Pai Mauro e a luta contra a intolerância religiosa

Pai Mauro e a luta contra a intolerância religiosa

21 de setembro de 2017 0 Por Sérgio D`Giyan

 

Sexta-feira, 15/09/2017, às 16:10, por Yvonne Maggie

 

No dia 7 de setembro último tive um encontro extraordinário. Pelas mãos de meu amigo Jean-François Véran, fui conhecer Mauro Nunes, babalorixá, o Mauro d’Oxóssi.

Um grande portão de madeira ladeado por muros altos esconde uma confortável residência dedicada aos orixás, no pé de uma zona de preservação ambiental a poucos quilômetros da reserva de Tinguá, em Miguel Couto. Organizado com capricho e sensibilidade, o terreiro abriga um jardim com plantas bem cuidadas oriundas de vários locais como Moçambique, Angola e  Bahia, por onde serpenteiam caminhos que nos levam ao barracão. Há muito não via tanto esplendor e bom gosto. Lá dentro, a grande cadeira ocupada pelo babalorixá em dias de festa fica em um plano sutilmente mais elevado permitindo que todos possam vê-lo de longe. O poste central dedicado a Xangô é todo rebuscado e iluminado com as cores do orixá.

Pai Mauro nos recebeu com a gentileza e amabilidade dos grandes sacerdotes. Mostrou-nos o terreiro a começar pela casa de Exú, toda vermelha, logo na entrada. Imagens em tamanho natural e orquídeas maravilhosas espalhavam-se entre pedras e árvores.

O dia era dedicado a seu caboclo Boiadeiro. Pai Mauro, mostrando as oferendas feitas pela manhã aos pés de um pau-brasil, disse-nos que há dez anos o caboclo não vinha, mas que neste exato dia de nossa visita, sem mais aquela, ele havia aparecido.

Subimos ao segundo andar onde fica a moradia do babalorixá e apreciamos uma linda casa mobiliada com objetos de todas as partes do mundo. Havia capulanas de Moçambique, muitas máscaras de várias regiões da África, esculturas de pau-preto como a do pensador de Angola e objetos de artesanato como as colchas de fuxico. Tudo muito simples e arejado. Sentamos e conversamos por três horas sem ver o tempo passar. Um encanto.

Descobri que Pai Mauro era filho-de-santo de Iyá Nitinha e filho pequeno de José Flávio Pessoa de Barros, meu colega e grande amigo de saudosa memória. José Flávio era antropólogo e pai-de-santo feito também por Mãe Nitinha que, por sua vez, era filha-de-santo da Casa Branca um dos terreiros mais tradicionais da Bahia. Pai Mauro era amigo do grande Pierre Fatumbi Verger e uma foto linda e colorida em um canto do barracão é testemunho de que Mauro havia estado na Nigéria na casa onde Verger foi feito. Nesta foto, o babalaô de Pierre Verger está sentado na porta de um palácio com telhado de taipa muito simples, como são os terreiros dedicados aos orixás naquele país, junto com o Rei de Ketu.

A casa estava vazia, apenas Pai Mauro, cercado de orixás e um filho-de-santo e afilhado que enquanto conversávamos costurava uma linda saia para  Xangô , inteiramente bordada em vermelho escuro. Uma beleza!

Falamos de muitos temas e conheci um pouco da vida de Mauro Nunes que como ele mesmo se define é uma pessoa multifacetada. Ao longo da conversa, Pai Mauro fez questão de me convidar para a marcha pela liberdade religiosa que será realizada no dia 17 de setembro, domingo, às 13 horas em Copacabana, no posto seis. Mostrou-nos no seu celular as fotos de uma recente depredação de um centro de seu irmão-de-santo no Parque Flora em Nova Iguaçu. Segundo ele, a destruição foi total e realizada supostamente por bandidos que se diziam evangélicos porque acham que “macumba” é “pecado”. Todo resto pode ser feito: roubar, estuprar, traficar, mas bater pro santo, não.

Terminou a conversa dizendo que era importante participar da 10ª Caminhada pela Liberdade Religiosa, que acontecerá no próximo dia 17 de setembro a partir das 13 horas em Copacabana, e também falar da audiência pública que será realizada, no dia 19 de setembro próximo na Alerj em decorrência da campanha iniciada em junho último e intitulada “Liberte nosso sagrado”. A campanha visa resgatar os objetos rituais que se encontram no Museu da Polícia Civil do Rio de Janeiro.

Os objetos estão na reserva técnica do Museu da Polícia Civil e foram arrolados como Coleção Magia Negra por ocasião de seu tombamento pelo antigo Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan) em 1938, hoje Instituto do Patrimônio  Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A coleção considerada um bem cultural deveria ser protegida e por isso arrolada no primeiro registro do Livro de Tombo Arqueológico, Paisagístico e Etnográfico.

Nos anos 1970 pesquisei este museu com Patrícia Monte-Mor e Marcia Contins e descrevemos minuciosamente as peças e transcrevemos a lista de objetos que foram considerados bens de proteção do Iphan. Em 1976 Luiz Alphonsus fotografou a coleção como estava disposta à altura, com toda minúcia.

O trabalho, realizado com o incentivo do Grupo de Trabalho André Rebouças, um dos primeiros coletivos negros universitários e liderado por estudantes negros da UFF. Os estudantes  queriam conhecer o Museu e as peças, com o objetivo de devolvê-las a seus respectivos donos. Uma primeira versão desse material está no meu livro Medo do feitiço e uma versão mais elaborada contendo todas as fotos está no artigo em colaboração com Ulisses Rafael.

Agradeço a Pai Mauro Nunes a longa entrevista que me concedeu e a preciosa informação sobre a audiência pública a respeito da situação do acervo sagrado afro-brasileiro no Museu da Policia organizada pelo Deputado Flavio Serafini e a campanha “Liberte nosso sagrado”. Estarei na Alerj para assistir aos debates sobre tema tão sensível e que ocupa há anos a reflexão sobre o destino da herança cultural dos povos dominados.

Fotos Arquivo Yvonne Maggie

Extraído do caderno especial Yvonne Maggie para o portal de notícias G1
http://g1.globo.com/pop-arte/blog/yvonne-maggie/