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Pernambuco negro: roteiro pela cultura e costumes afro

A cultura afro em Pernambuco está nos terreiros, nos pontos turísticos vinculados à história dos negros no estado, nas festas e manifestações culturais e nos pratos servidos no restaurante altar

 

Carolina Braga

Publicação: 03/09/2014 15:31 Atualização: 03/09/2014 16:20

Cultura negra em Pernambuco é rica na história, nas manifestações culturais e nos costumes, que são partilhados por vários grupos étnicos. Foto: Cristiane Silva/Esp.DP/D.A Press
Cultura negra em Pernambuco é rica na história, nas manifestações culturais e nos costumes, que são partilhados por vários grupos étnicos. Foto: Cristiane Silva/Esp.DP/D.A Press

Também buscaram transformar a batalha diária em diversão, como o é o caso dos trabalhadores rurais, com a exploração da cana-de-açúcar e a criação do Cavalo Marinho e do Maracatu Rural, ou a resistência negra quilombola, com o jogo de capoeira. Das histórias indígenas, quem nunca escutou os feitos do Curupira, da Comadre Fulozinha, do Saci Pererê e dos caboclos do mato?

Durante o ciclo junino também há no Candomblé comemorações da colheita do milho verde, com comidas a base de milho como a canjica e a pamonha, que são consideradas iguarias para agradar Xangô, orixá do fogo, da justiça, da fartura. Nos terreiros de Candomblé, a pipoca também é comumente utilizada em rituais de limpeza do corpo, ou é oferecida a Omulu, orixá da cura, de acordo com a professora doutora em História Social pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Valéria Costa, autora da tese Trajetórias negras: os libertos da Costa d’África no Recife (1846-1890).

O acarajé também é outra comida feita nos terreiros para ser ofertada a Iansã, orixá dos ventos da tempestade, senhora dos mortos (eguns). “Várias pessoas, independente de sua prática religosa, consomem pipoca, canjica, pamonha, acarajé… E por mais que sejam aversas às religões de matriz africanas, estão partilhando de hábitos desta religião tão fascinante, que mantém vínculo intimo com a natureza”, diz a professora.

Além da ligação com a espiritualidade, com o sagrado, com a promoção da cultura e com orientação político-social, os terreiros também são importantes para a alimentação e combate à fome e à pobreza dentro das comunidades. Segundo a “Pesquisa Socioeconômica e Cultural das Comunidades Tradicionais de Terreiro de Recife e Região Metropolitana”, realizada pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Fome (MDS), com parceria com a UNESCO, em 2011, ao todo, 92% dos terreiros das quatro regiões metropolitanas pesquisadas (Recife, Belém, Belo Horizonte e Porto Alegre) têm ações de preparo e distribuição de comidas para as famílias do entorno.

Em Pernambuco, as danças e músicas da cultura popular como maracatu, coco, caboclinho, ciranda e cavalo marinho não apenas representam manifestações tradicionais de resistência por si só, mas influenciaram diversos movimentos musicais. “As tradições populares, mantidas principalmente nas periferias, oriundas dos negros e dos índios, influenciaram, por exemplo, o Movimento Mangue, dando visibilidade internacional e acadêmica à cultura popular. A cultura pernambucana é espetáculo, é tese de doutorado. Só falta mais apoio do governo para os projetos”, argumenta o percussionista, integrante do Maracatu Estrela Brilhante, da Escola de Samba Galeria do Ritmo do Morro da Conceição e ex-Cascabulho, Jorge Martins.

Segundo a professora Valéria Costa, é importante que as pessoas conheçam e respeitem as diferenças culturais. “É importante acabar com o preconceito e desmistificar as inverdades e ilusões que a cultura judáico-critã semeou na sociedade. Africanos e indígenas fazem parte de nosso povo, foram os fomentadores do que somos hoje em dia. Na medida em que a sociedade for conhecendo mais sobre a culura negra e indígena, violências como o racismo e a intolerância religiosa vão sendo amenizadas, quiçá, estringuindo-se de nosso convívio.”

Na Região Metropolitana do Recife, inúmeros lugares mantém a tradição negra seja nos cultos religiosos, manifestações musicais e de dança, ou junto a projetos socio-culturais. Quer conhecer mais sobre a cultura e religião de matriz afro-indígena? Preparamos um roteiro cheio de toques, coco, capoeira, maracatu e história. Axé!

Clique sobre os pontos no mapa para saber o endereço e mais informações sobre os locais

 

 

Para compartilhar as refeições dos orixás

Restaurante Altar serve receitas originais de terreiros. Foto: Allan Torres/DP/D.A Press
Restaurante Altar serve receitas originais de terreiros.
Foto: Allan Torres/DP/D.A Press

A casa de azulejos cinzas desbotados numa ruela de Santo Amaro só se destacas das demais porque tem várias peneiras de palha penduradas no teto. Isso quando esta com o portão cinza metálico fechado. Depois de aberto, não apenas os santos e orixás que ornamentam e abençoam o lugar chamam atenção, mas também o cheiro de comida gostosa ficando pronta em um ambiente agradável.

O restaurante de cozinha brasileira ancestral, Altar, tem o encanto e a magia dos pratos típicos que nasceram nos terreiros. “A comida não é a mesma que a dos terreiros porque não é feita lá e não tem a mesma energia. Mas os pratos nasceram lá, onde antes da mesa das pessoas, a comida serve o prato dos Orixás, com tudo que é tirado da própria terra”, explica a proprietária e chef do lugar, a Yabassé Carmem Virgínia de Xangô.

A maioria dos pratos têm nome de mulheres que se tornaram referência dentro dos terreiros, como Mãe Biu de Xambá. As receitas foram ensinadas por Tia Ciata, a mais famosa das “tias baianas” que, de acordo com a lenda, foi a responsável por levar o samba de roda ao Rio de Janeiro. A receita da moqueca dela é o prato preferido dos clientes do Altar, seguido pelo acarajés e, como bom restaurante recifense, pelos caldinhos. Para sobremesa, um papeiro com mingau que de simples não tem nem a aparência.

A ideia da Yabassé é transformar o restaurante em escola para os jovens de terreiro que queiram aprender a cozinhar. “A diferença é que somos um restaurante com uma pegada social e cultural”, diz.

Serviço:
Rua Francisco Facinto, 368, Santo Amaro (próximo à delegacia)

Horário de Funcionamento: De quarta a sexta-feira do meio-dia até às 16h. Nos sábados e domingos, do meio-dia às 23h30.

Telefone: (81) 3097.3548.

 

Extraído do site do Jornal Diário de Pernambuco

http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/turismo/2014/09/03/interna_turismo,527079/pernambuco-negro-roteiro-pela-cultura-e-costumes-afro.shtml

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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