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Por autoestima e religião, mulheres adotam turbante: ‘É minha coroa’

Acessório ganha ruas com diferentes tipos de estampas e amarrações.
Na cultura do candomblé, adereço protege o ori (cabeça, na língua yorubá).

Juliana Almirante | Do G1 BA | 16/11/2015 07h00 – Atualizado em 16/11/2015 11h43

 

 

Dete Lima trabalha com turbantes há mais de 40 anos. (Foto: André Frutuoso/ Divulgação Ilê Ayiê)
Dete Lima trabalha com turbantes há mais de 40 anos. (Foto: André Frutuoso/ Divulgação Ilê Ayiê)

 

“Autoestima, elegância, empoderamento e sabedoria”. É assim que uma das fundadoras do bloco afro baiano Ilê Ayiê, a estilista Dete Lima, define a transformação que um turbante é capaz de fazer. Ela trabalha há 42 anos fazendo os ornamentos e as roupas que enfeitam quem desfila no bloco em Salvador. Além de oferecer oficinas de como usar o adereço no Ilê, Dete também veste a própria cabeça e destaca o significado que o turbante tem na sua religião, o candomblé.

Para os seguidores da religião de matriz africana, ele é usado para proteger o “ori”, que significa cabeça, na língua yorubá. Além do significado religioso, o ornamento ganha cada vez mais espaço nas ruas como forma de reconhecimento da cultura negra ou como um simples acessório, apresentando-se em diferentes tipos de tecidos e de amarrações.

“Quando eu comecei a fazer, uma coisa que sempre falava era que um dia ainda ia ver as pessoas usarem no dia-a-dia, não só no carnaval. Hoje as pessoas estão usando, umas porque está na moda, outras porque são adeptas do candomblé. A maioria usa hoje porque tem consciência da sua origem e do que você pode estar usando e se orgulhando, elevando sua autoestima”, avalia Dete.

Marcha foi realizada no centro da capital baiana (Foto: Alan Tiago/ G1 Bahia)
Marcha foi realizada no centro da capital baiana
(Foto: Alan Tiago/ G1 Bahia)

O turbante foi um dos protagonistas da Marcha do Empoderamento Crespo, que aconteceu no centro de Salvador, no dia 7 de novembro.

No desfile, organizado pelas redes sociais, cerca de 500 pessoas foram às ruas para promover a afirmação da estética e da cidadania negra.

“A gente pode plantar uma semente e fazer com que negras e negros se reconheçam pela estética. O corpo negro é político e falar do cabelo crespo é falar da raiz negra, do corpo negro que sempre sofreu racismo. O cabelo crespo é o tipo de cabelo que mais sofre racismo’, argumenta a museóloga Lorena Lacerda, uma das idealizadoras da marcha.

Após ter passado por uma “transição capilar” – deixar de usar o alisamento artificial e adotar os fios crespos naturais -, Lorena começou a adotar tranças e buscar penteados que pudessem fortalecer a sua identidade negra.

“Sou ‘turbanteira’ há uns quatro anos. Quando comecei a usar muito, começaram a me chamar para fazer oficinas. Já dei oficinas em escolas públicas e surgiram convites para participar de feiras”, conta.

Lorena acredita que o uso do turbante deve estar associado ao significado simbólico do empoderamento político de negros e negras. “Eu acho que esse movimento de afirmação é positivo e muitas mulheres estão usando mais os turbantes. Mas acho que existe a indústria da moda, algumas pessoas usam como moda. Eu digo nas minhas oficinas que minha identidade não é moda, não é passageiro. Eu digo que é um elemento político. A gente chama de coroa, por empoderamento, a autoestima fica mais elevada”, defende.

Identidade
Denominada por ela mesma como uma “artesã capilar”, Negra Jhô não consegue pensar em si mesma sem o turbante. “O meu turbante eu uso, com certeza, por religião, porque sou do candomblé. É a minha coroa. Eu uso turbante porque sou uma rainha e tenho que ficar com turbante na minha cabeça. As mulheres da minha religião usam como proteção ao ‘ori’ e por valores. Sem o turbante, não sou Negra Jhô”, conta.

Negra Jhô e Thaís Muniz (Foto: Rodrigo Chagas/ Arquivo Documentário Trubante.se)
Negra Jhô e Thaís Muniz (Foto: Rodrigo Chagas/ Arquivo Documentário Trubante.se)

Depois de passar anos montando os ornamentos em clientes e ministrando oficinas sobre o tema em Salvador, Negra Jhô acredita que atualmente o turbante é melhor aceito pela sociedade. “Quando comecei a usar, faziam muita cara feia e eu segurei a onda. Hoje quando eu vejo muitas pessoas nas ruas usando, me sinto vitoriosa porque sei que as pessoas compreenderam, porque faz parte do nosso dia-a-dia”, celebra.

Negra Jhô é a favor do uso do turbante por quem não é seguidor da religião, mas avalia que é importante o reconhecimento da origem do ornamento. “Eu acho que todo mundo tem que ser livre para usar, sabendo que a propriedade é de matriz africana. É uma propriedade nossa, mas todo mundo tem que usar. A mulher negra com um turbante na cabeça é mais empoderada, mais forte, mais guerreira”, afirma.

Thaís Muniz criou um movimento para o turbante. (Foto: Shai Andrade/ Divulgação Turbante.se)
Thaís Muniz criou um movimento para o turbante.
(Foto: Shai Andrade/ Divulgação Turbante.se)

Reconhecimento
Criadora do movimento “Turbante.se”, que existe desde 2011, a designer baiana Thaís Muniz, que atualmente mora na Irlanda, diz que ter começado a usar e trabalhar com turbantes transformou sua vida.

“Comecei a refletir sobre várias coisas, principalmente em relação à estética e negritude, papel enquanto mulher. Estar trabalhando para fazer com que outras pessoas se sintam mais bonitas, vibrantes e mudadas no sentido estético e no sentido de estar desenvolvendo consciência política”, define.

“O movimento turbante.se é uma comunidade, é um guarda-chuva que abriga várias atividades, a parte de pesquisa, workshop e garimpo têxtil, por sempre estar trabalhando com materiais diferentes”, explica. A designer mantém site e páginas em redes sociais, onde expõe seu trabalho e ensina a fazer turbantes em tutoriais.

A próxima arte que vai caber dentro deste “guarda chuva” de Thaís é um documentário sobre a história dos turbantes, que deve começar a ser gravado em fevereiro. “A ideia é mostrar para as pessoas que estão começando a usar enquanto moda, para trazer a consciência histórica e política. Até para saber se é algo que se identificam, além da estética”, diz.

O turbante saiu do local sagrado e
vem para o profano. Mas tem a ver
com a diferenciação. É outra maneira
de se apresentar, sair do
padrão do shopping center

                                                                  Goli Guerreiro

Significados
A antropológa e escritora Goli Guerreiro explica que, na religião de matriz africana, assim como na hindu e islâmica, a cabeça é algo que deve ser “resguardado, cuidado e ordenado”.

Ela acredita que, além da inspiração religiosa do candomblé, o uso do turbante pode estar relacionado com a vontade de as pessoas saírem do padrão da moda convencional.

Ela mesma diz que começou a usar o turbante há oito anos “para fazer moda”. “O turbante saiu do local sagrado e vem para o profano. Mas tem a ver com a diferenciação. É outra maneira de se apresentar, sair do padrão do shopping center. O turbante pode ser usado de várias formas, de uma forma muito particular. Isso faz com que fiquemos fora de uma padronização, até pela indústria moda”, opina.

Por outro lado, ela também aponta que o ornamento pode ser usado como afirmação do que chama de “código negro”. “Acho que o turbante está, sim, ligado a um código negro, ao signo negro. Está ligado a uma prática de diferenciação e pode estar ligada a uma afirmação negra, porque vem de um universo negro. São estéticas outras que estão mais disponíveis para utilização. Ainda gera preconceito, mas cada vez menos. Estamos neste processo de buscar um caminho estético que represente outros fenótipos e o turbante é um signo disso”, finaliza.

 

 

Extraído do site do portal de notícias G1/Bahia
http://g1.globo.com/bahia/noticia/2015/11/por-autoestima-e-religiao-mulheres-adotam-turbante-e-minha-coroa.html

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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