Breaking News

O preconceito e a intolerância nos Estados Unidos

29/07/2016 às 21h04

 

Com a chamada reforma protestante ocorrida na Europa no séc. XVI, a Inglaterra foi o Estado que mais radicalmente promoveu mudanças em seu status religioso. Chegou ao ponto do rei Henrique VIII (embora por motivos particulares), romper com a Santa Sé e fundar sua própria religião, a Anglicana, e se tornar seu chefe máximo. Aliás, como ainda ocorre até hoje, sendo a rainha Elizabete, oficialmente, a chefe dessa igreja. Nessa toada, outras religiões também foram constituídas na Grã-Bretanha e aí o fundamentalismo e o radicalismo religioso grassaram com uma virulência jamais vista. Por conseguinte, as guerras civis/religiosas entre puritanos e anglicanos passaram a se suceder, se arrastando para os séculos seguintes.

Como já estavam instaladas na costa leste da América do Norte as 13 colônias inglesas (Nova Inglaterra), boa parte do povo inglês passou a imigrar para a América, com o objetivo de fugir da intolerância religiosa e iniciar um novo estilo de vida. Esse estilo seria o da tolerância, convivência pacífica entre qualquer credo religioso, sendo que a ética protestante seria o novo modus operandi no comércio. Qual seja, o capitalismo nascente seria seu norte.

E aí, quanto à convivência harmoniosa entre as religiões até que tocaram bem. O problema foi a tal ética protestante, que preconizava que o enriquecimento material dos indivíduos seria uma dádiva de Deus. E assim, libertos das amarras da religião católica que dogmatizava que a riqueza poderia ser o caminho para o terrificante inferno, os protestantes americanos se sentiam a vontade para iniciar, assim, o enriquecimento a qualquer preço, chegando ao que são hoje, a nação mais rica do mundo.

Nesse diapasão paradoxal foi que surgiu o primeiro preconceito e discriminação racial nos Estados Unidos, sendo exatamente contra seu próprio povo nativo, os índios. Daí para frente e nos próximos séculos, foi um genocídio só. Principalmente quando se iniciou a corrida rumo ao interior, mais exatamente para a costa Oeste, com a descoberta de grandes minas de ouro no séc. XIX. Dessa maneira, os chamados selvagens, os peles vermelhas, foram dizimados aos milhões, sem dó nem piedade (pelos civilizados). Inclusive, grandes nomes da independência americana do final do séc. XVIII, como Tomaz Jefferson, John Adams, Benjamin Franklin e, principalmente, George Washington, foram grandes caçadores de índios, tendo-os exterminados aos milhares.

Não satisfeitos com a exploração e dizimação dos índios, que, aliás, ofereceram heroica e vã resistência, resolveram diversificar e passaram a traficar negros da África, implantando-se, assim, impiedoso cativeiro, igualmente acompanhado de ignominioso preconceito contra negros, o que, embora de intensidade menor, dura até hoje. A escravidão nos Estados Unidos foi tão intensa que até levou o país a uma feroz guerra civil (a Guerra de Secessão, 1860/1865), entre o Norte abolicionista, que já libertara seus escravos, e o Sul, ainda escravista. Felizmente venceu o lado da liberdade, o Norte. Porém, essa guerra deixou feridas profundas por décadas na sociedade americana. Igualmente, deixou como herança  grande carga de preconceito, inclusive leis segregacionistas que só foram derrubadas na segunda metade do século passado, não sem muita luta e sangue, como por exemplo, do líder negro Martin Luther King, assassinado nos anos 1960.

No final da década de 1940 e principalmente na, de 1950, outro forte movimento discriminatório e segregacionista eclodiu nos Estados Unidos, que foi o Macartismo. Liderado pelo senador demagogo e fascista Joseph Mc Carthy, houve uma verdadeira paranoia de caça às bruxas, não só a todos que tivessem simpatia por ideologia política de esquerda, mas também a quantos eles supusessem ter potencial para serem comunistas. Aí, a classe que mais sofreu os rigores de morte, prisão e tortura foi a dos intelectuais e artistas, para variar. Até papel em branco poderia servir de prova contra alguém, pois, ‘potencialmente’, poderia ser para redigir um panfleto. Foi uma época melancólica num país que já se fixava como a potência hegemônica da terra.

Hodiernamente, outro grande preconceito está em curso naquele país, que é contra latinos e principalmente muçulmanos de qualquer nacionalidade. Como se isso já não bastasse, surge agora outra espécie do gênero Mc Carthy, chamado Donald Trump. Um gangster! A única coisa que ele tem de bom, ou de boa, é a mulher; desde que fique de boca fechada. Se ganha as eleições presidenciais um celerado daquele, certamente que haveria uma desvairada xenofobia, nova perseguição racial, uma espécie de neomacartismo nos Estados Unidos, o que seria um retrocesso democrático de pelo menos meio século. Seria de doer! Assim, o que esperamos é que, “na falta de tu, vai tu mesmo”, ganhe a candidata dos banqueiros, a ultracapitalista Hilary Clinton. Pobre de uma nação quando tem que decidir entre a cruz e a espada.

 

É, tanto lá quanto cá, maus fados há.

 

NORIVAL BARBOSA é assessor do Governo Ataíde Vilela.

 

Extraído do site ClicFolha / Passos – MG
http://www.clicfolha.com.br/noticia/58893/o-preconceito-e-a-intolerancia-nos-estados-unidos——-

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

Related posts

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *