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Òsúmàrè – religiosidade e compromisso social

Jaime Sodré | Professor universitário, mestre em História da Arte, doutorando em História Social | sodre@atarde.com.br

 

Qui, 08/09/2016 às 16:16

 

Os simpatizantes e fiéis da umbanda e do candomblé lotaram o espaço da Assembleia Legislativa para o ato comemorativo dos 180 anos do terreiro Ile Òsùmàrè Aràkà Àse Ògòdó – a Casa de Oxumaré, proposta do deputado Bira Coroa, acatada pelos Correios.

As raízes deste espaço religioso têm seus vínculos históricos com a cidade de Kpeyin Vedji, no noroeste de Abomey, região onde se concentravam os sacerdotes do culto a Sakpata (Ajúnsún).

Coube ao baba Talámi a transferência para o Brasil deste importante seguimento religioso de matriz africana, cultuado por vários seguidores, em uma ação que soma a manutenção da religiosidade com um vigoroso projeto social de assistência aos seus fiéis e àqueles que necessitarem, sem a obrigação de pertencer ao culto.

Talábi, como era a exigência da época, fora batizado na Igreja da Conceição da Praia, mas não deixou, apesar da condição de escravo, de implantar na Bahia, em 1845, o culto com a Casa de Oxumaré, que resistira às perseguições e preconceitos, e hoje é motivo de orgulho no Brasil por sua atuação sagrada e social. Em 1860, Talábi delegou aos seus filhos a continuidade da tradição e manutenção do templo e as obrigações a Oxumaré.

A diretoria regional dos Correios na Bahia, representada pela Sra. Alda Neiva, sua atual diretora, juntamente com a sua laboriosa equipe (Sra. Jane, Sra. Fátima e Sr. Eusébio), realizou o lançamento de um selo alusivo aos 180 anos do terreiro de Oxumaré.

Inserido no universo do colecionismo postal, este selo celebra os “180 anos de religiosidade e compromisso social da Casa de Oxumaré”.

Segundo a Sra. diretora Alda, trata-se de “um selo personalizado… um produto filotélico composto por um selo impresso pela Casa da Moeda do Brasil, no qual a imagem é aplicada diretamente sobre a folha base de selos…”

Segundo os Correios: “A história da Casa de Oxumaré foi escrita com a coragem de africanos e perpetuada com a abnegação daqueles que jamais abandonaram suas raízes”, justificando a feliz oportunidade da homenagem.

A peça é composta por uma belíssima imagem dos sacerdotes que já passaram pela casa: Talabi, Salakó, Antonio de Oxumaré, Cotinha de Ewá, Simplícia de Ogum, Nilzete de Yemanjá e babá PC de Oxumaré, atual líder religioso (lembro-me de iya Francelina). Circundando os sacerdotes, exibe-se altaneiro um belíssimo arco-íris, representando o orixá regente daquela casa, ou seja o próprio Oxumaré.

Esta peça filatélica de valor estético e histórico fora carimbada e assinada pelas autoridades presentes, destacando, além de baba PC, o deputado Bira Coroa, autor da ideia da seção comemorativa.

Este selo, hoje relíquia, passara a fazer parte do acervo filatélico dos Correios, servindo de fonte de pesquisa e registro deste importante acontecimento no espaço histórico e sociocultural. Em seguida, houve a entrega de um álbum da emissão do selo às autoridades.

Sensibilizados, agradeceram ao gesto dos Correios o sumo sacerdote do terreiro de Oxumaré, baba PC, e o deputado Bira Coroa. Baba PC chamou a atenção para uma convivência pacífica entre os religiosos e amparo aos idosos, enquanto que a ya kekere da casa, Sandra Bispo, alertou para os cuidados com a nossa juventude.

É oportuno lembrar o empenho da casa que, inúmeras vezes, se colocou, até mesmo fisicamente, em defesa da prática litúrgica do candomblé e do seu espaço físico, como foi a atuação de mãe Nilzete e baba PC, entre outros fiéis, que se instalaram noites e noites no espaço territorial do terreiro, para evitar a atuação de um trator, da prefeitura de então, que desejava intervir na “mata sagrada” para a construção de uma passarela.

Após as comemorações do selo, seguiram-se a festa no barracão, espaço das divindades, acolhendo a todos, do candomblé ou não. Olorum Modupé.

 

 

Extraído do site do Jornal A Tarde / Salvador – BA
http://atarde.uol.com.br/opiniao/noticias/1800063-osumare—religiosidade-e-compromisso-social-premium

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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