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Professor baiano adepto do candomblé processa cliente e livraria do Rio por intolerância religiosa

Segundo o professor, a cliente disparou frases preconceituosas ao saber que ele era adepto do candomblé

Hilza Cordeiro (hilza.cordeiro@redebahia.com.br)

05/12/2016 17:11:00Atualizado em 05/12/2016 19:11:38

 

 

Professor foi ao Rio para lançar livro  (Foto: Reprodução/Facebook)
Professor foi ao Rio para lançar livro 
(Foto: Reprodução/Facebook)

O sociólogo e professor do Instituto Federal da Bahia (IFBA), Leonardo Rangel, entrou com uma ação criminal contra os responsáveis pela Livraria Vozes e uma cliente da loja, que fica localizada na Rua Gonçalves Dias, no Rio de Janeiro. O caso aconteceu na última sexta-feira (2), quando o professor comprava livros no local. Na fila de pagamento, uma senhora o teria perguntado sobre sua religião e, ao saber que ele era adepto do candomblé, começou a disparar frases preconceituosas contra Leonardo.

Segundo o professor, a senhora estava no caixa conversando com duas funcionárias e, ao se aproximar, ela o perguntou se ele era padre. “Eu disse que não e ela respondeu que eu parecia padre. Então eu falei que era do candomblé e mostrei a gola da camisa com a conta de Ogum (colar de miçanga que representa o orixá). Quando eu fiz isso, ela saiu de perto de mim dizendo ‘Deus é mais’. Eu fui educado e disse que era do candomblé com muito orgulho”, lembra ele, que é adepto da religião há três anos.

Ainda de acordo com o professor, a mulher continuou com ofensas à sua religião e os funcionários da loja não interviram na situação. “Fiquei calado e não quis reagir porque ela era idosa, mas a gota d’água foi quando ela falou que pessoas como eu deveriam ser proibidas de entrar naquele espaço”, conta.

Segundo ele, a senhora ainda teria dito que os católicos são muito tolerantes em aceitar que pessoas como ele frequentassem o local. Ao ser avisada pelo professor de que estava cometendo crime de intolerância religiosa, ela debochou da situação dizendo “que estava morrendo de medo”. O professor relata também que a senhora chegou a passar cerca de dez minutos falando frases como “essa religião não presta”, “pessoas dessa religião não prestam”.

 

Caso registrado

No dia seguinte ao fato, Leonardo foi até a 13ª Delegacia (Copacabana), na Zona Sul do Rio, para registrar o caso. Ao tentar fazer o Boletim de Ocorrência, ele foi informado pelo escrivão de que o estado não enquadrava o crime como intolerância, mas sim como injúria racial – como acabou sendo tipificado.

A Livraria Vozes está sendo processada na esfera administrativa, com pedido de cassação do alvará de funcionamento, e na área cível, com indenização de danos morais por não intervir nas agressões. De acordo com o advogado de Leonardo, Hédio Silva, “ao se manter inerte e omissa, a empresa causou danos a um consumidor que deveria proteger”, justificou.

O professor estava em sua primeira viagem ao Rio de Janeiro, para lançar o livro “O sabor dos saberes: margens e experiências na cultura e na educação”, pela Editora Multifoco. “Em Salvador, isso nunca me aconteceu. A gente tende a deixar para lá, mas, quando fazemos isso, acabamos sendo omissos. Nesse contexto crescente de intolerância, não podemos nos calar”, comentou.

Procurada, a gerência da Livraria Vozes confirmou a situação, mas disse que só se posicionará através da sua assessoria jurídica amanhã. A livraria é uma empresa voltada para a publicação e venda de livros relacionados ao catolicismo.

Em nota, o Departamento de Sociologia do IFBA, disse que essa prática não pode ser confundida com “a liberdade de pensamento, nem com o direito de criticar dogmas e encaminhamentos que são assegurados como manifestações da liberdade de expressão, porém, atitudes caracterizadas como sendo agressivas ou ofensivas e tratamento diferenciado a alguém em função de crença religiosa, ou de não ter religião (os sem religião), são crimes inafiançáveis e imprescritíveis”.

Caso arquivado
O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu arquivar, na última terça-feira (29), a ação penal contra o padre Jonas Abib
, acusado de ofensa a grupos religiosos como o espiritismo, candomblé e umbanda no livro de sua autoria “Sim, Sim, Não, Não – Reflexões de Cura e Libertação”. Em 2008, o Ministério Público da Bahia o denunciou por afirmações em que associava pais de santo a “satanás”.

Entre os trechos do livro, estão: “O demônio, dizem muitos, ‘não é nada criativo’. Ele continua usando o mesmo disfarce. Ele, que no passado se escondia por trás dos ídolos, hoje se esconde nos rituais e nas práticas do espiritismo, da umbanda, do candomblé e de outras formas de espiritismo. Todas essas formas de espiritismo têm em comum a consulta aos espíritos e a reencarnação”, escreveu.

Veja outros trechos do livro:

“Os próprios pais e mães-de-santo e todos os que trabalham em centros e terreiros são as primeiras vítimas: são instrumentalizados por Satanás”

“Em vez de receber o derramamento do Espírito Santo, as pessoas se satisfazem em receber “passes espíritas”, que não são nada mais do que alianças feitas com espíritos malignos para conseguir deles os “favores” que buscam. Não são orações feitas a Deus, a nosso Senhor Jesus Cristo, são preces feitas a demônios”

“Se não consigo fortuna ou saúde, vou a algum lugar onde fazem trabalhos, onde existe o tal pai-de-santo,a tal mãe-de-santo, aquele que faz cirurgia espiritual e busco resolver a minha situação. Vou tentar conseguir dinheiro, emprego, casamento, desfazer o namoro da pessoa por quem estou interessado a todo e qualquer preço…” […] “Aquele que faz ofertas, sacrifícios, “trabalhos”, não está fazendo esses rituais a ídolos e muito menos a Deus. Infelizmente, está entrando em contato com demônios e fazendo aliança com eles para obter os seus favores”.

 
Extraído do site do Jornal Correio 24hs / Salvador / BA
http://www.correio24horas.com.br/detalhe/salvador/noticia/professor-baiano-adepto-do-candomble-processa-cliente-e-livraria-do-rio-por-intolerancia-religiosa/?cHash=f8eba22c75db475cea550d7bd1bce377

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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