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Quando mitologia e religião se encontram na Sapucaí

Ricardo Nicolay | 06/02/2016 16h46

 

“Óh meu Brasil
Cuidado com a intolerância
Tu és a pátria da esperança
À luz do Cruzeiro do Sul
Um país que tem coroa assim tão forte
Não pode abusar da sorte
Que lhe dedicou Olorum”

Na noite desta sexta-feira, 5 de fevereiro, começaram os desfiles das escolas de samba da Série A do carnaval carioca, e pudemos presenciar momentos muito especiais nas comissões de frente e nos casais de mestre-sala e porta-bandeira de duas agremiações, a Alegria da Zona Sul e a Unidos do Viradouro. Está em pauta atualmente discussões referentes à intolerância religiosa em nosso país, com episódios reprováveis de um preconceito ardiloso e de uma insensatez descabida. Por esse motivo, escrevo para elevar iniciativas louváveis como dessas duas escolas em trazer para o carnaval esta temática que hoje se faz tão necessária de ser debatida.

Segunda escola a passar pela Marquês de Sapucaí, a Alegria da Zona Sul apresentou um enredo em homenagem a Ogun, orixá com próximas relações com Exu e reconhecido nos mitos da Nigéria como aquele que apresentou a arte da metalurgia aos homens, possibilitando assim que eles desbravassem a natureza e desenvolvessem capacidades que até hoje se fazem demasiadamente necessárias em nossas vidas. Ogun também é o orixá da guerra, da coragem, o protetor dos templos, festejado e cultuado em muitas cidades brasileiras. Nos mistérios da circularidade cultural que abraçou a crença africana quando aportada no Brasil, Ogun foi representado como São Jorge na cidade do Rio de Janeiro, e como Santo Antônio em Salvador, na Bahia. Mas, para além dos mitos e lendas que rondam estas histórias, o propósito aqui é o de enaltecer a beleza que foi a comissão de frente da vermelho e branca do Cantagalo e Pavão-Pavãozinho, intitulada “Abrindo os Caminhos”. O coreógrafo Jardel Augusto Lemos encantou o público com a sua leitura sobre a história de Ogun e, sem dúvida, foi para mim o grande destaque no desfile da escola, juntamente com a apresentação de seu primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Wanderson Silva e Bárbara Falcão, que participavam intimamente da comissão de frente.

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Com a mesma garra e emoção, a Unidos do Viradouro apresentou o enredo “O Alabê de Jerusalém, a saga de Ogundana!”, desenvolvido pelo carnavalesco Max Lopes, que encantou a Sapucaí com a apresentação de seu primeiro casal, Marquinhos e Giovanna, e de sua comissão de frente, coreografada pela dupla Sylvio Lemgruber e Fernanda Misailidis. Marquinhos e Giovanna estavam representando os orixás Xangô e Oxum, que, na mitologia, se apaixonara por Oxóssi, mas, durante um dos longos períodos em que Oxóssi estivera ausente, Oxum se deixou encantar pela beleza e pelo poder de Xangô. A comissão tinha representada entre seus componentes Oxum, Xangô e o Alabê, que, assim como destaca a sinopse, foi o “africano contemporâneo de Jesus Cristo, Ogundana […]”, que há “dois mil anos, início da Era Cristã, nasce em Ifé, reino Ioruba do anigo Daomé, Ogundana, filho espiritual de Oxum e Xangô”.

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Essa riqueza de mitos e histórias enriquece o carnaval, e mais ainda, a cultura brasileira e a sua preservação, quando exposta de uma forma tão bela pela passarela do samba. Parabéns aos coreógrafos, aos atores destas apresentações e aos casais, que lindamente abrilhantaram a primeira noite de desfiles na Marquês de Sapucaí.

 

bio_ricardonicolay_blogRicardo Nicolay

CARNAVAL. Antropólogo, jornalista e quase geógrafo. Bacharel em Ciências Sociais pela Fundação Getúlio Vargas, mestre em Comunicação e doutorando em Geografia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Autor do livro “Território, rede e cultura da tradição – o fado do século XIX no mundo do século XXI”. Apaixonado pela Unidos de Vila Isabel e devoto fiel dos santos do Carnaval.

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.

 

Extraído da coluna de Ricardo Nicolay do Blog SRZD, do Jornalista Sidney Rezende
http://www.sidneyrezende.com/noticia/259835+quando+mitologia+e+religiao+se+encontram+na+sapucai

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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