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Patrimônio afro-brasileiro e memória da escravidão correm risco na África

A história é desconhecida no Brasil, e pode ser apagada antes de ser conhecida

POR AFP

04/08/2016 12:01 / atualizado 04/08/2016 18:44

Crianças brincam do lado de fora da descuidada Grande Mesquita - YANICK FOLLY / AFP
Crianças brincam do lado de fora da descuidada Grande Mesquita – YANICK FOLLY / AFP

 

PORTO NOVO, Benin – É uma história desconhecida no Brasil, a saga dos escravos libertos voltaram à África, se tornaram muçulmanos como uma rebelião aos senhores que os forçaram a serem cristãos e construíram a Grande Mesquita de Porto Novo, em Benin, na África Ocidental, é um símbolo da arquitetura afro-brasileira, com seus muros multicoloridos e um minarete que recorda o campanário de uma igreja, mas, como o resto do centro histórico. Mas, agora, ela corre um grande risco de desaparecer.

“Em cada traço ela se parece com uma igreja porque os antigos escravos tinham experiência construindo igrejas no Brasil”, explica Moubarak Mourchid, chefe da unidade para o patrimônio da municipalidade de Porto Novo, capital administrativa de Benin.

A partir do final do século XVIII, Porto Novo se converteu em um dos pontos de chegada dos antigos escravos libertados, que decidiram voltar ao país de seus ancestrais.

Suas ruas recordam as de Salvador, na Bahia, e conservam a história deste “período afro-brasileiro”, crucial para a história do continente africano.

“Os escravos se converteram ao Islã como uma demonstração de rebeldia em relação a seus dono. Ao voltar à África Ocidental, atuaram como artesãos, aplicando as técnicas de construção que haviam aprendido no Brasil. Depois a foram transmitindo de geração em geração”, conta o historiador.

No entanto, não há qualquer prédio classificado como Patrimônio Mundial da Unesco, nem mesmo a Grande Mesquita, lamenta ele.

“Primeiro deve ser reconhecida como patrimônio nacional pelo Estado. Mas não há vontade política”, explica. Sem apoio, o patrimônio está desaparecendo.

A Casa do Patrimônio de Porto Novo, inaugurada em 2009, é considerada um imenso progresso para a preservação dos bens arquitetônicos na África. Lá, um pequeno grupo de apaixonados tenta lutar contra a erosão do tempo, os danos gerados pela temporada de chuvas e os proprietários inescrupulosos que deixam que as casas venham abaixo.

Em 2009, Richard Hounsou, diretor de Cultura e Patrimônio da cidade, registrou que em Porto Novo haviam 450 edifícios de estilo afrobrasileiro. Deste então já foram destruídos 50.

Prova de Riqueza

Ali Moubarak vive em um desses imponentes prédios de três andares. Ele recebe os visitantes que vêm para ver o edifício vestido com uma túnica branca.

A casa é dividida em dois lados. A partir do pátio é possível ver o interior como uma casa de bonecas. “Ela foi construída por meu avô em 1910. Ele era enfermeiro, foi uma pessoa importante”, explica Moubarak.

Na época em que foi construída, a casa era uma forma de mostrar a sua riqueza. “Ele tinha quatro ou cinco esposas” e “não sei quantos netos”, diz, sorrindo.

“De acordo com a lei local, todos nós somos herdeiros e é o mais velho que decide”, explica.

A família foi empobrecendo com o passar do tempo e as paredes da casa começaram a descascar. Atualmente, Moubarak perdeu as contas de quantas pessoas vivem ali, entre primos e os filhos destes.

Em um dos quartos há uma lavanderia e noutro uma oficina de costura.

No terceiro andar, em um quarto deslumbrante, com molduras de gesso no teto e paredes pintadas com motivos florais, há um baú esculpido e um espelho antigo que em breve servirão como lenha para o aquecimento.

A cidade de Porto Novo se ofereceu para restaurar o lugar e Moubarak aceito, mas ainda precisa da permissão dos outros herdeiros espalhados entre Cotonou e a França, e que parecem pouco interessados na herança de seus antepassados.

Para alguns, o melhor seria esperar que a casa venha abaixo para vender o vasto terreno e construir novas e mais rentáveis casas.

Na área, uma dessas casas está sendo restaurada. Todas as paredes, que foram construídas com uma mistura de areia e argila revestida com cimento calcário foram cobertas de cimento, mas mantendo “a forma e os motivos da época”.

“Custaria duas vezes mais utilizar os materiais antigos”, explicou Mourchid, que supervisiona a obra e que prometeu abrir uma escola de artesanato no Benin, com a cooperação do Brasil.

“Além dos problemas relacionados com o dinheiro, acontece que perdemos a técnica de construção”, explicou ele. As casas ameaçam tornar-se poeira e com elas as memórias dos escravos libertos.

Extraído do site do Jornal O Globo / Rio de Janeiro – RJ
http://oglobo.globo.com/sociedade/historia/patrimonio-afro-brasileiro-memoria-da-escravidao-correm-risco-na-africa-19851751

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About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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