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Os contos afro-brasileiros


Helena Theodoro | 18/07/2014 14h46

bio_helenatheodoro_blog_2Helena Theodoro – Cultura Afro

Carioca, escritora, doutora em Filosofia, mestre em Educação, pesquisadora de cultura afro-brasileira, coordenadora do curso de Pós-graduação de Figurino e Carnaval da UVA.
 

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.

 

Os cultos afro-brasileiros se apoiam no MISTÉRIO (Awô), pois reconhecem que PENSAR NÃO É CONHECER. É um processo de libertar-se de programações. É deixar-se atravessar pelo movimento de uma relação livre que não está afivelada a nenhuma declaração. A LIBERDADE REAL é tanto negativa quanto positiva, sendo CRIATIVA. O segredo está na manutenção do EQUILÍBRIO do universo e na consciência de que toda consciência é uma representação de sofrimentos, medos e dores, e que tais representações criam instituições. As soluções são sempre UMA LUZ DE FALTA DE LUZ.

Muniz Sodré ao prefaciar Contos Crioulos da Bahia de Mestre Didi situa a história da cultura afro-brasileira como sendo ” a história do seu silêncio, das circunstâncias de sua repressão, tendo a oralidade como necessária à sua dinâmica interna e ao seu posicionamento de defesa diante da cultura dominante. Daí o primado da TRADIÇÃO que é o meio de conservar e transmitir o saber de uma geração a outra”.

É muito importante que se procure olhar os contos negros por diversos ângulos. A negra velha contadora de histórias é um estereótipo mantido na sociedade brasileira. No entanto, não se conhece o sentido nem a finalidade dessas histórias. Os contos transmitem formas de pensar e de se comunicar dos negros, sendo que os contos de Mestre Didi, o Alapini, um dos mais eminentes sacerdotes da tradição nagô, da família Asipá, se destacam dos demais gêneros e formas literárias por terem uma maneira própria de mostrar os valores da comunidade, sempre afirmando a identidade do grupo. Essas histórias, ao mesmo tempo que esclarecem os valores civilizatórios deste segmento populacional, mostram sua luta por integração e reconhecimento pela sociedade global.

Mestre Didi, que morreu em 2013, era artista plástico, reconhecido internacionalmente e escritor, tendo publicado inúmeros livros de contos. Suas histórias preservam a forma de narração que recebeu de seus antepassados, sendo ótima fonte de estudos, por apontarem diretamente para o universo mítico afro-brasileiro. Alguns contos foram adaptados para a dramaturgia, como o Porque Oxalá usa Ekodidê, montado pelo grupo de dança da Universidade Federal da Bahia em l973, apresentado no Rio de Janeiro em outras ocasiões, e que mostra a importância das mulheres na cultura afro-brasileira.

O conto apresenta a relação estreita entre a menstruação e a fecundidade, o grande poder da gestação na tradição nagô, a força das Iyá-mi, como podemos constatar neste resumo:

Uma sacerdotisa, filha de Oxun, chamada OMO-OXUN, servia a Oxalá, sendo encarregada de cuidar de seus para mentos e, especialmente, de sua coroa. Alguns dias antes do festival anual, algumas seguidoras de Oxalá, invejosas da posição de Omo-Oxun, decidiram roubar a coroa e jogá-la nas águas. Quando Omo-Oxun descobriu o furto, entrou em profundo desespero. Uma menina que ela criava a aconselhou a comprar o primeiro peixe que encontrasse no mercado. Porém, Omo-Oxun não conseguiu nenhum e, somente quando estava voltando é que encontrou um rapaz com um grande peixe na cabeça. Ao chegar a casa não conseguiu abrir o peixe. A garota apanhou um cacumbu (faca) e conseguiu tirar com facilidade a coroa da barriga do peixe. No dia da grande cerimônia, ao saber que Omo-Oxun havia conseguido milagrosamente achar a coroa, as invejosas resolveram desprestigiá-la na frente de Oxalá. Colocaram um preparado em sua cadeira, ao lado do trono. Oxalá chegou, sentou-se e fez com que todos os presentes se sentassem. Em seguida pediu seus paramentos a Omo-Oxun, que não conseguiu se levantar. Tentando várias vezes Omo-Oxun conseguiu, por fim, sair da cadeira, mas desgarrando as partes baixas de seu corpo que começaram a sangrar copiosamente, manchando tudo de vermelho. Oxalá, cujo tabu é o vermelho, levantou-se inquieto. Omo-Oxun fugiu envergonhada, indo bater à porta de todos os orixás, que não quiseram recebê-la. Por fim, implorou a ajuda de Oxun que a recebeu carinhosamente e transformou o corrimento sanguíneo em penas vermelhas do pássaro ODIDE, chamadas EKODIDÉ, que iam caindo dentro de uma cabaça. Diante de tal mistério (awô) todos se alegraram, rufando-se os tambores e chegando curiosos de todas as partes para assistir ao fato:

MÃE FEZ MISTÉRIO

Todas as noites, Oxun abria as portas para receber os visitantes que apanhavam um EKODIDÉ e colocavam cauris (dinheiro) na cuia colocada ao lado. Todos os orixás compareceram e até Oxalá foi à festa, fazendo o dòdòbálè para Oxun e prendendo um EKODIDÉ em seus cabelos.

Mesmo o grande Orixá funfun faz o sinal de respeito e de submissão diante do poder da gestação. Um cântico relembra esta situação:

Òdofin dòdòbálè k?obinrin

Òdòfin (Oxalá) saúda prostrando-se frente à mulher!

Através de sua fé, de seu Axé, as contadoras de histórias, presente nas diferentes comunidades religiosas, conseguiram trazer até nossos dias imagens sacralizadas de seu passado, que se volta para a mitologia africana, apontando insistentemente, por meio da tradição oral, para as estratégias mais diversas de insubordinação simbólica, que lhes possibilita criar mecanismos de defesa para a sobrevivência e a manutenção de seus traços culturais de origem, sendo uma forma de educar nosso jovens e que deveria ser utilizada em nossas escolas.

Extraído do Blog do Jornalista Sidney Rezende

http://www.sidneyrezende.com/noticia/233297+os+contos+afro+brasileiros

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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