Breaking News

Os homens que se consideram deuses

 

por Hamdullah Ozturk — publicado 07/11/2017 01h00, última modificação 06/11/2017 18h40

Dos traficantes que atacaram um terreiro em Nova Iguaçu ao atirador do Texas, a prepotência de quem diz agir em nome de Deus

 

Reprodução
Terreiro destruído no Rio de Janeiro

Alguns indivíduos invadiram um terreiro em Nova Iguaçu e, como se isso não fosse suficiente, apontaram uma arma para uma mãe de santo e fizeram com que ela quebrasse os próprios santos. Ainda por cima, ameaçaram a sacerdotisa de morte caso reabrissem o templo naquela região.

Quem é capaz de fazer isso? Será que tais indivíduos acreditavam em Jesus de forma verídica? A resposta é clara, não?

Agora vamos analisar outra frase do traficante:

“O sangue de Jesus tem mais poder. Essa é a única vez que estou tendo um diálogo com vocês. Da próxima vez, eu mato. Eu sou a honra e o orgulho de Jesus.”

É claro que Jesus não era fraco. Ao contrário, era forte. Mas sua força se referia à força bruta? Jesus ameaçou ou matou seres humanos para que acreditassem nele? Não.
O que os invasores diriam caso perguntássemos isso a eles? A resposta não seria que Jesus se sacrificou pela humanidade? Por que então fazem uma coisa desagradável a Jesus para agradá-lo?

Eis que esta pergunta causa a maior dor de cabeça. Vamos fazer a mesma pergunta aos muçulmanos:

Por que alguns cometem um crime como terrorismo em nome do islã, enquanto o Alcorão diz que matar um ser humano é como matar toda a humanidade? Por que alguns assassinam civis e inocentes com um caminhão ou uma bomba, gente que não tem nada a ver com aqueles que as exploraram e lhes causam raiva?

Se quiserem, vamos nos lembrar de Andres Breivik, que fez 77 vítimas na Noruega. A Justiça norueguesa considerou que Breivik, autodeclarado guerreiro contra a “islamização da Noruega”, tinha problemas de saúde mental e o condenou a 21 anos de prisão. Breivik afirmou que iria escrever um livro na prisão contra a multiculturalidade.

Estes acontecimentos tendem a aumentar. No domingo 5 de novembro, uma igreja, no Texas, EUA, sofreu um ataque armado e 27 morreram.

O número de exemplos de fiéis que morreram enquanto adoravam a Deus nos seus templos religiosos é crescente. Mas precisamos aplaudir os bons exemplos e não ficar contando os maus.

Após a decapitação do jornalista americano James Foley pelo Estado Islâmico, alguns americanos pensaram que os muçulmanos sofreriam ataques e em um dia de domingo foram para a mesquita no Iowa. Lá, formaram um círculo ao redor da mesquita de mãos dadas. O propósito deste ato era claro: queriam dizer que se alguém ficar com raiva dos muçulmanos e quiser atacá-los por causa do que esse grupo terrorista (DAESH-ISIS) fez, teriam que enfrenta-los primeiro.

O que os brasileiros fazem a respeito?

Uma invasão a um templo de candomblé é uma questão tanto de liberdade religiosa quanto da liberdade de não ter crença. O que católicos, evangélicos, muçulmanos, judeus, ateus e os defensores de liberdade sentem diante de ataques como esse?

Não há diferença entre a invasão de um templo de candomblé e a invasão de uma mesquita muçulmana. Caso vocês não tomarem providência para evitar tais ataques, algum dia a mesquita de vocês também sofrerá ataques.

Por quê?

Há quem se proponha a fazer coisas por Deus de uma maneira que Deus não permite. Quem assim age, na realidade, nem creem em Deus. Ao contrário, são aqueles que adotaram seus desejos como deuses (Alcorão, 45:23).

Por isso, às vezes pode surgir como um muçulmano ou como um cristão ou um judeu, como o doutor Baruch Goldstein, que atacou a mesquita de al-Khalil durante a oração, matou 29 e feriu 125 com uma metralhadora em 25 de fevereiro de 1994.

Na verdade, não são cristãos, nem muçulmanos nem judeus, tampouco possuem uma crença. Estes são aqueles que idolatram seus desejos e são os ignorantes fanáticos que se consideram deuses. Evitar os ataques deste tipo depende daqueles que sabem o valor da dignidade humana, da crença e da liberdade. 

Tradução: Atilla Kus. Revisão: Mustafa Goktepe

 

 

Teólogo muçulmano, diretor de atividades religiosas na comunidade turca. Escreve às terças-feiras

 

 

Extraído da coluna Diálogos da Fé da Revista Carta Capital / São Paulo – SP
https://www.cartacapital.com.br/blogs/dialogos-da-fe/os-homens-que-se-consideram-deuses

 

 

 

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

Related posts

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *