Povos do samba e umbanda se reúnem na Câmara contra proibições de Crivella

Povos do samba e umbanda se reúnem na Câmara contra proibições de Crivella

24 de agosto de 2017 0 Por Sérgio D`Giyan

Limpeza das escadarias em sinal de purificação de almas e intenções

Por Fábio Lau
Quarta-feira, 23 de Agosto de 2017

 

Já está muito claro para muita gente ligada às culturas do samba e adeptos de religiões de matriz africana que a administração do prefeito Marcelo Crivella tem um tanto assim de má vontade quando o assunto é autorização para a realização de eventos públicos em benefício destas manifestações culturais. O resultado disso é que dias após fieis da Igreja Universal ocuparem o templo maior do samba no Rio de Janeiro, o Sambódromo, para evento religioso, a turma que acusa perseguição decidiu reagir: vai fazer uma manifestação na Praça da Cinelândia às 16 horas desta quinta-feira (24), com direito a lavagem da escadaria, e uma hora depois estará reunida com vereadores na Câmara pedindo apoio e intervenção.

Um dos líderes do movimento, o candomblecista João Paulo Alves, não tem dúvida de que a recusa em autorizar eventos públicos de caráter religioso e até mesmo de samba tem relações com o preconceito. O prefeito, como muita gente sabe, é ligado a Igreja Universal do Reino de Deus.

– Não é coincidência. Dia desses até mesmo a Roda de Samba da Praça Tiradentes, uma das mais tradicionais do Rio, foi vetada sob a alegação de que a lona que usamos como cobertura era feia e causaria poluição cultural – disse João Paulo. 

João Paulo tem motivos ainda maiores para acreditar em preconceito religioso e cultural:

– Dos 12 aos 18 anos fui integrante da Universal do Reino de Deus e sempre assisti a manifestações preconceituosas proferidas por pastores e membros – atesta.

O Rio, desta forma, estaria fazendo uma viagem de volta ao passado quando o samba e religiões de matrizes africanas eram criminalizados e tratados como magia negra. A escritora e jornalista Thais Matarazzo diz no seu livro que a música e o samba eram considerados imorais e lascivos para merecer autorização oficial. 

Será que Crivella veio retomar a política reacionária de mais de um século atrás?

Decreto Lei

As exigências do prefeito ganharam respaldo a partir da instituição do decreto municipal que incentivou a criação do movimento “Não mexa na minha ancestralidade”. Crivella aprovou o Decreto Lei n°43.219. A partir dele, qualquer evento deste porte, relacionado a samba, religiões afro-brasileiras e até mesmo denominações evangélicas de menor porte passaram a ser alvo de proibições.

A partir do decreto cabe agora ao próprio gabinete de Crivella autorizar ou não a realização. Ao fazer isso, Crivella passa a ser a cara e a assinatura autorizativa ou proibitiva:

– nada mais autoritário – disse João Paulo.

Rei Momo e Valongo

O prefeito Marcelo Crivella assumiu a prefeitura cercado por suspeitas de como seria seu comportamento diante de uma cidade sabidamente ligada a shows e festas. A suspeitas subiram com ele a sede da Câmara na sua posse por conta da sua relação com a Igreja Universal da qual é pastor. 

Na sua campanha, e mesmo depois da posse, deixava claro, a cada entrevista, que governaria para todos e não levaria princípios religiosos para sua mesa de trabalho. Entretanto, ao recusar participar da festa do carnaval e da entrega das chaves ao Rei Momo, eventos culturais importantes da cidade, deixou transparecer que pudores religiosos estariam presentes nas suas ações.

A imagem ficou reforçada na sua ausência durante a inauguração do Cais do Valongo, uma iniciativa que homenageia a parcela da população brasileira contemplada pela miscigenação – o que, para antropólogo da dimensão de Darcy Ribeiro, representa o bem maior do povo brasileiro pela diversidade cultural que ostenta. 

Na convocação para que as pessoas participem do evento há uma importante observação: “Religião e política são coisas diferentes. A opção religiosa ou humanista é uma opção individual, da mesma forma que as identidades sexuais, as origens étnicas ou outras dessa ordem”.

Conexão Jornalismo entrou em contato via e-mail com a assessoria do prefeito e aguarda sua manifestação para que seja publicado junto a esta reportagem.

 

Extraído do site Conexão Jornalismo
http://www.conexaojornalismo.com.br/colunas/astral/religiao/povos-do-samba-e-umbanda-se-reunem-na-camara-contra-proibicoes-de-crivella-63-47751