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PM instaura inquérito para apurar invasão de policiais em terreiro

O doté (pai de santo) Amilton Costa mostra porta arrombada por PMs (Foto: Mauro Akin Nassor/CORREIO)

 

Pai de santo disse que PMs chegaram a apontar fuzil para ele e acusa intolerância religiosa. Danos materiais serão reparados, diz SSP

Bruno Wendel

18.08.2017, 16:02:31

Atualizado: 18.08.2017, 19:29:30

 

A Polícia Militar decidiu instaurar um procedimento administrativo para apurar a conduta dos policiais envolvidos na invasão ao terreiro Hunkpame Savalu Vodun Zo Kwe, um dos mais tradicionais do país, na Rua Direta do Curuzu, bairro da Liberdade. A decisão aconteceu depois de duas horas e meia de uma reunião, que incluiu representantes da polícia e do próprio terreiro, na manhã desta sexta-feira (18).

“Daremos início a uma investigação com um procedimento administrativo e caberá ao comandante-geral dar o parecer final”, declarou o coronel Valter Menezes, comandante do Policiamento Regional da Baía de Todos-os-Santos (BTS), um dos integrantes da comissão.

A invasão ao terreiro aconteceu durante uma ocupação da Polícia Militar no bairro, através da Companhia Tática de Patrulhamento Móvel (Patamo) e da 37ª Companhia Independente da Polícia Militar (CIPM/Liberdade), nesta quinta-feira (17).

Porta que dá acesso a área sagrada do terreiro após ser derrubada por PMs (Foto: Mauro Akin Nassor/CORREIO)
Porta que dá acesso a área sagrada do terreiro após ser derrubada por PMs (Foto: Mauro Akin Nassor/CORREIO)

Membros do terreiro, representantes de entidades e PM em terreiro no Curuzu (Foto: Mauro Akin Nassor/CORREIO) 
Terreiro Hunkpame Savalu Vodun Zo Kwe, no Curuzu, foi fundado há 127 anos e é tombado (Foto: Mauro Akin Nassor/CORREIO)

 

Segundo o doté (pai de santo) Amilton Costa, sacerdote do templo há mais de 30 anos, três PMs arrombaram uma das portas do terreiro e acessaram a parte sagrada da casa, onde ficam recolhidos os filhos de santo que estão em obrigação religiosa. “Eles (policiais) não são meros indivíduos. Eles representam o Estado, que ao mesmo tempo tem instituições voltadas para proteger as religiões de matriz africana. É contraditório”, declarou o pai de santo durante relato à comissão, por volta das 10h30.

“Eu e um filho de santo tivemos fuzis apontados para as nossas caras por três policiais negros. Ou seja, os negros que não respeitam a religião de matriz africana, porque se fosse um padre ou um pastor, não agiriam assim; porque (para eles) candomblé é religião do diabo”, emendou o sacerdote.

Desculpas
Logo após, o comandante da 37ª CIMP, major Edmilton Reis, declarou que a operação foi planejada. Ele pediu desculpas e explicou que os policiais estavam em perseguição a dois criminosos que faziam parte de um grupo que atirou contra duas guarnições. “Tivemos a informação de que dois marginais tinham corrido em direção ao terreiro. Encontraram indícios”, justificou.

O major Reis também reconheceu a perseguição sofrida pelos adeptos do candomblé. “Historicamente, sabemos que a PM foi usada para reprimir o candomblé, mas hoje é diferente. (A invasão) Foi uma decorrência da ação de ontem”, afirmou.  

Reparos 
De acordo com o major Paulo Peixoto, da Superintendência de Prevenção à Violência da Secretaria da Segurança Pública (SSP), os danos causados pelos policiais serão reparados. “Faremos o conserto do patrimônio e a atitude dos policiais não é a orientação da secretaria. Tudo será apurado”, garantiu.

A diretora de patrimônio da Fundação Gregório de Matos (FGM), Milena Tavares, disse que as providências serão cobradas.

“Vamos encaminhar um ofício aos órgãos competentes para que isso não aconteça novamente. O terreiro é um templo tombado. É um lugar religioso. Isso foi um ato violento”, avaliou Milena.

Já Walmir França, coordenador do Centro de Referência de Combate ao Racimo e à Intolerância Religiosa Nelson Mandela, da Sepromi (Secretaria de Promoção da Igualdade Racial), afirmou que outros órgãos também acompanharão a apuração da incursão policial não autorizada. “A secretaria vai notificar o Ministério Público Estadual (MPE) e a Defensoria Pública para acompanhar a investigação”, declarou.

Veja vídeo com relato do pai de santo Amilton Costa sobre a invasão.

 

Extraído do site do jornal Correio da Bahia / Salvador – BA
http://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/pm-instaura-inquerito-para-apurar-invasao-de-policiais-em-terreiro/

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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