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Reflexos da fé

Estima pelas imagens religiosas atravessou séculos e continua forte na sociedade moderna. Meio de personificação dos ícones sagrados é ainda utilizado em diversas religiões e doutrinas.

 

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DIÁRIO DA MANHÃ

RARIANA PINHEIRO | Enviado em 30/07/2014 às 19h38

 

Santo Antônio, Nossa Senhora, Jesus Cristo, Iemanjá, Oxóssi ou Iansã, todas estas figuras religiosas possuem rosto, corpo e até vestes no imaginário coletivo por uma única razão: a admiração pelas imagens sagradas. Comuns em missas, cultos, rituais ou em casa – apenas para decoração –, o hábito popularizado pela Igreja Católica, se por um lado é renegado pela representativa população protestante, por outro é bem-vindo no candomblé, umbanda, entre várias outras doutrinas. Também fonte de renda para comerciantes, as esculturas, que começaram a ser admiradas no século 1 d.C, até hoje despertam interesse, fascínio e mostram que uma ampla parcela da sociedade contemporânea ainda é ligada aos símbolos de fé.

Populares, dignos de devoção e de pedidos, é raro um católico, mesmo não praticante que não tenha em sua casa esculturas artísticas representando suas divindades sagradas. Foi de olho neste público – e também porque o ofício coincidiu com suas mais profundas convicções espirituais – que o comerciante Wellington Carlos Bezerra decidiu montar uma loja de artigos religiosos voltados aos fiéis e simpatizantes da igreja romana.

Religioso, Wellington e sua mulher, Regina, sempre estão entre os cerca de 18 mil fiéis que frequentam semanalmente a novena dedicada à Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, que acontece todas as terças-feiras, na Matriz de Campinas. Notando que a procura dos fiéis por imagens de santos era bem maior que o número de lojas disponíveis (na época a região possuía apenas uma), Wellington e sua esposa decidiram entrar neste ramo. “Juntou a fome com a vontade de comer. Os fiéis também pediam”, explica.

A ideia, claro, deu certo. No dia da novena, os comerciantes chegam a receber cerca de 300 clientes em sua pequena loja montada de frente à Praça da Matriz. Nos dias das novenas – que acontecem de hora em hora – em torno de 40 imagens feitas em acrílico ou de gesso, importadas de São Paulo e até de Roma, e que custam de R$ 4 a R$ 20, são comercializadas.

Não é preciso ressaltar a preferência do público em questão por Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Porém, a vantagem é pequena diante das esculturas sagradas do Divino Pai Eterno (pela proximidade com Trindade) e da Nossa Senhora Aparecida (Padroeira do Brasil), também muito vendidas em seus diversos tipos e tamanhos. “Os católicos veem a imagem como uma foto, em que fazem seu momento de reflexão”, explica.

Floras

Outro exemplo que deu certo neste mercado singular é o comerciante José Maria. Mas seu negócio é mais antigo e amplo: ele trabalha há 16 anos em uma loja também dedicada à comercialização de imagens e artigos religiosos, mas seu estabelecimento são as chamadas Floras (locais voltados especialmente para a venda de guias, imagens de santo de várias doutrinas).

Por isso, apesar de atrair muitos católicos, sua loja possui clientela, em grande maioria, composta por adeptos ou simpatizantes da umbanda. “Vendemos muitas imagens de Iansã, Oxumarê, Caboclos, Pretos Velhos e Exus”, diz citando os santos mais populares da religião.

No entanto, as diferenças entre os santos nem são tão grandes assim. Por ser a única religião nascida no Brasil e influenciada pelo sincretismo religioso, ou seja, a mistura de concepções, fundamentos, rituais e divindades do negro, índio, católico e espírita, suas divindades muitas vezes coincidem com os da Igreja Católica. Às vezes a imagem é igual e só mudam os nomes.

“Nas senzalas, os senhores de engenho não deixavam os escravos praticarem sua fé. Então eles trocavam o nome de suas entidades por santos católicos. A Oxumaré, por exemplo, é Nossa Senhora Aparecida; Oxalá, o Divino Pai Eterno; Oxossi, São Sebastião; Xangô, São Gerônimo”, explica José Maria, cujas esculturas custam a partir de R$ 38.

Candomblé

Também proprietário de uma Flora, o comerciante Enuque Miranda se diz um dos pioneiros em vender imagens religiosas de diversas doutrinas. Mas, no seu caso, o público é mais voltado para o candomblé. “Comercializamos muito Exus; Tranca Rua, João Caveira, Sete Encruzilhadas, Pomba Gira, entre vários outros. Possuo cerca de 60 imagens do catolicismo, candomblé e umbanda”, conta.

Enuque, que possui ainda uma fábrica onde ele produz, além de imagens, também essências e perfumes para as celebrações, conta que muitos destes artigos comprados por membros do candomblé e umbanda são utilizados em seus rituais. “Muitos compram porque acham que com os santos podem atender seus pedidos mais rápidos”, esclarece.

O comerciante, que se define como católico não praticante, acrescenta que muitas vezes o candomblé e umbanda estão em crescimento na Capital. Porém, ainda é visto com preconceito pela sociedade. “As pessoas de fora acham que os Exus, por exemplo, são apenas para fazer o mal, mas é uma manifestação da fé como outra. Há muitos charlatões neste meio, mas isso também existe em outras igrejas”, argumenta.

O começo

As origens de quando se iniciou o culto às imagens é bem remoto e quase impossível de se precisar. De acordo com o professor Uene, que é teólogo e mestre em Ciências da Religião, este costume não começou na religião cristã, tampouco na Igreja Católica, mas tais vertentes ajudaram sua expansão pelo mundo. “Diferentes lugares da Europa, dos continentes asiático, africano e até o americano, já vivenciavam estas práticas; mas a realidade das imagens esteve fortemente presente desde o primeiro século cristão, quando esta forma de fé saída da Palestina atingiu todo o Império Romano ainda de modo muito inicial”, explica.

O costume ampliou-se grandemente, segundo o professor, com o deslocamento da sede do Império Romano para Constantinopla, no século IV da era cristã. “Neste novo cenário, a realidade de valorização de ícones ampliou-se na cultura da fé cristã e permaneceu de modo tão duradouro que se estendeu ao longo dos séculos”, diz.

Sobre esta permanência que começou nos primórdios até os dias de hoje, o professor considera normal e disse ainda acreditar que a própria religião, com sua convivência dos indivíduos com imagens, esculturas, desenhos, pinturas, afrescos, ícones ou outros símbolos, nunca deixará de existir. “Não quero parecer presunçoso na afirmação, mas declaro que, se alguma prática de costumes de cultos a qualquer realidade de imagens for extinta, com certeza outras tendem a se manifestar para ocupar este lugar que tenha ficado vago. Portanto a vivacidade do culto às imagens tende a continuar de modo perene na vida das culturas por todas as sociedades”, prevê.

Conheça alguns orixás e entidades mais populares do candomblé e umbanda

Iemanjá ou Yemanjá: orixá feminino das religiões Candomblé e Umbanda. O seu nome tem origem nos termos do idioma Yorubá “Yèyé omo ejá”, que significam “Mãe cujos filhos são como peixes”.

Oxumarê: é o orixá do arco-íris dentro da mitologia iorubá. Liga o céu à terra. Corresponde ao orixá Dan do candomblé jeje.

Oxalá: é o orixá associado à criação do mundo e da espécie humana.

Exu: Orixá da comunicação. É o guardião das aldeias, cidades, casas e do axé, das coisas que são feitas e do comportamento humano.

Pomba Gira      uma entidade equivalente à forma feminina de Exu.

 

Extraído do site DM.com.br

http://www.dm.com.br/texto/185725

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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