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O Rio reage contra a intolerância

Agressão a uma menina de 11 anos revelou fragilidade da convivência entre credos

 

MARÍA MARTÍN Rio de Janeiro 22 NOV 2015 – 14:29 BRST

 

Arcebispo do Rio e a menina que levou pedrada no Rio. / ARQRIO
Arcebispo do Rio e a menina que levou pedrada no Rio. / ARQRIO

 

O Rio de Janeiro é o segundo Estado menos religioso do Brasil, mas também o que tem maior proporção de praticantes de religiões afro-brasileiras do país: 1,61% dos fieis, segundo um levantamento da Fundação Getúlio Vargas, enquanto no território nacional só 0,35% da população se declara como tal. Os rituais da Umbanda e o Candomblé, como as oferendas a deusa do mar Iemanjá, foram inclusive a origem de costumes hoje tão próprios dos cariocas como a festa do réveillon na praia de Copacabana, que atrai milhões de pessoas todos os anos para saudar a orixá na virada. Mas a convivência entre credos é frágil na cidade Maravilhosa.

O Rio liderou as denúncias de discriminação religiosa em 2014, segundo um levantamento da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. O último e mais violento exemplo foi a pedrada lançada em junho contra Kailane Campos, de 11 anos, quando saía de um culto vestida de branco junto com a avó, que é mãe no santo. “O que chamou a atenção foi que eles começaram a levantar a Bíblia e a chamar todo mundo de ‘diabo’, ‘vai para o inferno’, ‘Jesus está voltando”, disse  a avó da menina, Káthia Marinho, após o ataque. O Rio é o quinto Estado do país em religiões evangélicas tradicionais e o 15º nas evangélicas pentecostais, como a Assembleia de Deus.

 

Dias depois, uma passeata contra a intolerância religiosa ocupou a praia de Copacabana, na zona sul do Rio de Janeiro. Na marcha, o presidente da Comissão Estadual de Combate à Intolerância, Ivanir dos Santos, cobrou que os crimes motivados por intolerância religiosa sejam registrados e investigados como tal. “As delegacias não podem registrar esses casos como rixa de vizinho e desentendimento. É importante esses episódios chegarem até o Judiciário e ele tomar suas medidas. E o Governo federal tem de fazer o Plano Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, porque enquanto Governo e sociedade civil não pactuarem uma forma de enfrentar a situação, o que está em risco é a democracia”, disse Santos à Agência Brasil.

Outra reivindicação, já contemplada em uma lei de 2011, é a implementação de uma delegacia específica. “É o grande desejo dos representantes das religiões diversas. Os crimes de ódio, que assistimos diariamente no Rio, merecem que essa demanda seja atendida”, disse, em 18 de agosto, o presidente da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio, o deputado Marcelo Freixo (PSOL) durante uma audiência para debater a liberdade religiosa.

Nessa audiência foram apresentados mais dados e depoimentos que escancaram uma convivência delicada entre fieis. Entre julho de 2012 e dezembro de 2014, o Centro de Promoção da Liberdade Religiosa & Direitos Humanos registrou 948 queixas, 71% delas sobre intolerância a religiões. A professora de português Denise Bonfim, que é muçulmana, disse ao portal G1 que foi ameaçada de morte na mesma rua onde a menina Kayllane foi apedrejada. “Estava usando o hijab (véu islâmico) e disseram que iam me matar. Fiquei com muito medo e passei vários meses sem usar o véu e sem entender o motivo de tamanha intolerância”, relatou. Átila Nunes, autor da lei de 2011 que cria a Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância, lamenta. “Temos um pequeno estado islâmico encravado no Rio de Janeiro”, lamenta ele. A delegacia que ele tenta criar ainda no papel.

 

Extraído do corresponde estrangeiro no Brasil do Jornal espanhol El País
http://brasil.elpais.com/brasil/2015/09/25/politica/1443198009_042400.html

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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