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POR QUE É TÃO DIFÍCIL A ORGANIZAÇÃO DOS TERREIROS AFRO-BRASILEIROS?!

 

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Postado por Apolônio Antônio da Silva em 21 abril 2014 às 2:07

 

Por que é tão difícil a organização dos Terreiros Afro-Brasileiros? A resposta a essa pergunta é complexa. Diferentemente das outras religiões, os templos onde se cultuam a religião afro-brasileira não pertencem às comunidades religiosas, mas sim a uma única pessoa ou família. Essa pessoa, geralmente é o babalorixá ou a yalorixá responsável pelo funcionamento do templo.

Por ser o dono do imóvel onde o Terreiro funciona, esse(a) babalorixá ou yalorixá não se sente obrigado a submeter-se a qualquer entidade tipo federação, conselho, união ou qualquer outro tipo de entidade afro-religiosa que vise organizar ou fiscalizar as suas atividades, mesmo que de comum acordo.  

Ao contrário dos Terreiros afro-brasileiros, as igrejas evangélicas são geralmente estruturadas em um imóvel próprio da igreja ou por ela alugado. O sacerdote que irá dirigir a igreja, o pastor, é geralmente contratado pela comunidade evangélica que a frequenta e a mantém financeiramente. Nesse caso, o pastor é considerado um funcionário da igreja, uma vez que ele recebe pagamento para exercer essa atividade durante 24 horas. Enquanto o pastor é remunerado para se pôr a disposição da comunidade evangélica que frequenta a igreja, o babalorixá ou yalorixá não recebe pagamento algum para realizar essa mesma atividade na comunicade afro-religiosa, no mesmo período de tempo. Poderíamos até dizer que em alguns casos é o próprio babalorixá ou yalorixá quem paga para exercer essa função, uma vez que ele geralmente arca com a maior parte das despesas para manter o seu Terreiro.

Outro diferencial entre a organização dessas duas religiões é a estruturação de seus templos e a sua manutenção. Enquanto o Terreiro sobrevive com baixíssimas mensalidades, que as vezes nem são pagas em dia, e praticamente insuficientes para mantê-lo, a igreja evangélica arrecada 10% do salário do crente, já deduzido em folha de pagamento, além das outras formas de arrecadação que ocorre a cada culto. Enquanto a mensalidade paga pelos filhos de santo de um Terreiro gira em torno de R$ 10,00 a R$30,00, a igreja evangélica arrecada R$ 70,00 se o crente recebe salário mínimo. Se ele receber R$ 1.000,00 ele contribuirá com R$100,00. Como vemos, a diferença de arrecadação é brutal e isso faz com que as igrejas evangélicas prosperarem materialmente enquanto os Terreiros de matriz africana e de Umbanda mal conseguem se manter funcionando, pois seu caixa está geralmente trabalhando no vermelho, isto é: se tiver caixa.

Outra diferença importante é a forma como os adeptos encaram a religiosidade e o seu relacionamento com o seu templo. Enquanto os evangélicos reservam os finais de semana (sábado e domingo) para trabalhar na divulgação da sua religião, buscando mais adeptos para as suas igrejas, e vêem isso como uma atividade muito importante para o desenvolvimento da sua igreja e da sua fé, os cultuadores das religiões afro-brasileiras, em sua maioria, fazem justamente o contrário. Outro diferencial gritante é a forma como os templos religiosos são vistos pelos adeptos. Enquanto o crente evangélico vê a sua igreja como propriedade coletiva onde todos que a frequentam e a mantém financeiramente se sentem dono dela; os adeptos dos Terreiros afro não se vêem dessa forma, por terem o Terreiro como propriedade do babalorixá ou yalorixá, por estar o Terreiro estruturado no terreno do sacerdote afro-brasileiro.

Poderia ficar enumerando outras diferenças entre essas duas estruturas religiosas, mas o espaço disponível é curto, por isso vou finalizando por aqui. Entretanto, não poderia deixar de frisar o engajamento político dessas duas religiões. Enquanto os evangélicos possuem representantes nas bancadas do Congresso Nacional, nas Câmaras Municipais de Vereadores e nas Assembléias Legislativas para defender os seus interesses, os adeptos da religião afro não possuem nenhum representante. E, se é que existe algum, ele não se coloca abertamente como defensor dos interesses da religião afro-brasileira. Para ilustrar a importância disso, basta lembrar a busca do apoio da comunidade evangélica por parte de alguns candidatos a presidência da república na última eleição. Essas diferenças somadas a outras, fazem com que algumas ramificações evangélicas sejam economicamente poderosíssimas, possuindo bancos, redes de rádio e televisão. Por outro lado, a religião afro-brasileira, mesmo somadas todas as suas ramificações, não possuem sequer um programa de rádio, raras exceções em alguns Estados, como por exemplo o é em Santa Catarina.

Concluindo, não comparei aqui as diferenças estruturais com a Igreja Católica, por ser essa uma Instituição milenar com fortes e antigas raízes em nosso país e no mundo, cuja sede (o Vaticano) é um país político e geograficamente independente incrustado dentro de um outro da Europa (Itália). Por esse motivo, escolhi apenas as igrejas evangélicas por causa do seu recente expansionismo no Brasil, nos últimos trinta anos, para comparar aos Terreiros afro-brasileiros.

 Omobaomi – Babalorixá

20/04/2014 – Texto revisado

 

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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