Breaking News

Os olhos azuis da nora judia

737778ESTHER MUCZNIK 

 

 

 

 

Caderno OPINIÃO

“Sabia que a minha nora é judia”? Não, eu não sabia. Mas fiquei a saber que ele a apreciava muito … e que ela tinha uns belíssimos olhos azuis.

“Ele” é o Conselheiro José Menéres Pimentel que acaba de nos deixar. Nunca o conheci pessoalmente ao longo da sua extensa e intensa carreira política. Mas tive esse gosto e privilégio durante os anos em que presidiu à Comissão de Liberdade Religiosa. Foi o seu primeiro presidente a partir de 2004 e aí deixou a sua marca que se prolongou para lá da sua saída em 2007.

Durante a sua presidência aprendi a conhecer, a admirar e a estimar um homem para quem a liberdade, a democracia e a abertura de espírito não eram meras palavras. Aprendi o que significa na prática ser “social-democrata”, espécie hoje em vias de extinção. Aprendi que a modéstia é apanágio dos homens grandes, a afabilidade um convite ao diálogo. Menéres Pimentel ouvia primeiro, depois tirava as suas conclusões.

O sectarismo, os “ismos” eram-lhe desconhecidos. “Os extremos são sempre negativos”, dizia. Uma sabedoria, também em perigo de vida… Mesmo depois de deixar a Comissão, nunca esqueceu as pessoas: quando vinha à Baixa com a sua mulher, não deixava de ir à Rua Augusta cumprimentar as funcionárias com a mesma delicadeza de sempre.

No Natal de 2010, veio à Comissão de Liberdade Religiosa fazer-nos uma visita, já Mário Soares era presidente da comissão. A sua companheira de sempre tinha falecido, mas brindámos à vida. A dor da perda deixara marcas mas afiançou-nos que a família, muito especialmente os netos nunca o deixavam só.

O seu humor era acutilante, por vezes corrosivo mas nunca maldoso. “Então já voltou da guerra”? dizia-me por vezes quando eu regressava de Israel. “Desta vez, vocês superaram-se!” E o seu sorriso era sempre caloroso.

 

Foi-se o homem, fica a saudade.

 

Extraído do site do Jornal portugues Público.pt

http://www.publico.pt/opiniao/noticia/os-olhos-azuis-da-nora-judia-1623836

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

Related posts

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *