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Pai Mauro e a luta contra a intolerância religiosa

 

Sexta-feira, 15/09/2017, às 16:10, por Yvonne Maggie

 

No dia 7 de setembro último tive um encontro extraordinário. Pelas mãos de meu amigo Jean-François Véran, fui conhecer Mauro Nunes, babalorixá, o Mauro d’Oxóssi.

Um grande portão de madeira ladeado por muros altos esconde uma confortável residência dedicada aos orixás, no pé de uma zona de preservação ambiental a poucos quilômetros da reserva de Tinguá, em Miguel Couto. Organizado com capricho e sensibilidade, o terreiro abriga um jardim com plantas bem cuidadas oriundas de vários locais como Moçambique, Angola e  Bahia, por onde serpenteiam caminhos que nos levam ao barracão. Há muito não via tanto esplendor e bom gosto. Lá dentro, a grande cadeira ocupada pelo babalorixá em dias de festa fica em um plano sutilmente mais elevado permitindo que todos possam vê-lo de longe. O poste central dedicado a Xangô é todo rebuscado e iluminado com as cores do orixá.

Pai Mauro nos recebeu com a gentileza e amabilidade dos grandes sacerdotes. Mostrou-nos o terreiro a começar pela casa de Exú, toda vermelha, logo na entrada. Imagens em tamanho natural e orquídeas maravilhosas espalhavam-se entre pedras e árvores.

O dia era dedicado a seu caboclo Boiadeiro. Pai Mauro, mostrando as oferendas feitas pela manhã aos pés de um pau-brasil, disse-nos que há dez anos o caboclo não vinha, mas que neste exato dia de nossa visita, sem mais aquela, ele havia aparecido.

Subimos ao segundo andar onde fica a moradia do babalorixá e apreciamos uma linda casa mobiliada com objetos de todas as partes do mundo. Havia capulanas de Moçambique, muitas máscaras de várias regiões da África, esculturas de pau-preto como a do pensador de Angola e objetos de artesanato como as colchas de fuxico. Tudo muito simples e arejado. Sentamos e conversamos por três horas sem ver o tempo passar. Um encanto.

Descobri que Pai Mauro era filho-de-santo de Iyá Nitinha e filho pequeno de José Flávio Pessoa de Barros, meu colega e grande amigo de saudosa memória. José Flávio era antropólogo e pai-de-santo feito também por Mãe Nitinha que, por sua vez, era filha-de-santo da Casa Branca um dos terreiros mais tradicionais da Bahia. Pai Mauro era amigo do grande Pierre Fatumbi Verger e uma foto linda e colorida em um canto do barracão é testemunho de que Mauro havia estado na Nigéria na casa onde Verger foi feito. Nesta foto, o babalaô de Pierre Verger está sentado na porta de um palácio com telhado de taipa muito simples, como são os terreiros dedicados aos orixás naquele país, junto com o Rei de Ketu.

A casa estava vazia, apenas Pai Mauro, cercado de orixás e um filho-de-santo e afilhado que enquanto conversávamos costurava uma linda saia para  Xangô , inteiramente bordada em vermelho escuro. Uma beleza!

Falamos de muitos temas e conheci um pouco da vida de Mauro Nunes que como ele mesmo se define é uma pessoa multifacetada. Ao longo da conversa, Pai Mauro fez questão de me convidar para a marcha pela liberdade religiosa que será realizada no dia 17 de setembro, domingo, às 13 horas em Copacabana, no posto seis. Mostrou-nos no seu celular as fotos de uma recente depredação de um centro de seu irmão-de-santo no Parque Flora em Nova Iguaçu. Segundo ele, a destruição foi total e realizada supostamente por bandidos que se diziam evangélicos porque acham que “macumba” é “pecado”. Todo resto pode ser feito: roubar, estuprar, traficar, mas bater pro santo, não.

Terminou a conversa dizendo que era importante participar da 10ª Caminhada pela Liberdade Religiosa, que acontecerá no próximo dia 17 de setembro a partir das 13 horas em Copacabana, e também falar da audiência pública que será realizada, no dia 19 de setembro próximo na Alerj em decorrência da campanha iniciada em junho último e intitulada “Liberte nosso sagrado”. A campanha visa resgatar os objetos rituais que se encontram no Museu da Polícia Civil do Rio de Janeiro.

Os objetos estão na reserva técnica do Museu da Polícia Civil e foram arrolados como Coleção Magia Negra por ocasião de seu tombamento pelo antigo Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan) em 1938, hoje Instituto do Patrimônio  Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A coleção considerada um bem cultural deveria ser protegida e por isso arrolada no primeiro registro do Livro de Tombo Arqueológico, Paisagístico e Etnográfico.

Nos anos 1970 pesquisei este museu com Patrícia Monte-Mor e Marcia Contins e descrevemos minuciosamente as peças e transcrevemos a lista de objetos que foram considerados bens de proteção do Iphan. Em 1976 Luiz Alphonsus fotografou a coleção como estava disposta à altura, com toda minúcia.

O trabalho, realizado com o incentivo do Grupo de Trabalho André Rebouças, um dos primeiros coletivos negros universitários e liderado por estudantes negros da UFF. Os estudantes  queriam conhecer o Museu e as peças, com o objetivo de devolvê-las a seus respectivos donos. Uma primeira versão desse material está no meu livro Medo do feitiço e uma versão mais elaborada contendo todas as fotos está no artigo em colaboração com Ulisses Rafael.

Agradeço a Pai Mauro Nunes a longa entrevista que me concedeu e a preciosa informação sobre a audiência pública a respeito da situação do acervo sagrado afro-brasileiro no Museu da Policia organizada pelo Deputado Flavio Serafini e a campanha “Liberte nosso sagrado”. Estarei na Alerj para assistir aos debates sobre tema tão sensível e que ocupa há anos a reflexão sobre o destino da herança cultural dos povos dominados.

Fotos Arquivo Yvonne Maggie

Extraído do caderno especial Yvonne Maggie para o portal de notícias G1
http://g1.globo.com/pop-arte/blog/yvonne-maggie/

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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