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Povos do samba e umbanda se reúnem na Câmara contra proibições de Crivella

Limpeza das escadarias em sinal de purificação de almas e intenções

Por Fábio Lau
Quarta-feira, 23 de Agosto de 2017

 

Já está muito claro para muita gente ligada às culturas do samba e adeptos de religiões de matriz africana que a administração do prefeito Marcelo Crivella tem um tanto assim de má vontade quando o assunto é autorização para a realização de eventos públicos em benefício destas manifestações culturais. O resultado disso é que dias após fieis da Igreja Universal ocuparem o templo maior do samba no Rio de Janeiro, o Sambódromo, para evento religioso, a turma que acusa perseguição decidiu reagir: vai fazer uma manifestação na Praça da Cinelândia às 16 horas desta quinta-feira (24), com direito a lavagem da escadaria, e uma hora depois estará reunida com vereadores na Câmara pedindo apoio e intervenção.

Um dos líderes do movimento, o candomblecista João Paulo Alves, não tem dúvida de que a recusa em autorizar eventos públicos de caráter religioso e até mesmo de samba tem relações com o preconceito. O prefeito, como muita gente sabe, é ligado a Igreja Universal do Reino de Deus.

– Não é coincidência. Dia desses até mesmo a Roda de Samba da Praça Tiradentes, uma das mais tradicionais do Rio, foi vetada sob a alegação de que a lona que usamos como cobertura era feia e causaria poluição cultural – disse João Paulo. 

João Paulo tem motivos ainda maiores para acreditar em preconceito religioso e cultural:

– Dos 12 aos 18 anos fui integrante da Universal do Reino de Deus e sempre assisti a manifestações preconceituosas proferidas por pastores e membros – atesta.

O Rio, desta forma, estaria fazendo uma viagem de volta ao passado quando o samba e religiões de matrizes africanas eram criminalizados e tratados como magia negra. A escritora e jornalista Thais Matarazzo diz no seu livro que a música e o samba eram considerados imorais e lascivos para merecer autorização oficial. 

Será que Crivella veio retomar a política reacionária de mais de um século atrás?

Decreto Lei

As exigências do prefeito ganharam respaldo a partir da instituição do decreto municipal que incentivou a criação do movimento “Não mexa na minha ancestralidade”. Crivella aprovou o Decreto Lei n°43.219. A partir dele, qualquer evento deste porte, relacionado a samba, religiões afro-brasileiras e até mesmo denominações evangélicas de menor porte passaram a ser alvo de proibições.

A partir do decreto cabe agora ao próprio gabinete de Crivella autorizar ou não a realização. Ao fazer isso, Crivella passa a ser a cara e a assinatura autorizativa ou proibitiva:

– nada mais autoritário – disse João Paulo.

Rei Momo e Valongo

O prefeito Marcelo Crivella assumiu a prefeitura cercado por suspeitas de como seria seu comportamento diante de uma cidade sabidamente ligada a shows e festas. A suspeitas subiram com ele a sede da Câmara na sua posse por conta da sua relação com a Igreja Universal da qual é pastor. 

Na sua campanha, e mesmo depois da posse, deixava claro, a cada entrevista, que governaria para todos e não levaria princípios religiosos para sua mesa de trabalho. Entretanto, ao recusar participar da festa do carnaval e da entrega das chaves ao Rei Momo, eventos culturais importantes da cidade, deixou transparecer que pudores religiosos estariam presentes nas suas ações.

A imagem ficou reforçada na sua ausência durante a inauguração do Cais do Valongo, uma iniciativa que homenageia a parcela da população brasileira contemplada pela miscigenação – o que, para antropólogo da dimensão de Darcy Ribeiro, representa o bem maior do povo brasileiro pela diversidade cultural que ostenta. 

Na convocação para que as pessoas participem do evento há uma importante observação: “Religião e política são coisas diferentes. A opção religiosa ou humanista é uma opção individual, da mesma forma que as identidades sexuais, as origens étnicas ou outras dessa ordem”.

Conexão Jornalismo entrou em contato via e-mail com a assessoria do prefeito e aguarda sua manifestação para que seja publicado junto a esta reportagem.

 

Extraído do site Conexão Jornalismo
http://www.conexaojornalismo.com.br/colunas/astral/religiao/povos-do-samba-e-umbanda-se-reunem-na-camara-contra-proibicoes-de-crivella-63-47751

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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