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O primeiro samba

A História da MPB – Capítulo 5

por: Ronaldo Victoria

06/11/2017 às 09:53

 

Donga

O primeiro samba oficial do Brasil é Pelo Telefone. É assim considerado porque foi a primeira vez que a palavra samba foi utilizada (naquele tempo todas as gravações continham o ritmo ou estilo da música) no registro, feito há mais de 100 anos, a 27 de novembro de 1916. Foi registrada no Departamento de Direitos Oficiais do Rio de Janeiro em nome do compositor Donga, apelido de Ernesto Joaquim Maria dos Santos, que tinha 26 anos. De início ele colocou apenas seu nome, mas depois assumiu que a letra era do jornalista Mauro de Almeida, posteriormente creditado.

Essa não foi a única polêmica que envolveu o primeiro samba, até para ter a primazia de dar início a história. De acordo com o pesquisador musical Carlos Sandroni, outras músicas tinham o ritmo de samba, mas Pelo Telefone foi a primeira a conseguir apelo popular, sendo grande sucesso no carnaval de 1917. Outro pesquisador, Ricardo Cravo Albim, destaca que a própria autoria pode ser questionada, já que os sambas surgiam na casa da Tia Ciata, no centro do Rio, onde os compositores se reuniam e havia muita improvisação nas rodas.

O quintal da Tia Ciata era o ponto de encontro. Reverenciada como dama do samba, era uma mãe de santo que veio da Bahia fugida da perseguição religiosa. No Rio de Janeiro, Mantinha um terreiro de candomblé e contam que teve sossego por conta de suas habilidades de curandeira, chegando a curar o então presidente Hermes da Fonseca. Donga era frequentador assíduo dos encontros. Em seu pedido de registro, ele anexou uma partitura da música, feita por Pixinguinha, já que ele era autodidata, e um atestado dando conta de que Pelo Telefone foi apresentado pela primeira vez em 25 de outubro de 1916, no Cine Theatro Velho.

A melodia original se chama Roceiro e contou com a colaboração de outros bambas, como Caninha e Sinhô. Depois é que Donga aperfeiçoou e trocou o nome original. A letra original dizia: “O chefe da folia/ Pelo telefone manda me avisar/ Que na Carioca tem uma roleta para se jogar”. Em depoimento ao MIS (Museu da Imagem e do Som), Donga afirmou que a versão mais famosa trocou “chefe da folia” por “chefe da polícia” por causa de uma paródia feita pelos repórteres do jornal A Noite. É que, em 1913, os jornalistas colocaram uma roleta no Largo da Carioca para provocar a polícia e demonstrar a conivência das autoridades com os jogos de azar. Mesmo assim, o jogo continuou liberado.

A composição rendeu a Donga muito prestígio (além do nome ter passado para a história), mas também uma série de críticas. O radialista Almirante o acusou de ser oportunista, já que Pelo Telefone era uma criação coletiva feita numa roda de samba. Mas ele garantia que as versões eram diferentes. Quanto a omissão do parceiro letrista, atribuiu a culpa à Casa Edson, a gravadora, que não colocou o nome de Mauro de Almeida no selo. O primeiro samba ficou relativamente esquecido até 1973, quando Martinho da Vila o regravou com grande sucesso. Na sua versão, o compositor da Vila Isabel preferiu a versão mais conhecida, colocando “chefe da polícia”.

 

Extraído do site de notícias A Província / Piracicaba – SP
https://www.aprovincia.com.br/cultura-entretenimento/emporio-cultural/historia/o-primeiro-samba-22861/

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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