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O correio nagô entra em ação

 

Maria Stella de Azevedo Santos | Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá

Qua, 30/07/2014 às 00:00 | Atualizado em: 30/07/2014 às 09:06

 

Na África de séculos atrás, a comunicação entre as tribos era feita pelos tambores, que são considerados divindades que comem e falam. Quanto mais eles comem, mais eles falam. É por isso que o baiano usa a expressão “o couro vai comer” para dizer que muita discussão vai existir sobre um assunto.

Quando a religião chamada de candomblé na Bahia começou a existir, há séculos atrás, os africanos moradores das senzalas, e mesmo os da “casa-grande”, só podiam comunicar-se por meio dos tambores, nas festas permitidas pelos senhores, e por meio da palavra falada. Os tambores dificilmente podiam “expressar-se” e a palavra falada era de difícil compreensão, pois os africanos reunidos nos engenhos de cana tentavam comunicar-se fazendo uso de diferentes dialetos. Afinal, os escravos que aqui chegaram foram trazidos de diferentes localidades do grande continente africano.

Correio nagô é a expressão usada pelos candomblezeiros para transmitir de boca em boca as notícias e os eventos que ocorrem dentro do terreiro/templo. Insisto no termo candomblezeiro e não candomblecista, pois este último está ganhando força apenas pela inocente tentativa de ampliar o valor do candomblé. Entretanto, não se faz necessário uso de artifícios linguísticos para que nenhuma religião seja valorizada, pois cada uma tem seu valor para aqueles que a professam ou para as pessoas que têm como lema de vida a justiça e o respeito à individualidade do próximo. Chamar a empregada doméstica, por exemplo, de secretária não agrega valor a esta tão importante classe de trabalhadores, ao contrário, desclassifica-a, pois sugere atribuições que não pertencem a esta categoria. E os valores dos empregados domésticos são tão maravilhosos que não precisam dos de ninguém.

Hoje, nós, candomblezeiros, não contamos apenas com o boca a boca, valorizamos e usamos a oralidade e a escrita. E é assim que transmitimos aos leitores deste artigo a agradável e valorosa notícia da nobre visita de uma comitiva de irmãos africanos.

O orixá/rei Xangô Afonjá está recebendo em sua “casa” um rei africano: sua majestade imperial Obá Ladeyemi III, rei de Oyó, descendente direto do primeiro ancestral do povo yorubá. Atualmente, Oyó é um estado localizado a sudoeste da Nigéria (país africano), cuja capital é a cidade de Ibadan. Entretanto, no passado, entre 1400 e 1835, Oyó foi um grande império. Xangô foi o terceiro rei desse império que, por seus grandes feitos, foi divinizado, tornando-se orixá.

O intercâmbio político cultural entre o Brasil e o continente africano, mais precisamente entre Bahia e Nigéria (Oyó), é fundamental para o fortalecimento de nossas raízes e a geração de sementes saudáveis, isto é, bem fundamentadas, que venham a gerar bons frutos. Mãe Aninha – Obá Biyi -, descendente direta de africanos e “filha” de Xangô, fundou o terreiro que hoje recebe o rei de Oyó. Foi ao seu orixá que ela rezou pedindo na língua yorubá o que aqui coloco traduzido:

“Rei leopardo, cuja decisão e ação ninguém poderá questionar, dê-me como resposta a construção completa desta casa” – o terreiro de candomblé Ilê Axé Opô Afonjá.

 

Extraído do Portal de Notícias A Tarde

http://atarde.uol.com.br/opiniao/noticias/o-correio-nago-entra-em-acao-1609990

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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