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Patrimônio da Humanidade, Cais do Valongo exibe deterioração e abandono

Moradores relatam que dependentes químicos fumam crack no sítio arqueológico, que também vira mictório ao ar livre

Constança Rezende, O Estado de S.Paulo

10 Julho 2017 | 21h38

LINS – RIO DE JANEIRO – RJ – 10/07/2017 – CAIS / PATRIMÔNIO – METROPOLE OE – ( ESPECIAL DOMINICAL) – Cais do Valongo, para mostrar o real estado do mais novo “Patrimônio da Humanidade” do Brasil. A região é bem deteriorada, com população de rua, excrementos, falta de vigilância, deterioração etc. Também repercutimos com historiadores e estudiosos da diáspora africana a importância da transformação do Cais do Valongo, principal porta de entrada de escravos no Brasil, em Patrimônio da Humanidade. A região, que era conhecida como Pequena África, é palco de algumas polêmicas. O Instituto Pretos Novos, instituição de pesquisas arqueológicas, está quase fechando, por falta de dinheiro. O movimento negro luta pela criação de um Museu da Escravidão, e a prefeitura do Rio busca um lugar para instalá-lo. FOTO: FABIO MOTTA / ESTADÃO.

 

RIO – Um dia após ser declarado, pela Unesco, Patrimônio da Humanidade, o Cais do Valongo foi palco de comemorações pelo título, mas exibia sinais de deterioração e abandono. Moradores relatam que dependentes químicos fumam crack no sítio arqueológico, que também às vezes vira mictório ao ar livre. Como não tem sistema de escoamento e está no nível do mar, o local também sofre com enchentes provocadas pelas chuvas. O antropólogo Milton Duran, que coordenou o dossiê de candidatura, defendeu reformas no sítio.

“Muito ainda precisa ser feito na repaginação do cais. Não poderia ter grama aqui, por exemplo,  porque era um local de porto, e sim, areia. Fora isso, deveríamos  ter a Guarda Municipal 24 horas para garantir que as pessoas pudessem visitar o cais com segurança”, disse o antropólogo.

Também merecem atenção os 500 mil artefatos encontrados durante as escavações do cais para as obras de Porto Maravilha. Desde 2011, os objetos estão guardados em caixas empilhadas dentro de um galpão na região da Gamboa, na Zona Portuária, colado ao Morro da Providência. Ali, a ação de traficantes transformou a comunidade em uma das mais violentas da cidade.

A equipe do Estado foi nesta segunda-feira, 10, ao local onde são guardados os artefatos. Na entrada, um segurança alertou o fotógrafo para evitar fazer fotos da janela. Segundo ele, traficantes escondidos na favela poderiam pensar que estavam sendo fotografados e reagir com tiros. A mesma recomendação foi dada minutos depois, pelo presidente do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade, Augusto Ivan de Freitas, que aguardava a reportagem.

Freitas contou que, na semana passada, um segurança do instituto levado para fazer a segurança do local foi “convidado a se retirar” por traficantes da favela. Agora, uma equipe de quatro seguranças ligados à comunidade da Providência exerce a função. O local também está sujo e tem vidros que foram quebrados por vândalos, segundo informou Freitas.

 

O presidente do instituto quer que seja feita uma licitação para que uma empresa particular assuma a segurança, limpeza e manutenção do local. Fontes ouvidas pelo Estado, porém, disseram que teriam chegado alertas de que só moradores da comunidade poderão trabalhar no local. Se não for assim, haverá represálias.

“A primeira coisa que deve ser feita é a garantia da segurança e da manutenção do galpão. Se a empresa escolhida quiser contratar funcionários da comunidade, ok, mas será a opção dela. Depois disso, nosso plano é que o galpão seja transformado em um centro de pesquisas, onde estudiosos, estudantes e a própria comunidade possam vir e analisar o material”, disse.

Segundo ele, um orçamento com estes custos, de cerca de R$ 800 mil por ano, já foi apresentado à prefeitura, mas ainda não foi aprovado.

Responsável por reconhecer os artefatos encontrados, como búzios e outros objetos de religiões de matriz africana só produzidos naquele continente, a mãe de santo Celina Rodrigues comparou a situação do cais a outros portos africanos.

“Visitei alguns países africanos e nos cais de memória da diáspora tinham placas de bronze explicativas. Aqui no Valongo, nem isso temos. Acho que merecemos mais. Com o título, tenho esperanças que serão feitas melhorias”, disse.

Em abril deste ano, o Estado publicou uma reportagem em que também denunciava o abandono do Instituto Pretos Novos (IPN). O local, próximo ao Cais do Valongo, guarda as ossadas de mais de 50 mil africanos que morreram no trajeto nos navios negreiros. O ambiente também sofre de falta de conservação e, sem verbas, corre o risco de fechar.

Para diretor do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Andrey Rosenthal Schlee, o cais merece toda atenção por parte das autoridades e da sociedade.

“Quando o Brasil apresentou a candidatura do Valongo, também se comprometeu a preservar o local. A prefeitura, o Estado e a União, vão trabalhar juntos na elaboração de um plano de gestão. Isso é o próximo passo. Cada um dos envolvidos vai se comprometer com alguns itens de conservação. Este é um local muito importante para a memória afro-brasileira e isso nos faz crer que haverá interesse em mantê-lo conservado”, afirmou.

 

Extraído do site do Jornal Estadão / São Paulo – SP
http://brasil.estadao.com.br/noticias/rio-de-janeiro,patrimonio-da-humanidade-cais-do-valongo-exibe-deterioracao-e-abandono,70001884827

 

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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