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Primeiros estudos sobre a terra na Gentil Carioca

 
Sexta-feira, 09/06/2017, às 18:30, por Yvonne Maggie

 

 

Sábado, 27 de maio, fui à coletiva “Primeiros estudos sobre a terra”, com a belíssima curadoria de Bernardo Mosqueira, na galeria Gentil Carioca.

O ambiente surpreende sempre. Jovens em meio a trabalhos especialmente instigantes circulam entre os dois sobrados, meio escondidos, um no nº 11,outro no 28 da rua Gonçalves Ledo, uma encruzilhada cortada pela rua Luiz de Camões. Espaço reconstruído, ao qual é dado um sentido urbano especial.

Tudo é misturado e o futuro se une a pedaços do passado. Desde que a Gentil Carioca mudou-se para lá, sua parede encanta o lugar e as pessoas não deixam de parar para olhar a empena do sobrado nº 28 da Gonçalves Ledo onde sempre se vê o trabalho de um artista, uma intervenção urbana.

No entardecer  do dia 27 de maio, o canto da Gentil preparou-se para a festa. Muitos ambulantes vendendo cerveja e pipoca. Um fogo na encruzilhada anunciava a noite que seria linda e salpicada de brilho. A música fez cada jovem dançar como se estivesse tomado por guias ou orixás em um terreiro de candomblé e, uma filha de santo, jovem bonita que circula pelo centro da cidade sempre de saia branca engomada e turbante, se apresentava como uma artista performática.

No sobrado do 28, subindo a escada estreita e íngreme chega-se ao andar onde treze trabalhos expostos lidam com a terra. Entre eles o “Inventário” de Caroline Valansi: talheres  esculpidos em terra  e pequenas molduras de porta-retratos, do mesmo material, nos remetem ao cotidiano volátil da mesa de jantar e ao passado fixo nas molduras sem imagens, a memória.  A escultura “Opa Exina Oba Igbo”, do falecido e saudoso Mestre Didi, filho de sangue de uma das mais famosas mães-de-santo da Bahia, mãe Senhora do Ilê Axé Opô Afonjá aparece como esfinge a ser decifrada. Logo a seguir, O “Bólide B34 Bacia 1” de Hélio Oiticica.

Na sala contígua o belíssimo, surpreendente e elegante trabalho conceitual “Negativo-Positivo” de Luiz Alphonsus. Desta vez não mais em telas enormes nas quais a luz e a ausência saem de buracos cuidadosamente esculpidos na terra, mas uma versão menor de igual beleza enquadrada em uma caixa de acrílico.

Há ainda outras obras que lidam ou tangenciam o tema terra, como um Rafael RG, um Matheus Rocha Pitta, um Manfredo de Souzanetto, um Guga Ferraz, uma obra de Anna Bella Geiger, outra de Maria Laet e ainda outra de Regina Galindo.

Mas a performance central foi realizada na praça Tiradentes, antigo Rossio, onde, no século XVII, os escravos mortos, envoltos em panos brancos depois da missa na Igreja da Lampadosa, eram jogados no pântano contíguo, feito de cemitério,

Este ano Hélio Oiticica faria 80 anos e, para homenageá-lo, Bernardo Mosqueira refez a performance de 1979 “Devolver a terra à terra”.  Um punhado de terra adubada colocada dentro de uma moldura de madeira simples! O sobrinho de Hélio e duas sobrinhas netas reuniram-se em torno do quadrado de terra escura espalhando-a com suas mãos para que, depois de retirada a moldura, a terra negra se tornasse como uma lápide ou um canteiro de horta. Já era noite! Os mendigos da praça Tiradentes se preparavam para arrumar o seu canto, a casa onde dormem! As luzes da praça se acenderam!

Bernardo Mosqueira fez um pequeno discurso sobre a obra! O curador, emocionado, falou: “Da terra viemos, da terra vivemos, para a terra voltaremos. Está na terra o curso do destino.” Elaborando a ideia do ter e ser terra, o curador enfatizou a necessidade de demarcação e do pacto de saúde e prosperidade. 

Dedicou a noite à mãe Beata de  Iemanjá que falecera na manhã do mesmo dia deixando um vazio em seus muitos filhos! Escritora e artesã, a mãe-de-santo era atuante no movimento negro e sempre convidada para aulas em programas de pós-graduação de literatura. Uma senhora simples,  de 86 anos, que partiu para Olorum deixando seus filhos órfãos, disse Mosqueira e, sem conter as lágrimas, convidou os que assistiram à performance com o coração batendo forte, a voltar para a galeria e fruir o resto da noite na encruzilhada entre as ruas Gonçalves Ledo e Luiz de Camões – Erù-Iyá, Odó-Iyá

Toda a noite foi inspirada no poema  “A palavra e a terra” do livro Lição  de Coisas, de 1962, de Carlos Drummond de Andrade.

FOTO NO TOPO:  “Devolver a terra à terra” (1979) performance de Helio Oiticica refeita por Bernardo Mosqueira (2017) – ( CRÉDITO: YVONNE MAGGIE)

 

 

FOTO: “Inventário” de Caroline Valansi (CRÉDITO: Yvonne Maggie)
Negativo-Positivo (1970) (CRÉDITO: Luiz Alphonsus/DIVULGAÇÃO)

 

 

Extraído do portal de notícias G1 / Rio de Janeiro – RJ
http://g1.globo.com/pop-arte/blog/yvonne-maggie/post/primeiros-estudos-sobre-terra-na-gentil-carioca.html

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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