Breaking News

Religiosos promovem ato de desagravo em cemitério

Candomblecistas fazem ritual para mortos onde fiéis haviam sido barrados

Francisco Edson Alves | 05/12/2014 23:52:20

 

Rio – Integrantes do grupo candomblecista Ilê Axé Xapônnã, de Cosmos, na Zona Oeste, fizeram ontem à tarde, dentro do Cemitério de Ricardo de Albuquerque, na Zona Norte, um ato de desagravo, segundo eles, pelos mortos que não puderam receber oferendas em rituais que estavam sendo coibidos pela administração local, conforme O DIA denunciou. A mãe de santo Rosiane Rodrigues, de 42 anos, que postou vídeo em seu perfil na rede social mostrando o momento em que foi barrada com outros fiéis no dia 30 no mesmo cemitério, participou do ritual.

Os adeptos do candomblé não foram barrados na entrada, mas pelo menos dois seguranças ficaram observando-os a certa distância durante os poucos mais de 30 minutos em que permaneceram em frente a um cruzeiro, próximo ao local onde são enterrados os corpos de famílias pobres. Os religiosos fizeram uma roda com atabaque e acenderam velas aos pés do cruzeiro.

 

Adeptos do candomblé fizeram uma roda, tocaram atabaque e acenderam velas aos pés do cruzeiro. Não foram barrados na entrada, mas foram observados por seguranças Foto:  Bruno de Lima / Agência O Dia
Adeptos do candomblé fizeram uma roda, tocaram atabaque e acenderam velas aos pés do cruzeiro. Não foram barrados na entrada, mas foram observados por seguranças
Foto: Bruno de Lima / Agência O Dia

“Infelizmente, esse tipo de situação constrangedora (de seguranças os seguindo), se repete em praticamente todos os cemitérios do Rio. Isso é uma das maiores agressões, e silenciosa, que nos impõem”, protestou Rosiane, que aproveitou para buscar documentos que comprovam que seus avós e a mãe estão enterrados lá, em túmulo perpétuo. “Vão compor a ação que vou impetrar na segunda-feira junto ao Ministério Público contra a administração do cemitério”, adiantou.

O babalorixá Jorge Luiz Amaral, o Pai Luiz de Omulu, presidente do Ilê Axé Xapônnã, disse que espera que o ato sirva como um divisor de águas. “Esperamos que seguidores de outras religiões e os próprios governantes tenham mais respeito por nossas tradições. O cemitério, para nós do candomblé, é muito sagrado. É aqui, onde estão nossos antepassados, que buscamos forças, energias positivas. Para nós não existe morte e sim uma continuidade em outro plano”, ressaltou.

Jerônimo de Oliveira Barreto, um dos administradores do cemitério, garantiu que não há proibições de cultos feitos por fiéis de religiões de matrizes africanas. “A orientação que damos é que os rituais sejam feitos apenas no horário aberto ao público, das 7 às 19 horas”, disse. Na quinta-feira, o provedor da Santa Casa de Misericórdia, que ainda é responsável pelos cemitérios públicos da cidade, negou que tenha partido dele a ordem para que funcionários impeçam os cultos.

Vídeo:  Adeptos do Candomblé fazem ritual em cemitério

Cartilha vai ensinar a fazer ‘oferenda sustentável’

As oferendas deixadas por religiosos de origem afro, entre elas a umbanda e o candomblé, nos cemitérios, são as principais queixas de quem critica os rituais protagonizados por seguidores dessas religiões. São travessas de barro e de louça, garrafas, copos e outros utensílios, além de comidas caseiras, frutas e refrigerantes, que, segundo funcionários dos cemitérios, poluem o meio ambiente e atraem urubus, ratos e baratas. Com apoio de grupos ligados às religiões, o Programa Elos da Adversidade, da Secretária de Estado e Ambiente (SEA), lança na segunda-feira a cartilha que defende a chamada “oferenda sustentável”.

“É uma ideia excelente e que protege o meio ambiente”, defende Pai Luiz de Omulu. A cartilha será lançada às 10h na cachoeira Rio da Prata, em Campo Grande, localizada no final da Estrada do Cabuçu, onde serão instaladas placas alertando aos religiosos para a prática de atitudes responsáveis. “Há dez anos lutamos em defesa da fé e por um ambiente saudável”, completou.

Nos chamados despachos sustentáveis, os umbandistas de várias partes da Zona Oeste, como os de Santíssimo, por exemplo, já usam produtos que não causam danos à natureza na hora de colocar suas ofertas para os orixás. Eles trocaram recipientes de vidro e barro por flores e folhas verdes largas e resistentes, como a mamona e a bananeira. Cascas de coco passaram a dar lugar a copos e garrafas.

“A natureza passa a ter um ambiente muito mais agradável para todos”, justifica Pai Luiz de Omulu. Ele defende ainda um trabalho educacional mais amplo dos governantes em todas as esferas, que possibilita a conscientização e ensine as práticas recomendadas, em parceria com ambientalistas. Em agosto, a SEA lançou o Projeto Sagrado da Curva do S, no Parque Nacional da Tijuca, onde um espaço para rituais foi delimitado.

 

Extraído do site do Jornal O Dia on line
http://odia.ig.com.br/noticia/rio-de-janeiro/2014-12-05/religiosos-promovem-ato-de-desagravo-em-cemiterio.html

 

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

Related posts

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *