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Quando menos é mais no Candomblé

Texto: Sérgio d´Giyan / MTb: 35402/ RJ

 

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Sérgio d´Giyan – Editor Awùre

Prezados leitores, gostaria de comentar sobre um assunto, e que muitas vezes me deparo, quando em visita a algumas casas, o do exagero em alguns atos litúrgicos da nossa religiosidade. Bem, pretendo com essa leitura dar minha contribuição pessoal para que possamos ter momentos equilibrados dentro da religião. Manifesto que sempre procurei, e com sucesso, respeitar a nossa diversidade e as opiniões de meus ancestres e de todos que professam a Umbanda e o Candomblé.

Sempre declarei que todos devem louvar e amar nossos orixás, e dar a eles o que podemos dar de melhor, limitado aos recursos de cada um, aquele que pode dar mais, tudo bem, sempre lembrando que nossa religião surgiu a partir da união dos nossos humildes escravos que aqui chegaram, e que humildade nunca é demais.

Nossos orixás, de Exú a Oxalá, são lindos em toda a sua essência, e, portanto, não precisam de muita pompa para brilhar mais do que já brilham. Tenho observado alguns orixás portando torços gigantescos, como a de uma criança que incorporava seu orixá e seu torço era maior do que o próprio tamanho da criança. Nada contra os axés que utilizam o torço em oborós, tido como específico das iyabás, por alguns; quer usar, tudo bem, mas lançar mão do bom senso seria muito bem bem-vindo.

Certa vez, numa festa em louvor a Oxosse, sua vestimenta exibia um colorido roseado, não se trata de preconceito, muito menos homofobia ou qualquer coisa relacionada, trata-se que as cores prediletas desse orixá, limitadas às qualidades desse orixá, são o branco, o azul, o verde, o marrom, o estampado, além de outros materiais como a ráfia, couro, pele de caça (politicamente incorreto). Outras cores como o rosa, por exemplo, podem até ser aplicadas, desde que não sobreponha à cor original. Assim deve ser com todos os orixás. Como já havia dito no começo, trata-se de uma sugestão pessoal, quem quiser continuar usando essas cores secundárias em seus orixás, fiquem à vontade, mas repito, menos é mais.

Outro aspecto que me chama atenção para o mote do tema é a dança dos orixás, como eu já frisei, o orixá é lindo até parado num canto, se dançar com passos cadenciados, melhor ainda. Infelizmente, alguns se apoderam do dom especial de seu filho para bailar freneticamente no salão, excluindo Iansã e Sangô, os outros orixás ficam mais lindos quando dançam compassadamente ao som dos atabaques, salvo quando os ogãs desconhecem o ritmo que toca, pois já ouvi um igbin tocado numa velocidade tão grande, que eu tive que correr com o Oxalá em minhas mãos. Outro dia, um Logun-Edé, girava com tanta velocidade, que achei que ele iria decolar e voar pelo barracão afora; daqui a pouco teremos que levar nossos abians para um estágio no corpo de baile do Municipal.

Tenho visto alguns perfis nas redes sociais que foram criados para mostrar certos absurdos que encontramos por parte de alguns adeptos da religião, essas postagens maculam nossa imagem, já massacrada por adeptos de seitas neopentecostais, e contribuem para municiar esses acossadores. Por outro lado, fico feliz quando alguém posta uma imagem de um orixá bem vestido, com suas indumentárias e paramentos corretos.

Portanto, meus amigos, não enfeitem muito o pavão, ele já é lindo por natureza.

Bem gostaria de finalizar me desculpando com quem se achar atingido pelo contexto da matéria, não foi minha intenção, e registro que nunca utilizo de outro recurso para comprometer qualquer irmão. Cada um faz na sua casa o que aprendeu com seu zelador e o que achar certo para seu orixá.

 

Nota da Redação: Esse texto é parte integrante da nova edição da Revista Agen Afro, distribuída nas lojas do ramo e em comunidades de terreiro.

Foto:

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Ritual de iniciação das filhas-de-santo (iaôs), 1951 Após os sacrifícios, as penas das aves são colocadas na cabeça da iaô em homenagem ao seu orixá Salvador, BA | José Medeiros/ Instituto Moreira Salles

Em 1951, o repórter Arlindo Silva e o fotógrafo José Medeiros registraram a iniciação de iaôs (filhas-de-santo) em um pequeno terreiro na Bahia. A matéria foi publicada na revista “O Cruzeiro” -a mais consagrada da época – e foi o primeiro registro fotográfico de um ritual secreto da religião de matriz africana.

Com o título “As noivas dos deuses sanguinários”, a reportagem teve um teor sensacionalista e pejorativo, causando mal estar entre os praticantes do Candomblé, que era visto como caso de polícia na época.

Porém, o poder e o ineditismo das imagens foram mais fortes do que o preconceito reforçado pela edição da revista. Com fotos em preto e branco, em situação radical de luz, entre cabelos raspados, sacrifício animal, dança e pintura, o fotógrafo conseguiu captar toda a devoção das iaôs.

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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