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Resistência: Letícia quebra ciclo de opressão com apoio do afoxé

Eles são a maioria dos pernambucanos. Juntos, pardos e negros representam seis em cada dez habitantes do Estado

Marcionila Teixeira

Publicação: 16/11/2015 20:23 Atualização: 16/11/2015 22:22

 

Desde muito pequena, mesmo sem saber, Letícia começou a quebrar um ciclo de opressão vivido por outros familiares e seguidores da religião de origem africana. Foto: Paulo Paiva/DA/DP Press
Desde muito pequena, mesmo sem saber, Letícia começou a quebrar um ciclo de opressão vivido por outros familiares e seguidores da religião de origem africana. Foto: Paulo Paiva/DA/DP Press

 

De hoje até sexta-feira, quando é celebrado o Dia da Consciência Negra, o Diario discute como se dá a resistência e a inserção dessa população na sociedade. Quem chama à reflexão são os personagens desta série, emblemáticos, porém anônimos. Hoje a voz é de Letícia, 7 anos

 Letícia, 7 anos, negra, simpatizante do candomblé, adoradora de Oxum e Iansã, usa guias no pescoço para ir ao colégio. Em dias de festas escolares, também faz questão do turbante. A menina, criada no terreiro de pai Adão, famoso pai de santo do Recife, morto em 1936, também é dançarina no afoxé Povo de Ogunté, criado há quinze anos dentro do terreiro da família, em Água Fria. Desde muito pequena, mesmo sem saber, Letícia começou a quebrar um ciclo de opressão vivido por outros familiares e seguidores da religião de origem africana. A mãe dela, por exemplo, foi rejeitada por outras crianças na escola por ser negra e “iniciada” no candomblé.

“Tinha colega que não sentava perto de mim na sala de aula, não me aceitava nos grupos de trabalho ou mesmo não falava comigo. Minha filha é meu orgulho. Ela não tem vergonha da religião. É louca por Oxum e já pede ao avô para ‘lavar a cabeça’”, conta Cássia de Santana, 24 anos, mãe da menina. Letícia enfrenta o preconceito e a intolerância dançando, cantando e tocando seu instrumento no afoxé junto com outras crianças e adolescentes do grupo. Também usa seus adereços preferidos sem temer ser recriminada. Tem dado certo. “Ela nunca me falou ter sofrido qualquer problema na escola como eu sofri”, relata Cássia.

Movimento 

O nome de Letícia é desafio. Mas também pode ser resistência. Segundo Cosmo Nascimento, presidente do afoxé, a divulgação do ritmo é importante junto aos jovens para valorizar as próprias raízes e afastá-los das drogas e da violência. “Muita gente mais nova somente quer saber de pagode ou brega, não participa de um afoxé, e até se envolve com drogas. Alguns também se afastaram do candomblé porque não tiveram estímulo como eu tive na minha família. Chegava em casa da escola e já ia tocar em uma lata”, lembra.

 

Apesar de ganhar destaque na época de Momo, o afoxé, ao contrário do que muitas pessoas imaginam, não é um bloco carnavalesco. Foto: Paulo Paiva/DA/DP Press
Apesar de ganhar destaque na época de Momo, o afoxé, ao contrário do que muitas pessoas imaginam, não é um bloco carnavalesco. Foto: Paulo Paiva/DA/DP Press

O afoxé é a manifestação que mais reúne aspectos da cultura afro-brasileira. A opinião é de Ester Monteiro de Souza, mestre em antropologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e autora da dissertação Ekodidé – Relações de Gênero no contexto dos afoxés de culto nagô no Recife. “O afoxé tem todos os aspectos da cultura afro, como a dança, a música, a comida, os orixás, as insígnias. Tudo isso junto vai para a rua no carnaval”, explica.

Segundo a estudiosa, a manifestação foi muito usada na década de 1970 pelas organizações negras, como o Movimento Negro Unificado (MNU), para dar visibilidade política à cultura afro no cenário nacional. “O afoxé vai para a rua dizendo ao povo para assumir sua raça, sua cor. E faz isso até hoje, em letras como “Irmão, irmã, assuma sua raça, assuma sua cor, essa beleza negra, Olorum quem criou’ ou ‘compreender um Deus sem cor, respeite o negro e sua fé’”, observa a pesquisadora.

 

A força do afoxé para o carnaval pernambucano

O afoxé Povo de Ogunté desfila com 120 pessoas principalmente no período de carnaval e conta com cerca de 50 crianças e adolescentes, entre seguidores da religião e não seguidores. “Ele nasceu com a ideia de divulgar o trabalho da casa”, lembra Cosmo, se referindo ao terreiro de pai Adão, hoje liderado pelo neto dele, Manoel Papai.

No carnaval do próximo ano, desfila no sábado de carnaval, em Água Fria, e no cortejo oficial do Pátio do Terço, no domingo. No próximo dia 29, eles promovem uma festa gratuita na Rua do Sol, 283, a partir de meio-dia, para arrecadar dinheiro para investir no grupo. Ensaios acontecem todos os sábados no terreiro, a partir das 14h, na Estrada Velha de Água Fria, 1644. É aberto ao público e a entrada é gratuita.

Apesar de ganhar destaque na época de Momo, o afoxé, ao contrário do que muitas pessoas imaginam, não é um bloco carnavalesco. Ele tem uma forte vinculação com as manifestações religiosas dos terreiros de candomblé. Por isso também é chamado candomblé de rua. Em 2010, Ester Monteiro calculava cerca de 40 afoxés na capital e na Região Metropolitana.

 

Extraído do site do Jornal Diário de Pernambuco – Recife – PE
http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/vida-urbana/2015/11/16/interna_vidaurbana,610657/o-nome-de-leticia-e-resistencia.shtml

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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