Breaking News

Religião é usada para ficar acima de qualquer suspeita

Pastores e impostores são investigados e presos por crimes que vão de estelionato a estupro

FRANCISCO EDSON ALVES

6/03/2014 00:20:25

 

Rio – Lobos em pele de cordeiros. Recentes prisões de pastores ou falsos líderes religiosos alertaram a polícia e as congregações oficiais para criminosos que usam igrejas de diferentes denominações como fachada para cometer crimes. Em sete meses, pelo menos três homens foram presos, acusados de estupro, roubos, receptação e estelionato, usando a Bíblia para acobertar ações no estado. Outros suspeitos são investigados.

O delegado da 93ª DP (Volta Redonda), Antônio da Luz Furtado, diz já ter perdido a conta do número de pessoas que usam esse tipo de artifício. Recentemente, a polícia prendeu Edílson Ferreira de Sá, que comandava o rebanho de fiéis da Igreja Assembleia de Deus do Ministério Casa Família, em Volta Redonda, no Sul Fluminense.

 

d1
‘Missionária’ Maria de Fátima Silva, 58, pegou 16 anos de cadeia
Foto: Diário do Vale / Andressa Paganini

No dia seguinte, fiéis acordaram estarrecidos com a notícia: foram encontrados na casa do pastor equipamentos avaliados em R$ 3 milhões, roubados de um estaleiro. O que mais surpreendeu, no entanto, foi a constatação de que o ‘religioso’ tinha uma ficha criminal robusta: 14 passagens pela polícia por crimes diversos, incluindo roubo, receptação e estelionato.

Com experiência na investigação de casos semelhantes, o delegado Antônio Furtado está criando uma cartilha com cuidados que as pessoas devem tomar para evitar cair na lábia de falsos líderes religiosos. “Indivíduos inescrupulosos estudam oratória e até psicologia para ganhar a confiança das vítimas e lesá-las”, ressalta o policial.

 

Pastor Reginaldo Sena dos Santos, condenado a 78 anos de prisão Foto:  Diário do Vale / Andressa Paganini
Pastor Reginaldo Sena dos Santos, condenado a 78 anos de prisão
Foto: Diário do Vale / Andressa Paganini

As dicas do delegado poderiam ter evitado, por exemplo, o abuso sexual de 14 meninas também em Volta Redonda. Pelo crime, o pastor Reginaldo Sena dos Santos, de 59 anos, conhecido como Ungido, e que estava fundando uma igreja no bairro Retiro, foi condenado a 78 anos de prisão. Para agir, ele contava com a ‘missionária’ Maria de Fátima Costa da Silva, 58 anos, condenada a 16 de cadeia.

No dia 7 de janeiro, o pastor Salvador Moreira, 49, foi preso em São João da Barra, no litoral norte fluminense, por estuprar sua enteada de 7 anos. Na casa dele foram encontrados vídeos pornográficos. Em agosto de 2013, em Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio, outro pastor, de 33 anos, foi para atrás das grades pelo estupro de uma criança de 12 anos na própria igreja. Em todos os casos, os suspeitos negam os crimes.

Teóloga quer fiscalização

A luz vermelha acendeu também entre teólogos e líderes de congregações tradicionais. A teóloga Rute Felipe da Silva, da Faculdade Batista do Rio de Janeiro (Fabat), defende a criação de um órgão regulador que, sem ferir a doutrina de cada religião, possa acompanhar a conduta dos pastores.

 

Em meados de 2012, uma força-tarefa da polícia e do Ministério Público prendeu 10 pessoas, entre elas, um pastor de igreja da Zona Oeste Foto:  Osvaldo Praddo / Agência O Dia
Em meados de 2012, uma força-tarefa da polícia e do Ministério Público prendeu 10 pessoas, entre elas, um pastor de igreja da Zona Oeste
Foto: Osvaldo Praddo / Agência O Dia

“A missão de um bom pastor é apascentar, levar a palavra de Deus aos fiéis, estar sempre junto deles, nos momentos de alegria e tristeza. Por isso, quem pastoreia tem que ter bons fundamentos e ser um exemplo. Nunca se envolver em escândalos e crimes”, opina Rute.

Polêmico em suas posições, o pastor Silas Malafaia, líder da Igreja Assembléia de Deus Vitória em Cristo, vai mais longe. “Tem muito picareta espalhado por aí usando o nome de Deus para cometer toda a sorte de crimes. A Polícia Federal tinha que entrar nessa história e enquadrar todos os picaretas, vagabundos”, disse. Já o pastor Marcos Gladstone, da Igreja Cristã Contemporânea, defende que é dever das igrejas exigir que seus líderes tenham seriedade na pregação do Evangelho e conduta idônea. “Até antecedentes criminais de pastores deveriam ser pedidos”, diz.

Templo usado como ‘escritório’

O caso de maior repercussão de pastores acusados de crimes é o de Marcos Pereira. Preso desde março de 2013 sob acusação de estupro, o pastor líder da igreja Assembleia de Deus dos Últimos Dias foi condenado a 15 anos de prisão pela 2ª Vara Criminal de São João de Meriti. Ele nega a acusação.

 

Marcos Pereira foi condenado a 15 anos de prisão por estupro. Ele nega acusação Foto:  Alexandre Brum / Agência O Dia
Marcos Pereira foi condenado a 15 anos de prisão por estupro. Ele nega acusação
Foto: Alexandre Brum / Agência O Dia

Em 2012, outro escândalo: o pastor Dijanio Diniz, da Igreja Pentecostal Deus é a Luz, na Zona Oeste do Rio foi preso, acusado de ser o chefe de um bando que cometia crimes usando o templo como escritório. Na ocasião, mais 10 pessoas foram detidas. Os suspeitos respondem por crimes relativos a extorsões, ameaças, comércio ilegal de combustíveis, agiotagem, exploração de transporte alternativo e até caça-níqueis. Dijanio nega tudo.

Como se precaver

Com base em seu trabalho, o delegado Antônio da Luz Furtado faz uma série de recomendações especialmente para os novos convertidos:

 

Delegado Antônio Furtado, da 93ª DP (Volta Redonda): recomendações para evitar falsos pastores Foto:  Divulgação