expressa a essência própria de cada pessoa, sua existência individualizada, variando de acordo com a matéria mítica – o ORIXÁ – de que provém. É a cabeça ou ORI, que determinará as possibilidades, escolhas e proibições que cada indivíduo deverá respeitar.

Nos rituais o contato com a cabeça dos indivíduos permite a união de três forças, segundo palavras de Mestre Agenor Miranda: ORIXÁ, ORI e PESSOA numa grande cadeia, que a todos interliga. Essa reunião de forças renova o AXÉ da casa e de cada um.

Bori quer dizer “festejo à cabeça”, sendo que durante sua realização os ancestrais são invocados, havendo um grande simbolismo em relacão à cabeça, que está no nascente e os pés, que estão no poente. Os pés estão em contato direto com a terra. Logo, a cabeça recebe o Orixá, o pé é a parte do corpo que faz a comunicação com os ancestrais, enterrados na terra e é da terra que saem os eguns – espíritos dos mortos – que são os ancestrais cultuados nos terreiros Ketu.

Marco Aurélio Luz, no seu Agadá(1992) conta a história de Ori, dizendo que é o orixá que proporcionou a entrega das oferendas dos orixás a Olorum, a partir do momento em que conseguiu partir o fruto OBI ao cair com força sobre ele. Todos já tinham tentado e fracassado e, somente quando o fruto foi aberto é que Olorum aceitou as oferendas. Por isso as cerimônias de Bori usam o obi e, a partir de então, Ori precede a todos, sendo quem permite a adoração do orixá de cada pessoa.

É importante frisar que a cabeça não é auto-suficiente, precisando, para estar bem, do funcionamento de todos os outros componentes do corpo, conforme a história de Mestre Didi: “Certa vez, a cabeça, muito ciosa de sua importância, começou a falar mal do ânus para todo mundo. Ao tomar conhecimento do que a cabeça andava dizendo, o ânus resolveu fechar-se, paralizando suas funções. Após três dias, todos os órgãos começaram a reclamar para a cabeça, dizendo ser impossível trabalhar em tais condições. Logo depois foi a própria cabeça que passou a sentir terríveis dores. Então, saiu de sua posição para implorar ao ânus que funcionasse, situando sua importância, dizendo-lhe elogios pelo que fazia e se desculpando pelo que dissera.”

EXU também está ligado ao corpo, é o responsável por seu interior, sendo o Exu Bara, o rei do corpo. Por ser o princípio do movimento, permite a circulação das vias internas, relacionando-se às cavidades do útero, sendo, assim, o patrono da relação sexual por fazer a interação do sêmen com o óvulo, se ligando à placenta (Ipori) fecundada, propiciando a vida individual. É o terceiro elemento, o procriado. É Exu que faz a transferência da matéria de origem do orun para o aiyê, propiciando o desenvolvimento das mesmas, permitindo a fisiologia do recém-nascido.

Exu se relaciona ainda às funções da boca, respondendo pela fala, que torna singular, bem como com a comunicação, estando relacionado à mobilização do destino individual. Outro aspecto ligado ao corpo, também situado por Juana Elbein dos Santos, é a memória – IYE, que possui duas qualidades:
a) – memória ancestral – acompanha e conduz o emi -(respiração) à terra dos sonhos, enquanto dormimos ,e após a morte, quando o emi volta para o orun;
b)-memoria de experiência adquirida – capacita as pes soas, possibilitando a lembrança das experiências e o
Acúmulo de informações e conhecimentos.

A cultura negra ao valorizar o corpo, indica os cuidados que se deve ter com a cabeça e as demais partes que o compõem, além de utilizá-lo em sua relação com o sagrado e com o lúdico, numa visão filosófica, fisiológica e psicológica.

Os rituais vão fazer o uso do corpo, seja na dança, no toque dos atabaques, nas reverências ou na postura dos membros do egbé em diferentes situações. Elementos simbólicos significativos e fundamentais permitem aos movimentos corporais a exteriorização de um sentimento ancestral ou de uma determinada força cósmica, que através do corpo das mulheres, transmutado em altar vivo, propicia a criação de um tempo mítico, numa reunião de pessoas, natureza, orixás e ancestrais que a todos fortalece e impulsiona pelas trocas de AXÉ.

Cada orixá tem movimentos próprios que o caracterizam e que são traduzidos pelo corpo em forma de canto e dança.

Parabéns ào Grupo de Estudos em Carnaval e Etnocenologia – O Tambor e à Universidade Federal do Pará pela iniciativa.

 

Helena TheodoroHelena Theodoro – Cultura Afro

Carioca, escritora, doutora em Filosofia, mestre em Educação, pesquisadora de cultura afro-brasileira, coordenadora do curso de Pós-graduação de Figurino e Carnaval da UVA.

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.

 

Extraído do Blog Sidney Rezende

http://www.sidneyrezende.com/noticia/229672+o+corpo+como+altar+vivo

 

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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