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PORQUE OXALÁ USA ÌKÓÒDÍDE

Muito tempo depois de Oduduiwá chegar a Ilé Ifé, começou a adorar o culto das águas de Oxalá/ Osààlà. Aconteceu que, logo no primeiro ano quando estava perto das festas, Osààlà escolheu uma senhora das mais velhas no terreiro, que se chamava Omón Osún, para cuidar da sua roupa, adornos e apetrechos, depositando toda benevolência nas mãos delas àquele direito especial de tomar conta de todos seus pertences, da coroa ao Opaxorô.
Omón Osún, que cuidava de uma menina, por nunca ter tido um filho, passaram a ser, a partir daí, odiadas por algumas pessoas que faziam parte do terreiro, e que, por inveja de Omón Osún, começaram a tramar algumas maldades, procurando um meio de fazer Osààla vir a se zangar com ela e tomar o àse entregue por Ele. Fizeram coisas que até Deus duvida contra Omón Osún. Contudo, nada surtia o efeito desejado.

Cada vez mais Osààlà ia aumentando seu apreço e o carinho por Omón Osún. Ela era notável no comprimento de suas obrigações e não dava margem alguma para ser por ele repreendida. Diz o ditado: que a água tanto bate na pedra até que fura, que no dia da festa de Osààlà, as invejosas desiludidas por não poderem fazer o que desejam, de passagem pela casa de Omón Osún, se depararam com a coroa de Osààlà, que ela tinha areado e colocado no sol para secar. Quando elas viram a coroa, muito bonita e mais reluzente do que nunca, combinaram de roubar a coroa e para jogar no mar, e assim o fizeram.

Quando Omón Osún foi pegar a coroa para guardar, não a encontrou, louca, começou a procurar, remexendo todos os cantos da casa, sem sucesso. Vendo a aflição que Omón Osún estava passando e satisfeitas pelo mal que tinham causado a ela, começaram a rir, dizendo: agora sim quero ver como ela vai se explicar amanhã, quando Osààlà procurar a coroa e não a encontrar.

A essa altura Omón Osún, completamente atordoada, só pensava em se matar e já estava resolvida a fazer isso, para não ter que passar vergonha perante Osààlà. Foi quando a sua filha de criação disse: mamãe, por que a senhora não vai à feira amanhã bem cedinho e não compra o peixe mais bonito que estiver lá. A coroa de Osààla deve estar na barriga deste peixe. E assim ela tanto insistiu que Omón Osún decidiu aceitar o seu conselho.

A menina foi dormir tranquila e Omón Osún, coitada, preocupada, esperou a madrugada chegar para ir à feira. Lá não consegue achar o tal peixe, que a menina julgava ter uma coroa na barriga, adiante ela encontra um senhor vendendo um peixe, o único que se encontrava no mercado.

Omón Osún comprou o peixe e foi correndo para casa, a fim de destrinchá-lo. Queria ver se o conselho de sua filha era bom, a fim de obter a paz e tranquilidade espiritual. Assim que ela chegou em casa foi direto para cozinha para abrir a barriga do peixe. Porém, não conseguiu. Quando ela estava se acabando de chorar e anda tentando abrir a barriga do peixe, a menina acordou e foi logo perguntando: MAMÃE COMPROU O PEIXE? A SENHORA DEIXA EU ABRIR A BARRIGA DELE?

Omón Osún bastante chorosa, respondeu: minha filha a barriga é muito dura. Eu não posso abrir, quanto mais você. A menina se levantou foi até a cozinha, apanhou um punhal e foi rasgando a barriga do peixe, que se abriu em bandas, deixando aparecer à coroa de Osààlà ainda mais bonita do que antes.

Omón Osún se abraçou com a menina e de tanto contentamento não sabia o que fazer com ela. Carregava. Beijava, dançava, cantava, por fim, Omón Osún olhando para a menina. E em seguida votando as vistas para o céu disse: Olórun Deus que lhe abençoe. Sua mãezinha esta sendo perseguida, porém com a fé que tem no seu eledá, anjo da guarda, não há de ser vencida.

Limparam muito bem limpa a coroa e a guardaram junto com os outros pertences de Osààlà, em seguida, Omón Osún cozinhou o peixe e fez um grande almoço e convidou a todos da casa para almoçar com ela, dizendo que esta festejando o dia da festa de Osààlà.

Ao meio dia, Omón Osún juntamente com sua filhinha, serviu o almoço acompanhado de aluwá, a qual os erés dão nome de mijo do pai.

Quando as invejosas viram toda aquela festa e Omón Osún, contente, como se nada houvesse acontecido, a ponto de dar até um banquete em homenagem a festa de Osààlà, ficaram curiosas. Uma delas perguntou: será que ela encontrou a coroa? A outra respondeu, eu bem disse que queimasse. E a outra, mais danada ainda, dizia: eu disse a vocês que o era só cavar um buraco bem fundo e enterrar. A primeira procurando acalmar os ânimos, disse para as outras: vamos esperar até a hora que ela apresentar as roupas de Osààlà com todos seus paramentos. Se a coroa estiver no meio, o jeito que temos é fazer um grande ebó e colocar na cadeira que ela vai se sentar ao lado Dele. O ebó pode ser empregado para o bem ou o mal. Quando estava perto da hora de começar a festa, Omón Osún apresentou a Osààlà toda sua roupa e paramentos, deixando as invejosas mais loucas ainda e com mais desejo de vingança, a ponto de fazerem o ebó idealizado por elas e que foi posto na cadeira aonde Omón Osún iria se sentar.

Deu-se início a festa com muita alegria. Osààlà chega acompanhado de Omón Osún e se se senta em seu trono. Omón Osún sem saber o que estava reservado para ela, também se senta junto à Osààlà.

Quando começaram as cerimônias e que Osààlà precisou colocar sua coroa, virou-se para Omón Osún e pediu para ela apanhar a coroa. Omón Osún quis se levantar e não pôde. Fez força para um lado para o outro, e nada de poder levantar-se, até que ela decidiu se levantar de qualquer jeito, devido a grande dor que sentiu, olhou para cadeira e viu que estava toda ensaguentada.

Alucinada de dor e ao saber que Osààlà de forma alguma podia ter algo vermelho perto dele, por que era seu ewó, saiu esbaforida pela porta afora, indo se esbarrar na casa de Èsù.

Quando Èsù abriu a porta e viu Omón Osún toda suja de sangue, disse: você vindo desse jeito da casa de meu pai infringiu o regulamento e eu não posso lhe abrigar, e fechou a porta. Daí ela foi para casa de Ògún e Osòósí, de todos os orisás, e sempre diziam a mesma coisa que disse Èsù. Só restava a casa de Osún, esta já tinha sabido o que estava acontecendo e estava a sua espera. Omón Osún, se jogando nos pés dela, disse: minha mãe, me valha, estou perdida. Osààlà não vai me querer mais em sua casa.

Osún disse para ela não se preocupe que um dia Osààlà ia busca-la de volta. Depois Osún, usando de sua magia, fez com que do lugar onde sangrava em Omón Osún saísse ìkodidé pena vermelha de papagaio da costa, ate quando sarou a ferida.

Osún depois de ter colocado todo aquele ekodidé numa grande igbá reuniu todo seu pessoal e toda noite faziam um siré cantando assim: (bi o ta ladé, bi o ta ladé, iru male, iyá omim ta ladé, oto ru èlefan kobajá obirin, iyá omim ta ladé).

E assim Osún, ricamente vestida sentada no seu trono, com Omón Osún ao seu lado, a cuia de ekodidé e as vasilhas para colocarem os dinheiros em frente a elas, recebia as visitas de todos os orisás que iam até lá para ver e saber por que Osún estava fazendo aquela festa, todas as noites, todos que lá chegavam e se inteiravam do acontecimento, se era homem dava dobale, se estirava de peito no chão para Osún, depois apanhava um ekodidé, e colocava uma certa quantia na vasilha que estava ao lado para ser colocado o dinheiro, e se era mulher, dava iká, quer dizer, se deitava no chão de um lado e do outro para Osún e, em seguida apanhava um ekodidé e colocava também o dinheiro na referida vasilha.

Tudo aquilo que estava acontecendo no palácio de Osún ficou sendo muito propagado, e as invejosas faziam todo possível para que Osààlà não soubesse. Um dia sem que elas observarem que Osààlà estava por perto, começaram a comentar o caso, quando uma delas disse: com ele não tem quem possa. Depois de tudo que nós fizemos, depois de ter acontecido o que aconteceu aqui no palácio de Osààlà e de ter sido enjeitada por todos os orisás, vocês não estão vendo que Osún as abrigou curou, conseguindo que do lugar que sangrava saíssem ekodidé, fazendo uma grande fortuna e alimentando a sua riqueza. Agora só nos resta é fazer com que o velho não saiba com que estava acontecendo no palácio de Osún, se não é bem capaz de quere ir até lá.

Nisso velho Osààlà pigarreou dando a entender que tinha ouvido toda conversação. Ordenou a elas que procurassem saber que hora começava o siré no palácio de Osún e que elas iam servi de companhia para ele pode ir apreciar o siré e tomar conhecimento do que estava acontecendo.

Quando elas ouviram Osààlà falar desta maneira bem pertinho delas, a terra lhes faltou nos pés e o remoço montou no seu cangote fazendo com que elas fugissem para nunca mais voltar ao palácio de Osààlà.

À noite depois do jantar Osààlà, cansado de esperar pelas três invejosas e não vendo qualquer uma delas aparecer, disse: fugiram com medo com que eu a castigasse pela grande injustiça que cometeram, não sabendo de que o castigo será dado por elas mesmas.

E assim Osààlà dirigiu-se para o palácio de Osún a fim de assistir o siré e saber qual a causa do mesmo, quando Osààlà chegou ao palácio de Osún, mandou anunciar a sua chegada. Osún, mais bonita do que nunca coberta de ouro e de muitas joias, dos pés a cabeça sentada no seu rico trono, mandou que Osààlà entrasse e continuou o siré cantando: bi o ta ladé, bi o ta ladé, iru male, iya omim ta ladé, oto ru efan kobajá obirin, iya omim ta ladé.

Quando Osààlà entrou ficou abismado de ver tanta riqueza e quando reparou bem para Osún, que viu ao seu lado Omón Osún, a pessoa que cuidava dele e de todas as suas coisas, a quem ele julgava ter perdido devido ao que tinha acontecido, não se conteve se jogou também no chão dando dobale para Osún, apanhando um ekodidé e colocando bastante dinheiro na vasilha.

Osún quando viu o velho dar dobale para ela, se levantou cantando: Dodô fin dódóbalè, ko binrin iya omim, ta ladé, e foi ajudar Osààlá a se levantar do chão.

Depois que Osààlà se levantou Osún pegou Omón Osún pela mão e entregou a Osààlà dizendo: aqui esta a vossa zeladora, sã e salva de todo mal que desejaram para ela, para que ele ficasse odiada por vós. Osààlà agradecendo a Osún disse: Osún em agradecimento a tudo o que fizeste de bem e para amenizar os sofrimentos de Omón Osún, eu Osààlà, prometo leva-la de volta para o meu palácio e de hoje em diante nunca hei de me separar desta pena vermelho que é o ìkodidé e que será o único sinal desta cor que carregarei sobre meu corpo.

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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