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Religiões de raiz africana pedem investigação sobre Gladiadores do Altar

 

Diário do Sudoeste FolhaPress

 

Publicado em 28 de Março de 2015, às 13h25min

 

BRUNA FANTTI
RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – O MPF-RJ (Ministério Público Federal no Rio) recebeu uma representação de religiosos do candomblé e da umbanda, nesta semana, com um pedido de investigação sobre a formação do grupo intitulado Gladiadores do Altar, da Iurd (Igreja Universal do Reino de Deus). A representação foi entregue em outras 22 capitais brasileiras, segundo os organizadores do movimento.
O grupo, criado no final de 2014 pela Universal aparece em vídeos na internet uniformizado, tem postura militar e é chamado por pastores da igreja de exército de Cristo.
É uma postura paramilitar. Nós já sofremos preconceito de vários membros da Iurd, que destroem terreiros e perseguem pessoas das religiões afro nas ruas. Não vamos esperar um grupo de 6 mil homens, que se denomina como um exército, pegar em armas e agir contra a gente ou que um grupo fundamentalista cresça em nosso país, disse Luiz Fernandes Martins, advogado que entregou a representação.
O documento, de cerca de 20 páginas, pede, além de uma investigação contra o grupo, uma audiência pública para a sociedade se manifestar a respeito dos chamados gladiadores. Segundo Martins, caso o caráter paramilitar seja constatado, as religiões de raiz africana irão pedir uma indenização para incentivar medidas contra a intolerância religiosa.
Antes da entrega da representação, um grupo de 100 pessoas vestidas de branco e tocando atabaques tentaram mobilizar pedestres que passavam em frente ao prédio do MPF, no centro do Rio. Também houve manifestação semelhante em frente ao Ministério Publico Federal em São Paulo.
A reportagem presenciou pessoas dirigindo xingamentos ao grupo, como usando a palavra macumbeiros de forma pejorativa e outros desviando o caminho fazendo o sinal da cruz.
Tenho 60 anos de santo [iniciação religiosa no Candomblé]. Nesse tempo sofri muito preconceito, mas não ligo. As pessoas não entendem e não querem entender, mas querem discriminar, afirmou Eleuzita de Omulu, 79, tida na religião por ser a segunda mãe de santo mais velha do país. Seu terreiro existe há 170 anos, em Salvador.
Thatiana Santos Ferreira, 19, disse que já perdeu namorados e amigos por ser candomblecista. Desde pequena alguns colegas de turma não se aproximavam de mim. Uma agressão psicológica. Namorados também se afastaram após ir no terreiro que frequento, o Axé Ilê Omim Kaia, em Vigário Geral (zona norte da cidade).
Sua tia, Kátia Santos, 55, que é mãe pequena do mesmo terreiro [segunda mãe de santo na hierarquia do terreiro], que também trabalha como engenheira eletrônica em uma firma, disse que sofreu muito preconceito na infância. Quando fui fazer minha iniciação, por volta dos 10 anos, tinha que usar o quelê [cordão de contas do orixá] por três meses. As professoras não queriam que eu usasse na escola, então, tive que me ausentar nesse período. Fiquei de recuperação pelas faltas, não pelas notas. Elas não abonaram as faltas, pois sabiam que eu havia faltado devido ao candomblé.
O MPF-RJ disse que recebeu a representação e que procuradores da Procuradoria Regional dos Direitos Civis irão analisar o caso.
Em São Paulo, cerca de 40 pessoas -vestidas de branco e com ícones das religiões de matriz africana, assim como os manifestantes no Rio- também entregaram documento semelhante ao Ministério Público Federal e se concentraram na frente da sede regional, no centro da capital paulista.
A assessoria da Igreja Universal nega que o grupo Gladiadores do Altar tenha caráter paramilitar. São jovens com vocação missionária e que estudam a Bíblia, sem desenvolver qualquer prática militar.

 

Extraído do site do Jornal Diário do Sudoeste / Pato Branco – PR
http://diariodosudoeste.com.br/noticias/brasil/2,82026,28,03,religioes-de-raiz-africana-pedem-investigacao-sobre-gladiadores-do-altar.shtml

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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