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O desrespeito à estética e à ética numa concessão pública

Por Moisés dos Santos Viana em 19/02/2013 na edição 734

Nos últimos dias, dois fatos chamam a atenção no que diz respeito às questões dos direitos humanos e comunicação social. Um é a entrevista do pastor Silas Malafaia a Marília Gabriela no SBT, domingo (10/2); o outro, a agressão a um jovem estudante homossexual na residência universitária da Universidade Federal de Goiais (UFG), sábado (9/2). Os dois fatos têm uma convergência que preocupa tanto do ponto de vista ético-comunicacional como legal. Esses fatos exigem uma reflexão que abrange temas como a cultura de ódio e desrespeito aos direitos humanos, bem como esse desrespeito avança e toma forma nos meios de comunicação social. Estes por sua vez estão totalmente desregulados/desregulamentados, sem uma legislação específica que garanta os direitos de expressão e sua democratização, ligadas a políticas públicas da sociedade, ferindo a Constituição do Brasil.

Na entrevista, Silas Malafaia, cheio de pontos soltos e polêmicas, expressa como uma parte do movimento cristão usa os meios de comunicação para apresentar suas ideias preconceituosas, ultrapassadas e que ferem os direitos humanos. Ele fala em um programa de entrevistas o que comunica sempre em seu programa na TV. Ou melhor, ele é mais um pastor dentre outros cristãos no imenso mercado midiático a pregar suas ideias. Quanto a expressar-se, é um direito constitucional, mas o que nos deixa preocupados é que isso é feito usando concessão pública em um sistema comunicacional desregulamentado com consequências concretas: a intolerância, o ódio e a violência. Como efeito disso, há ainda o desrespeito à estética e à ética comunicacionais e aos direitos humanos. Sem contar que tais pregadores são aparados por uma lacuna legal de regulamentação dos meios de comunicação e instituições religiosas poderosas e cheias de dinheiro.

Os absurdos da pregação midiática

Nesse universo selvagem dos meios de comunicação, padres e pastores com o peso econômico de suas instituições bravejam seus valores como verdades absolutas, com palavras de ódio contra os homossexuais e contra as religiosidades não-cristãs, tudo isso camuflado numa pregação com direito a passagens bíblicas soltas e mal interpretadas, citações de estudos questionados pela comunidade científica. Por exemplo, Silas Malafaia usa de pseudoverdades cientificistas para corroborar com sua ideologia homofóbica. Tais argumentos são questionados por legítimos pesquisadores da área da biologia e teólogos sérios não concordam com as interpretações grosseiras que são feitas da bíblia cristã.

No mundo da mídia, a selvageria; no mundo da vida, o espelho desse ódio pregado nos meios de comunicação: estudantes de intercâmbio made in Portugal agridem e quase matam um estudante homossexual em plena residência universitária da Universidade Federal de Goiás (UFG). O ódio das pregações se une a uma cultura de intolerância e violência. Essa cultura com raízes profundas na colonização e no modo de produção capitalista permite que temas como os direitos humanos não sejam tratados em nossas universidades como se deveria. Não há discussão, não há conscientização ou sensibilização por parte das instituições de educação, o que gera uma lacuna, permitindo tais eventos. Na mídia, temos apresentadores de TV, pastores evangélicos, padres católicos e autoridades políticas pregando o ódio contra homossexuais. A universidade como espelho da sua época retrata a violência que se espalha como um monstro que cresce pelo Brasil.

Essa circularidade entre mídia e mundo da vida nos leva a questionar como a retroalimentação do ódio nas culturas se apresenta na formação social do Brasil, na falta de uma regulamentação para o acesso pleno aos meios de comunicação social, bem como a uma ética e estética para a livre expressão, sua liberdade e seu papel social. De que maneira podemos fazer valer o que diz a Constituição, que o Estado é laico e de Direito? Até que ponto os absurdos da pregação midiática chegarão no Brasil? Quais os mecanismos que a sociedade usará para garantir os direitos humanos?

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[Moisés dos Santos Viana é jornalista e professor universitário]

Extraído do Caderno da Cidadania do Portal Observatório da Imprensa

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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