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Projeto reúne gravações de personalidades do candomblé na Bahia

Tarsila Carvalho*

Qui , 16/11/2017 às 11:00 | Atualizado em: 16/11/2017 às 11:49

 

O babalaô Martiniano do BonfimSusana Raab |Anacostia Community Museum | Smithsonian Institution

 

Apesar de ainda pouco conhecida no Brasil, a figura do linguista americano Lorenzo Turner é emblemática para a historicidade da cultura de matriz africana no país e, sobretudo, na Bahia. O acadêmico foi um dos primeiros negros a estudar na Universidade de Harvard e em sua obra investigou a preservação linguística de idiomas do oeste africano em locais da diáspora, nas Américas.

Seu legado foi além. Os registros fotográficos, textuais e em áudio de personalidades distintas do candomblé, como Martiniano do Bonfim e Mãe Menininha do Gantois, são testemunhos valiosos sobre a resistência da cultura de um povo. Parte deste acervo foi editado no projeto Memórias Afro-Atlânticas: as gravações de Lorenzo Turner na Bahia (1940-1941), que tem curadoria do etnomusicólogo Xavier Vatin, professor de antropologia da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). O projeto já disponibilizou um álbum duplo, que pode ser acessado em no site do trabalho.

Além do lançamento digital, o projeto vai promover eventos em três terreiros de candomblé, com a distribuição de um catálogo de textos, CDs e fotografias para representantes da religião. O primeiro a receber a obra será o Terreiro Ilê Axé Oju Onirê, em Santo Amaro, às 10h desta sexta, 17. No sábado, às 16h, o lançamento acontece no Terreiro Guarany de Oxossi, em Cachoeira e no domingo chega a Salvador no Terreiro Casa de Oxumarê, as 17hs. A entrada é gratuita.

Segundo o curador Xavier Vatin, realizar esses lançamentos em terreiros é uma forma de repatriação. “Há dois anos que pessoas do candomblé entram em contato comigo para perguntar sobre esse acervo, desde a publicação da gravação de Mário de Andrade (registro feito por Turner em 1940, no qual o modernista canta músicas populares)”, conta.

Ele relata que Turner foi pioneiro na observação do candomblé na Bahia. “Mas dentre muitas figuras que passaram por aqui, a dele talvez seja a menos conhecida”, diz.

Os registros demonstram como algumas línguas africanas ainda eram faladas, no dia-a-dia, aqui na Bahia. “O povo negro conseguiu preservar as línguas, as cantigas, as rezas. Temos Menininha do Gantois falando fluentemente iorubá, sem nunca ter pisado o pé na África. Nesse patrimônio, certamente muitas coisas se perderam ao longo das décadas, o que estamos tentando fazer é um resgate”, afirma Xavier.

Mãe Menininha do Gantois e filhas de santo (Foto: Divulgação)

Arquivo

 

As pesquisas de Turner no Recôncavo e em Salvador aconteceram ao longo de sete meses entre 1940 e 1941. Gravações originais em mais de 100 discos de alumínio (com um total de 17 horas de áudio) foram cedidas pelos arquivos de Música Tradicional da Universidade de Indiana, em Bloomington, nos EUA.

Os arquivos foram localizados por Xavier em 2012, quando foi fazer um pós-Doutorado na universidade. “Eles tem o maior acervo de música tradicional. Fui identificar o que tinha a respeito da Bahia, e desde então tem sido meu objetivo publicá-los. Pelo perfil da carreira dele, penso que tinha muita dificuldade em financiar suas pesquisas. Por isso acho importante trazer de volta este trabalho para que seja difundido”, defende.

Vatin é francês, graduado em Musicologia pela Université de Nice Sophia Antipolis, na França, e conta que sempre foi fascinado pela música brasileira. Esteve aqui em 1992, onde conviveu com Pierre Verger em seus últimos anos de vida. Reside definitivamente no país há cerca de 15 anos.

Lugar de fala

Para Xavier, a visão de Turner em seus registros se distancia de um olhar do “exótico”, comum em trabalhos de estrangeiros sobre o candomblé. “Talvez justamente por ser um homem negro, neto de escravos, criado na cultura negra norteamericana e também vindo da diáspora, ele não tenha tido esta ótica. Sou um admirador de Verger, convivi com ele por quatro anos. Mas em alguns momentos, quando busca fotografar o transe, não há como negar que o olhar do exótico aparece. Acho que Turner se diferencia por essa proximidade, por ser isento dessa busca pelo exótico”, reflete.

Ele assinala que a presença de pesquisadores estrangeiros no Brasil se contrapõe à discriminação que a cultura africana ainda é alvo no país.

“Pesquisadores de todas as partes do mundo vem aqui justamente por conta do valor que tem a cultura negra. Mesmo assim, os terreiros são agredidos pelos discursos de ódio. Publicar esses arquivos é uma forma de legitimar a cultura de pessoas que sofrem com o desrespeito”, defende.

Em 2018, o projeto ganha continuidade com a publicação de CDs individuais dedicados às quatro figuras mais emblemáticas desses registros: Martiniano do Bonfim, Mãe Menininha do Gantois, Joãozinho da Goméia e Manoel Falefá.

Memórias Afro-Atlânticas: as gravações de Lorenzo Turner na Bahia (1940-1941) / disponível online.

*sob a supervisão da editoramárcia moreira

 

Extraído do site do Jornal A Tarde / Salvador – BA
http://www.atarde.uol.com.br/cultura/noticias/1912441-projeto-reune-gravacoes-de-personalidades-do-candomble-na-bahia

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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