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Preconceito ainda assusta membros do Candomblé na região

Daniel Tossato

Do Diário do Grande ABC

Publicado em sexta-feira, 29 de abril de 2016 às 15:21

 

“A verdade é que eu gostaria de sair com minhas roupas de santo, mas tenho medo de ser humilhada e ofendida”. É com estas palavras que Sônia Viana de Abreu, de 63 anos, resume todo seu medo de demonstrar que é adepta do Candomblé, religião de matriz africana.

Na religião, dona Sônia é conhecida como Mãe Sônia D’fons e comanda um terreiro de Candomblé na nação Ketu, há 48 anos, em Diadema. Hoje, ela é uma das Ialorixás, alto título dentro da crença, que detém os mais bem guardados segredos dentro da doutrina.

Mãe Sônia conta que quem pratica o Candomblé hoje em dia tem a coragem como fio condutor da filosofia. “Ainda é difícil o praticante assumir publicamente que faz parte da religião, mas tenho esperança que isso mude”, contou.

A mãe de santo explica que grande parte das ofensas começa de membros de outras religiões, em especial, dos neopentecostais. “Meu terreiro fica cercado por seis pequenas igrejas evangélicas, aqui no bairro. Tive alguns problemas com eles, mas agora nos respeitamos”, explicou lembrando que todos os templos chegaram bem depois do estabelecimento de seu terreiro.

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Dona Sônia diz não entender por qual motivo os filhos de santo sofrem, muitas vezes na pele, perseguições e ofensas, mas crê que isso um dia chegará ao fim. “Somos todos seres humanos. Temos que ter entendimento e compaixão para com o próximo. Isso é um ensinamento que existe em todas as religiões”.

E quando o problema e o medo partem de dentro da própria família? José Airton Magalhães, 39, enfrentou as maiores dificuldades, como praticante do Candomblé, dentro do próprio lar.

Por muito tempo, Magalhães escondeu dos próprios pais que visitava terreiros de Candomblé quando jovem. Tinha medo de que seus parentes descobrissem o interesse na religião e lhe causassem algum mal. Apesar de morar com a mãe até hoje, o homem, também conhecido como Egbome Zezé de Odé, ainda vive o tabu sobre o assunto dentro de sua casa e entre os parentes. “Não falo com minha família sobre religião. Quando falo alguma coisa, há muita crítica”, desabafou explicando que grande parte de sua família tem princípio evangélico.

Osvaldo Rocha da Silva, 57, Gracinda Aparecida Maria da Silva, 53 e Alison Rodrigo da Silva, 28, formam uma família voltada às religiões de matriz africana. Enquanto Osvaldo pratica a Umbanda, Grancinda e Alison são adeptos do Candomblé. A grande peculiaridade é que todos eles dividem e revezam o mesmo terreiro, que fica dentro da própria casa em São Bernardo para ambas as religiões.

Mãe Graça, como é conhecida, relata que sofreu muito pouco as discriminações por participar da doutrina, mas conhece companheiros de religião que tiveram terreiros fechados por causa de desentendimentos. “É uma situação bem triste. É horrível quando você é proibido de praticar uma crença que se dedica e acredita”, desabafou.

Alison, o filho de Mãe Graça, passou por um constragimento que o marcou profundamente. Foi despedido quando descobriram que era praticante do Candomblé. “De um dia para o outro começaram a me ignorar. Não me chamavam mais para almoçar, nem para participar de conversas. Passou algum tempo e me despediram”, lembrou.

Um dos grandes problemas levantados por Mãe Graça é que, como as pessoas têm interesse, mas tem medo de se entregar ao Candomblé, muito de seus ensinamentos estão se perdendo. “Não há dúvidas de que o Candomblé é uma das religiões mais perseguidas hoje em dia. Talvez por falta de informação, muita mentira é contada sobre o que se pratica na fé e isso causa confusão”, explicou.

Desunião

Apesar de se doarem à religião, as mães de santo relatam que a desunião dentro do próprio Candomblé ajuda para que ela fique relegada a poucos locais e membros. “Se por um lado existe a bancada evangélica, que visa melhorias dentro da fé deles, nós não temos políticos de renome que lutem por nós”, relatou Mãe Graça.

“Algumas mães e pais de santo quando alcançam graus mais elevados, acabam esquecendo da humildade que a religião ensina”, detalhou Mãe Sônia D’fons. “É esse um dos problemas que acomete a crença. Isso causa conflitos e vai deixando as pessoas descontentes, que vão abandonando o Candomblé. Com a religião fraca, mais ficamos expostos à violência e outros problemas”, concluiu.

Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), no censo realizado em 2010, são 141.553 seguidores de religiões de matriz africana, entre Candomblé e Umbanda, no Estado de São Paulo.

 

DGABC Jornal

 

Extraído do site do Jornal Diário do Grande ABC / Santo André – SP
http://www.dgabc.com.br/Noticia/1954482/preconceito-ainda-assusta-membros-do-candomble-na-regiao

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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