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O Poder

Ter poder, e ser de fato detentor de algum poder, são situações distintas em uma comunidade religiosa de Candomblé, isso no meu entendimento. Veja que sempre me refiro ao meu entendimento pessoal, porque o que escrevo é fruto da minha vivência religiosa. Caberia melhor dizer que é fruto da observação dos fatos e situações ao longo dos anos com pessoas que possuem os mais variados desejos de poder. Desde aqueles que rejeitam o poder que lhe é concedido, até aqueles que o desejam muito e intensamente e não medem esforços para conseguir o objetivo.

A utilização do poder e da hierarquia numa Casa de Orixá não está escrita em nenhum código explícito de conduta, nem mesmo está escrito de fato; a hierarquia e o poder existem pelo simples fato de ser assim e ponto final. Porém, são a hierarquia e o poder bem aplicados que mantém o grupo unido em torno de um objetivo ou de alguém, um líder. Mesmo se pensarmos em um trabalho filantrópico, sem fins lucrativos, perceberemos a hierarquia por trás do projeto; há sempre um líder, um catalisador, alguém a quem se prestam contas; e numa Casa de Orixá é diferente. O que vejo de problemático neste modelo de hierarquia e poder concentrados em mãos pouco habilidosas para o trato com as pessoas, é o fato dessa hierarquia sacerdotal estar diretamente ligada ao status que os postos de zelador, ogan, ekedji ou outro oyiê dão a alguns dignitários sem preparo e sem cultura suficientes para exercer estas funções; que lidam direta e diariamente com pessoas, com emoções e sentimentos, mas principalmente, lidam com vidas. E dessa forma, o poder se torna um comércio e uma forma de se impor pelo medo. Para exercer corretamente o poder é necessário, além do “direito conquistado”, ter o reconhecimento e o respeito da comunidade. É necessário ser um líder nato, e não um mero ditador de normas. Os grandes nomes de nossa religião nem sempre tiveram educação formal completa, mas tinham carisma e sensibilidade. Portanto, a educação a que me refiro nem sempre é a formal, pois educação vem de família e, como somos uma família pergunto: - Como estamos então educando nossos filhos? Deve-se ter bem claro em uma comunidade quem é o líder e quem são os liderados. Falo em líder e liderados, não senhores e escravos. Frequentemente se confunde hierarquia com satisfação dos desejos do elemento mais graduado, confundindo liderança com imposição do medo. O bom líder orienta, o mau líder se aproveita da fraqueza do outro para diversos fins. Como disse antes, em nossa religião não há um código de conduta escrito e formal; cada zelador é livre para fazer ou desfazer o que bem entender da forma como bem entenderem sua Casa. Logo, isso leva à formação de entendimentos particulares das noções de respeito à pessoa, e a hierarquia passa a só ter valor quando imposta de cima para baixo e de dentro para fora do grupo detentor do poder, sendo o restante do grupo relegado à condição de mantenedores do “status Real”. Casos típicos de confusão e de má conduta ética são os zeladores que, não tendo cultura ou educação (inclusive formal), quando empossados no comando de uma casa não hesitam em tratar as pessoas com total desprezo, principalmente os membros da sociedade civil de maior prestígio que lhes frequentam as casas. A mim parece um tanto de preconceito ou revanchismo. São pensamentos retrógrados e arraigados de que, fora da Casa, se o filho de santo é um médico ou um doutor, uma vez dentro da Casa de Orixá ele fará o que lhe for ordenado, se humilhará e será humilhado. Esse comportamento, associado à falta de ascensão social e reconhecimento profissional do zelador fora do seu próprio meio social/religioso, cria situações de constrangimento e desagrado, e acabam por excluir muitas pessoas do convívio nas Casas de Orixás, porque não compactuam com esse modelo predador de liderança. Educação talvez seja um bom começo. Não é porque não há um código de conduta que direcione o comportamento dos graduados que estes podem dispor das vidas, desejos, anseios e liberdades alheios da forma como melhor lhes convier. Somos, no mínimo, pensantes e temos sim direito ao bom e respeitoso tratamento, pois hierarquia e poder não pressupõe opressão. Pelos motivos acima, creio que o que constantemente leva uma Casa de Orixá a perder seus filhos e ser reconhecida como um local não muito confiável é a falta de capacidade dos seus líderes, do seu staff, em de fato liderar, indicar os caminhos e cuidar dos filhos da Casa como realmente seus filhos. Porque geralmente estes líderes estão mais envolvidos em disputas internas e silenciosas pelo poder do que centrados no que realmente importa, que é a educação religiosa do grupo e crescimento dos membros da comunidade. E, nestas disputas, não se leva em conta a sobrevivência da própria Casa como instituição de amparo aos filhos; não se leva em conta nada, somente a obtenção do poder a qualquer custo ou a manutenção dele. Como disse anteriormente, há também os que rejeitam o poder. Estes não contribuem em nada e se colocam à margem das disputas, mas também não se posicionam contrários a estas. São como já li em um grande livro “Ogãns de benção”, referindo-se às pessoas sem compromisso com a Casa. Não falo aqui especificamente dos Ogãns, não há nenhum preconceito, refiro-me à generalidade dos cargos e do status que eles proporcionam na comunidade, sem, no entanto se envolver profundamente com seus assuntos. Talvez seja mais adequado chamar este grupo de “Irmãos de benção”. Limita-se a trocas de bênçãos. Claro exemplo de dominação pelo medo se dá em uma consulta de búzios ou a uma Entidade, onde o objetivo principal é a busca de soluções e respostas para um determinado assunto e essa consulta pode acabar impondo ao consulente uma série de outros assuntos que não lhe são pertinentes, mas que podem dar status de grande adivinho ao zelador. Portanto, uma grande possibilidade de manipular e dominar as pessoas. Às vezes até pelo medo. E esse é somente um item de um grande arsenal de formas usadas para impor o medo. O objetivo de um jogo ou uma consulta é interpretar os ditames dos Orixás e a partir disso indicar e orientar se o consulente precisa fazer ou deixar de fazer algo, assumir uma determinada atitude ou se libertar de certas atitudes para assim alcançar o seu equilíbrio. É nesse ponto que começamos a diferir o poder de fato do poder imposto. Afinal, amedrontar uma pessoa se utilizando de um jogo ou de uma Entidade para obter vantagens é coisa fácil, o difícil é encontrar pessoas que queiram orientar e cuidar, dar carinho e uma palavra de conforto. Como disse, é difícil encontrá-los, mas graças aos Orixás pessoas sérias também ocorrem em grande número, pois afinal é para isso que são graduados e ocupam seus cargos. O objetivo deste texto é dizer que o poder deve ser utilizado para colaborar, para influenciar positivamente, para fazer crescer a comunidade e os filhos, portanto, devemos antes de nos entregar de corpo e alma a um líder religioso, avaliar cuidadosamente que tipo de poder queremos exercer e a que tipo de poder estaremos sujeitos. A busca constante da felicidade conduz à felicidade. Não sei de quem é a frase, mas é bem interessante. Tomeje.

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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