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Ogum iê, Feijão. Intolerância religiosa vem de quem não ama o próximo

Dramaturgo e curador, é um grande observador da cidade e de sua gente.

SÉRGIO MAGGIO

14/07/2017 5:30 , ATUALIZADO EM 16/07/2017 23:15

FELIPE OLIVEIRA / EC BAHIA

Feijão, jogador do Bahia, é filho de Ogum, orixá guerreiro, que segura as demandas. Eu, colunista do Metrópoles, sou filho de Oxum, a deusa mãe que acalenta. Somos de religiões de matriz africana por livre opção e vivemos num país de liberdade religiosa. Podemos cultuar o deus que quisermos.

Na cabeça de milhões de brasileiros, essa “força divina” é de natureza múltipla e diversificada. Pode ter o formato do deus-elefante (o poderoso Ganesha da Índia), do iluminado Buda, do deus-árvore Iroko, do revolucionário Jesus Cristo, dos gêmeos Cosme e Damião, do caboclo Cobra Coral das Matas, entidade sagrada da Umbanda, ou dos mensageiros de luz que incorporam nos médiuns do espiritismo.

MAIS SOBRE O ASSUNTO

Esses deuses podem também nem existir. O direito em acreditar que a vida acaba com a morte é bem-vindo. Há quem creia que a religião é um escapismo, já que somos a única espécie na Terra com consciência da morte.  A filosofia e as ciências têm historicamente tirado o poder retrógrado que as instituições religiosas impõem aos seus rebanhos. Viva os ateus que têm fé na vida! E isso nada tem a ver com a crença de cada um.

A intolerância religiosa tem derramado sangue pelo mundo afora. O ódio em nome de um deus fere o princípio da fraternidade que emana das religiões em sua essência. As de matrizes africanas no Brasil sofrem há séculos com a perseguição. E não se engane. Esses ataques estão ligados ao racismo, ao desprezo ao povo negro escravizado, que ainda é tão presente no cotidiano do brasileiro.

 

Feijão rebate comentários de torcedor no Instagram (Foto: Reprodução/Instagram)

Pastores de templos equivocados, sobretudo, de igrejas neopentecostais, trocam preces de fervor por mensagens de segregação. Terreiros voltaram a ser perseguidos como no começo do século 20. Imagens de orixás foram depredadas na Prainha, em Brasília. Integrantes de cultos afros violados no seu ato de ir e vir. Voltamos para às trevas.

Há um descompasso enorme entre o sentido de amor dessas religiões e o exercício do respeito diário.

Ainda ouvimos por aí. “Chuta que é macumba”. Não, não chuta. As oferendas aos deuses africanos são como preces.

Os terreiros sérios não despacham “ebós” para que uma pessoa traga o amado em sete dias. Isso é golpe. Exploração da fé alheia. Algo similar acontece em outras religiões que vendem até “terrenos no paraíso” é “óleos ungidos milagrosos”. Infelizmente, vivemos entre empresários da fé que difundem a ideia do “deus único” para ter fiéis contribuintes.

Falo do jogador Feijão porque ele foi ofendido por agradecer a Ogun, seu orixá de cabeça, numa rede social. Agredido por acreditar em outro deus numa terra que deve absolutamente tudo às mãos negras. A Bahia, sobretudo, e o Brasil têm uma dívida incalculável com o povo que foi arrancando da África e transformado em escravo. Depois, jogado às favelas. Uma conta que ainda não foi paga. Mas que poderia começar pelo respeito às crenças alheias.

Ogum iê, Feijão!

 

Extraído da Coluna Tipo Assim , do site da Revista Metropoles / São Paulo – SP
http://www.metropoles.com/colunas-blogs/tipo-assim/ogum-ie-feijao-intolerancia-religiosa-vem-de-quem-nao-ama-o-proximo

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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