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Representantes afros e evangélicos não entram em acordo sobre dia 8

Encontro promovido pelo Ministério Público para tratar do uso da orla acabou sem resultado

Carlos Amaral – Colaborador / Tribuna Independente 01 Dezembro de 2015 – 11:50

 

Foto: Sandro Lima
Foto: Sandro Lima

O que deveria ser uma audiência pública tornaram-se reuniões separadas com cada uma das partes

Um encontro promovido pelo Ministério Público Estadual (MPE) realizado na segunda-feira (30), em sua sede no Barro Duro, entre representantes das religiões afro-brasileiras e religiões evangélicas para resolverem um impasse sobre o uso do espaço da orla de Maceió no próximo dia 8 de dezembro acabou não chegando a nenhum resultado. Um novo encontro será realizado nesta terça-feira (1º) à tarde, a partir das 15h, no mesmo local.

Segundo o promotor Flávio Gomes, que coordena as negociações, não foi possível chegar a um entendimento ao final da tarde de ontem e por isso, um novo encontro precisará ser realizado. O que era para ter sido uma audiência pública, com os dois lados no mesmo ambiente apresentando seus argumentos, se tornou em reuniões separadas com cada uma das partes.

“Adotamos esse método para buscar a melhor solução para o impasse e vamos conseguir. Sempre respeitando o princípio da tolerância e do bom senso”, garante Flávio Gomes.

O clima entre os presentes era de tensão. Seja por não saber se vão poder realizar suas celebrações, seja por receio de que, caso os dois lados dividam o mesmo espaço no mesmo dia, atos de violência ocorram durante o dia 8 de dezembro.

Como já ocorre pelo menos desde a década de 1940, diversas Casas de Axé se dirigem à praia de Pajuçara para fazerem suas oferendas à Iemanjá. Mas há cerca de três anos, igrejas evangélicas reivindicam o local para realizarem uma celebração em virtude da comemoração ao Dia da Bíblia, datado em 9 de dezembro, um dia após ao de Iemanjá que também é o Dia de Nossa Senhora da Conceição.

Além dos representantes das Casas de Axé, também se fizeram presentes no MPE o Conselho Estadual de Promoção à Igualdade Racial, a Fundação Palmares e o Conselho Estadual de Direitos Humanos e diversos grupos culturais. Todos com o intuito de garantir a tradição das manifestações das religiões afro-brasileiras de celebrarem o seu dia.

Do lado dos evangélicos, que não quiseram falar com a imprensa, estavam representantes de duas igrejas – Assembleia de Deus, mas não a tradicional, e a Igreja Chama Viva –, além de uma senhora que se apresentou à reportagem da Tribuna Independente como assessora parlamentar da deputada Jó Pereira (DEM).

 

PROPOSTA

Segundo relatos de representantes das religiões afro-brasileiras, a proposta dos evangélicos foi que eles sairiam da frente do Maceió Mar Hotel, na orla de Ponta Verde, e seguiriam em passeata em direção ao Clube do CRB, na Pajuçara, enquanto os adeptos do Candomblé realizam suas oferendas na praia.

Para os representantes das religiões afro-brasileiras isso é uma afronta e pode ocasionar em atos de violência.

Mães de santo reclamam de intolerância religiosa

Tanto Mãe Zaza quanto Mãe Mirian reclamam que os adeptos de religiões afro-brasileiras são vítimas de intolerância religiosa e que a insistência dos evangélicos em dificultarem a realização de sua celebração à Iemanjá é prova disso.

“Não queremos que eles [evangélicos] deixem de fazer suas celebrações, queremos é o direito de fazer as nossas. Desde a década de 1940 que fazemos as oferendas na orla no dia 8 de dezembro, mas de alguns anos para cá eles ficam implicando com a gente”, afirma Mãe Mirian.

Já Mãe Zaza destaca que já houve momentos de adeptos do Candomblé serem agredidos, tanto física quanto moralmente, em anos anteriores. “Eles fizeram panfletos com imagens com sangue e afirmações que adoramos o diabo. Além disso, impediam que as pessoas descessem dos ônibus para participar das oferendas à Iemanjá. Nossas crianças são discriminadas na escola. Essa intolerância precisa acabar”.

 

RACISMO

Para Clébio Correia de Araújo, vice-reitor da Universidade Estadual de Alagoas (Uneal) e adepto do Candomblé, o caso é de racismo e assim deve ser tratado. Uma vez que o dia 8 de dezembro também se comemora o Dia de Nossa Senhora da Conceição e os evangélicos não criam impasses para as celebrações católicas. Além disso, ele defende que seja cobrado do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) que torne a celebração à Iemanjá patrimônio material do país e assim, tenha garantido pelo Estado brasileiro sua realização.

“Sem isso, todos os anos teremos que passar por isso. Pela incerteza se vamos ou não poder fazer nossa celebração só porque tem gente que acha que o Candomblé cultua o diabo. O diabo nem existe nas religiões afro-brasileiras, pois é uma personificação judaico-cristã”, diz Clébio.

 

 

 

Extraído do site do Jornal Tribuna Hoje / Maceió – AL
http://www.tribunahoje.com/noticia/162601/cidades/2015/12/01/representantes-afros-e-evangelicos-no-entram-em-acordo-sobre-dia-8.html

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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