Hamilton assegura que perdeu medos e ganhou força com seu orixá, depois de anos pensando ser ligado a Xangô. Foto: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco

O gosto pelos prazeres de Vadinho acompanha o babalorixá Hamilton Fernandes, que descobriu ser filho de Exu, assim como o personagem

Por: Tatiana Notaro, da Folha de Pernambuco em 18/12/16 às 10H00, atualizado em 19/12/16 às 12H16

Hamilton assegura que perdeu medos e ganhou força com seu orixá, depois de anos pensando ser ligado a Xangô. Foto: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco
Hamilton assegura que perdeu medos e ganhou força com seu orixá, depois de anos pensando ser ligado a Xangô. Foto: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco

Descendo o Pelourinho, trocando as pernas de tão bêbado e vindo de um carteado mal-sucedido, Vadinho seguia nu em pelo, sem um tostão, coberto apenas pela benevolência de um amigo, que lhe emprestara uma capa. Quem o via passar nas ruas, não tinha dúvidas: um desavergonhado, alcoólatra inveterado, viciadíssimo no jogo e um legítimo filho de Exu, dos porretas.

Não bastassem todos os estereótipos desse orixá, ele não é do tipo que aparece no jogo de búzios para assumir ser o dono daquela cabeça (a pessoa para quem se joga). Foi por isso que o babalorixá Hamilton Fernandes passou anos pensando ser filho de Xangô.

“Vivia uma desarmonia. Muitos diziam que eu tinha cara e jeito de filho de Exu, mas eu não cogitava, até que encontrei o sacerdote Raminho de Oxóssi, que bateu folha na minha cabeça e Exu chegou. Isso faz 14 anos”, conta. Por ter sua origem na Jurema – religião onde Exu é compreendido como uma entidade de esquerda, que trabalha na rua, com cachaça, fumaça -, Hamilton se assustou com a revelação. “Pensei: meu Deus, então eu vou viver na rua? Será que esse orixá vai me trazer progresso? Mas fui encontrar dentro da divindade dele, da história, da origem, e ele é muito puro”.

Vadinho e Hamilton herdaram muito das características mundanas do seu santo: uma virilidade aflorada, a esperteza, o gosto pelos prazeres, são dos que amam forte e fortuitamente. “Tornei-me mais astuto, comecei a ganhar mais vida, tive mais caminhos abertos, perdi medos. E essas são características do meu orixá, ele me dá força. Exu não faz o mal, te dá a luz que você seguirá e chegará onde quer.

Como ele, tenho um temperamento oscilante, com momentos mais quietos, observador, e outros em que eu sou áspero, grito! Há momentos em que estou conversando com meu santo, olho pra ele e digo: agora eu quero, porque não tá te faltando nada! Hoje está faltando a casa dele, que já estou construindo. Em agosto, eu estou deitando pra ele”.
Em “O candomblé da Bahia”, Bastide trata dessas peculiaridades que Exu carrega. Em se tratando dele, em um terreiro, não se diz que o rodante (aquele que recebe o orixá) está “possuído” por Exu, mas que o “carrega”, “como um grande peso que dolorosamente se arrasta”.

Tido como um orixá de porte, alguns o identificam como São Pedro, o porteiro do paraíso. Os etnólogos na África designam Exu pelo termo trickster. À primeira vista, parece um ser malicioso que se compraz em brincadeiras, tal como Jorge Amado traz o personagem de Vadinho.

 

Extraído do site de notícias Folhape / Recife – PE
http://www.folhape.com.br/diversao/diversao/diversao/2016/12/18/NWS,10733,71,552,DIVERSAO,2330-O-FILHO-DESEJO.aspx

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