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Pais e mães de santo cobram providências contra ataques a terreiros em Nova Iguaçu

Publicado em24/10/17 06:00Atualizado em24/10/17 12:11


Pais e mães de santo cobram providências contra ataque Foto: Guilherme Pinto / Extra

Igor Ricardo

 

“A sensação que tenho é de que esperaram eu ter meu filho, depois de nove meses, e arrancaram ele dos meus braços quando nasceu”. A declaração de Mãe Neide D’ Osum traduz a dor diante do arrombamento que sua casa de santo, no bairro de Cabuçu, em Nova Iguaçu, sofreu no último dia 4. Nos últimos 16 dias, pelo menos outros 17 terreiros da cidade foram invadidos, segundo os representantes das religiões de matrizes africanas no município.

Neide fez registro na delegacia Foto: Guilherme Pinto / Extra

Além da perda material, já que diversos objetos religiosos foram roubados, Neide acredita que foi vítima de intolerância. Ela diz que os responsáveis pelo ataque sabiam exatamente o que estavam levando.

— Levaram tudo. Atabaques, meus ibás (assentamentos de orixá). Tudo. Quem levou sabe do valor comercial e sagrado disso — afirma a ialorixá.

Na terreiro de Mãe Domenica D’ Yemonjá, também em Cabuçu, a violência foi praticamente a mesma. O crime ocorreu na madrugada do dia 30 do mês passado. La, os criminosos só não arrombaram a porta.

Porta foi arrombado no terreiro Foto: Guilherme Pinto / Agência O Globo

— Furtaram roupa, até minha comida. Não tem como não dizer que foi intolerância. Violaram o nosso sagrado e sabiam muito bem o que estavam fazendo. Porque levaram objetos de grande valor espiritual para a gente — explica Domenica.

Por causa do aumento de casos como esses em Nova Iguaçu, a Secretaria estadual de Direitos Humanos resolveu realizar um censo para mapear todos os terreiros da Baixada. Também foi criada uma Comissão Mista com lideranças religiosas da região, representantes da OAB, da Defensoria Pública e da secretaria.

Porta foi arrombado no terreiro Foto: Guilherme Pinto / Agência O Globo

A Polícia Civil também investiga se os ataques estão interligados entre si e se são de fato motivados por injúria religiosa.

Entrevista com Átila Nunes, secretário estadual de Direitos Humanos

Nova Iguaçu foi responsável por 30% dos casos de intolerância religiosa nos últimos dois meses. Como o senhor avalia isso?

Estado promete agir Foto: Divulgação

Foram 12 casos recebidos nesses últimos dois meses. No entanto, sabemos que esse número pode ser maior um pouco, algo próximo a 20 relatos. Não podemos aceitar essa realidade. É importante que as vítimas façam a denúncia e que a secretaria tenha acesso às vítimas, que muitas vezes não denunciam por medo. A secretaria é importante nesse sentido, em ouvir as pessoas. E também levamos alguns casos até as delegacias locais.

Como a secretaria vem trabalhando nisso?

A gente precisa escutar as lideranças religiosas e unir forças para atuar localmente, já que Nova Iguaçu tem sido o principal foco das intolerâncias religiosas. Estamos organizando uma força conjunta com outras instituições, como o Ministério Público, a Ordem dos Advogados do Brasil e a Polícia Civil. Queremos estabelecer um quantitativo dos terreiros do município e legalizá-los como pessoa jurídica, já que muitos não são.

Qual a importância de encontros com essas lideranças?

É importante que as vítimas contribuam com ideias para possamos formular ações de enfrentamento ao fundamentalismo na região. Vamos fazer fóruns de debates e ouvir todos os representantes em toda a Baixada.

Polícia


Domenica D’ Yemonjá também teve a casa atacada Foto: Guilherme Pinto / Extra

A 58ª DP (Posse) abriu seis inquéritos para apurar casos de intolerância religiosa na região. Três deles estão sendo investigados inicialmente como crimes de furto, outro de lesão corporal e injúria por preconceito.

A delegacia também investiga o caso de um pastor de Nova Iguaçu, que foi indiciado por discriminação religiosa e vilipendiar imagens religiosas. O caso já foi enviado para o Ministério Público.

A 58ª DP apura ainda uma ocorrência envolvendo imagens divulgadas nas redes sociais de um suposto traficante obrigando uma idosa (mãe de santo) a quebrar as próprias imagens religiosas. Neste caso, os agentes investigam crimes de constrangimento, tráfico e associação para o tráfico, ameaça, discriminação e preconceito e vilipêndio às imagens.

 

Extraído do site do Jornal Extra on line / Rio de Janeiro – RJ
https://extra.globo.com/noticias/rio/pais-maes-de-santo-cobram-providencias-contra-ataques-terreiros-em-nova-iguacu-21982891.html

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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