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RIO: ‘Me senti sob chicote, numa senzala’, relata mãe de santo

 

Religiosa obrigada a quebrar seu terreiro ao ser feita refém por sete homens armados relata com exclusividade ao DIA o terror que passou

24/09/2017 07:00:09

FRANCISCO ALVES FILHO

Rio – Ao chegar, na tarde de terça-feira, 5, ao terreiro cravado no bairro Parque Flora, em Nova Iguaçu, onde desde 2013 tratou de problemas espirituais das pessoas através do Candomblé, a mãe de santo L., 66 anos, foi abordada de forma agressiva. Eram sete homens, com idades de 20 a 30 anos, armados com duas pistolas, taco de beisebol e barra de ferro. “O ‘homem’ disse que não é para ter mais macumba aqui”, informou um deles, referindo-se ao chefe do tráfico. “Nós viemos quebrar seu barracão”.

L. ergue o machado de Xangô, entidade da justiça no Candomblé. Exatamente o que ela pede em relação ao ataque a seu terreiro, um dos oito quebrados em dois meses por traficantes que dizem ser evangélicos. Sandro Vox / Agência O Dia

Em seguida, cinco pessoas que a acompanhavam foram colocadas no chão, sob a mira das armas de dois traficantes. Os outros criminosos entraram com ela no terreiro e deram início à depredação que se vê, em parte, no vídeo gravado pelos próprios agressores. As imagens circularam nas redes sociais e chocaram o país.

O terreiro de mãe L. foi um dos oito quebrados nos últimos dois meses no Rio por traficantes que se dizem evangélicos. A ordem teria partido de um dos cabeças de uma das facções criminosas que aterroriza o estado. Ela disse que não os conhecia e nunca recebeu qualquer ameaça anterior, por isso a surpresa foi completa . “Pedi a eles 24 horas para fazer a mudança, mas não adiantou. Foram muito agressivos, me empurravam, mandaram eu quebrar e quebraram tudo que viram pela frente”.

Toda a ação foi entremeada por xingamentos. Os criminosos se referiam aos quartos dos Orixás como ‘casas de cachorro’ e, à mãe de santo, como ‘feiticeira’ e ‘bruxa’. Repetiam que ela deveria doar cestas básicas para a ‘obra do Senhor’ ao invés de ficar fazendo ‘bruxarias’.

Até hoje, a religiosa não conseguiu ver o vídeo gravado pelos traficantes. “Aquilo foi uma segunda agressão que eu sofri”, definiu, com os olhos marejados. “Me senti numa senzala, sendo chicoteada e sem ter a quem pedir socorro”. As imagens foram feitas no quarto de Omolu, um dos Orixás, local de silêncio e meditação. Para ela, quebrar os símbolos que guardava por 35 anos foi o mesmo que bater na própria mãe, no pai ou no filho.

O vídeo, feito pelos agressores, circulou nas redes sociais. Reprodução

Depois de completada a depredação, com várias peças religiosas literalmente reduzidas a pó, uma outra cena deplorável. “Assim que os homens subiram numa carroça para ir embora, foram aplaudidos por alguns dos vizinhos, evangélicos”, contou mãe L. Houve até quem apertasse a mão dos bandidos, aprovando o ato.

Dias após o ataque, a mãe de santo foi à Secretaria de Segurança pedir providências, mas se sentiu decepcionada. “Foram palavras ao vento, nem perguntaram meu nome”. Até agora, não fez registro de ocorrência na delegacia, por medo. Um dia após falar com exclusividade ao DIA, ela viajou para a Europa, onde vai prestar assistência religiosa a seguidores, como faz todos os anos.

Só pensa agora em reconstruir seu terreiro em outro local. Do triste episódio, um motivo de orgulho: “Foram necessários sete homens para subjugar uma mulher de 66 anos”. Apesar de tudo, não pensa em vingança. “Peço que os Orixás os perdoem, não quero o mal desses homens. Não sou igual a eles”.

Frei franciscano e escritor batista consideram ataques muito graves

Diante da falta de providências das autoridades de Segurança contra ataques a terreiros, a mãe de santo L. tem medo pelo que pode acontecer. “Consegui escapar ilesa. Mas não sei até quando”, comenta. Ela alerta que não são apenas seus irmãos de religião que estão em risco. “É bom que as pessoas não se iludam: ninguém está a salvo. Nem as religiões afro, nem os budistas, nem Seicho-No-ie, nem os católicos… ninguém. Se esses grupos quiserem invadir os templos com picaretas e destruir tudo, vão conseguir”.

O frei franciscano David Raimundo dos Santos diz que são frequentes as invasões e ataques a igrejas católicas no Brasil, mas nada tão grave como o que está acontecendo com terreiros. “É preciso que esse tipo de ação seja enquadrada na lei como crime hediondo e terrorismo”, defende. Uma petição nesse sentido será encaminhada à Justiça pela Educafro, entidade educacional que coordena. Também o escritor Anderson França, que é batista, se mostra preocupado. “É perigosa a utilização do discurso cristão para oprimir outras religiões. Existe o uso político que estabelece hierarquia de poder através de algumas igrejas neopentecostais”.

Para L., os terreiros uniram os adeptos da religião. Ela esteve na passeata contra a intolerância. “Parece que o povo de santo acordou”.

 

 

Extraído do site do Jornal O Dia / Rio de Janeiro – RJ
http://odia.ig.com.br/rio-de-janeiro/2017-09-24/me-senti-sob-chicote-numa-senzala-relata-mae-de-santo.html

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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