RITUAIS RELIGIOSOS SEM SACRIFÍCIO DE ANIMAIS

É crime previsto em lei o sacrifício de animais em quaisquer rituais religiosos

GILBERTO PINHEIRO
COLUNISTA

 

 

Sabemos que mundo afora algumas religiões, presas a atavismos culturais ainda primitivos sacrificam animais em oferenda a seus deuses.  Todavia, ensejo destacar especificamente o que ocorre em nosso país, o Brasil, quando alguns terreiros de Candomblé ainda martirizam animais, como se fosse algo normal semelhante a  um ato diário de ir ao supermercado fazer compras ou se alimentar.   Todavia, a realidade é outra, principalmente, quando temos conhecimento que os animais são seres sencientes, têm consciência, sentem dor, além de possuírem emoções, sentimentos.  O  tempo passa e tal cultura não prescreve, infelizmente,  considerando-se direito inalienável à prática de liberdade religiosa.

Liberdade religiosa é direito de todos, assegurado na Constituição Federal e isso não gera dúvida.  Todavia, é preciso bom senso, respeito à vida animal e isso não ocorre em alguns rituais ainda comuns no Candomblé, por exemplo.  Na verdade, essa religião é bonita, merece respeito, pois cultua a natureza. Todavia, precisa respeitar a vida dos infelizes animais e pôr fim ao sacrifício deles.  Não há justificativa plausível para continuar com atos de agressividade contra eles.   Curiosamente, a  Umbanda pura não tortura animais em rituais religiosos.  Muitos saindo pela tangente afirmam peremptoriamente que não é religião de origem afro, mas, brasileira.  Ora, precisamos relativizar a informação.   Se o Candomblé não existisse no Brasil, não haveria, por sua vez, a Um banda, religião considerada brasileira mas prima irmã do Candomblé.  

OS ORIXÁS CULTUADOS NO CANDOMBLÉ E NA UMBANDA SÃO OS MESMOS –  na Umbanda não se sacrifica animais.  Por que seriam sacrificados no Candomblé?

Embora a Umbanda seja uma religião genuinamente brasileira, não se pode negar  que é inspirada no Candomblé, haja vista as fortíssimas influências como os mesmos Orixás, as vestimentas, o bater dos tambores e danças, entoação de pontos, etc.    Além disso, os Orixás são exatamente os mesmos – Oxóssi, Ogum, Iansã, Nanã, Oxum, etc….
Se nessa religião os Orixás não aceitam e, por sua vez, não permitem a matança de animais, por que no Candomblé seria diferente?  Qual a razão?
Ora, não há lógica alguma sacrificar numa e não sacrificar noutra.  Ambas cultuam a natureza e Orixás, espíritos de luz.   Sinceramente, é incompreensível a não ser idiossincrasias ou disposições de temperamento de candomblecistas que imaginam estar a autenticidade e “pureza religiosa” em tais sacrifícios, emolando os infelizes e indefesos animais.

ILÊ IYA TUNDE – YALORIXÁ SENZARUBAN –  Candomblé Vegetariano que não sacrifica animais em seus rituais

O  Ilê Senzaruban surgiu em Itaquaquecetetuba (SP),  tem à frente a Yalorixá  Iya Senzaruban que não aceita a matança de animais em hipótese alguma.  Sendo considerado Candomblé Vegetariano, segue os ensinamentos de Angenor Miranda, fundador do mesmo em nosso país,  entendendo que somente o “sangue das plantas” deve correr nos terreiros candomblecistas.   Ela é vegetariana e sendo o Candomblé conhecido como Verde, sem sacrifício animal, podemos afirmar categoricamente que não é inferior ao considerado convencional.  A vida de  um animal não pertence a ninguém, pois o ser humano é incapaz de criar um simples grão de areia do nada.   O especismo fortemente presente nesses rituais precisa ser definitivamente proibido por lei, ancorado na maior tutela animal  que é a Constituição Federal em seu artigo 225 1º / § 7ª e lei federal 9605/98, artigo 32.    Lei é para ser cumprida por todos, sem exceção, sem quaisquer justificativas ao contrário e vida é para ser preservada, inclusive, em rituais religiosos, sejam eles de quaisquer matizes ou crenças.  Nada justifica o crime contra os animais.  

Precisamos entender que os Orixás cultuados no Candomblé e na Umbanda são exatamente os mesmos e na Umbanda  não se exige o  sangue animal.  Sendo assim, por que seria exigido no Candomblé?   Isso esbarra em enorme e inequívoca contradição. Vê-se e percebe-se nitidamente que não são eles que exigem em rituais  a matança dos animais, mas, os humanos que participam dos mesmos, entendendo a necessidade desse crime em adoração aos seus deuses.  Não passa, indiscutivelmente,  de idiossincrasia  de alguns médiuns que, infelizmente, ainda não evoluíram espiritualmente, parando no tempo e espaço.  Um ser de luz, como um Orixá, não  necessita do sofrimento animal e de seu sangue.  A finalidade é a prática da fé, e contemplação aos citados Orixás, a prática da  caridade, o entendimento que somente o amor é a salvação da Humanidade e amor não contempla a dor, muito menos a matança de animais indefesos para satisfazer a crença de poucos em nosso país ainda em evolução.

Já bastam os assassinatos de animais em matadouros para alimentar a fome de muitos, outro absurdo que somente será vencido através do conhecimento ou proficientes estudos, afinal, todos precisamos caminhar rumo à luz para a nossa liberdade e, por sua vez, felicidade.   O Candomblé pode e deve continuar, mas, respeitando a vida animal, afinal, tais matanças superam os
maus-tratos – é crueldade e isso não podemos aceitar em hipótese alguma.  Que haja bom senso, inclusive, do STF que julgará em breve tempo a referida questão, permitindo ou não os rituais com a morte sanguinária dos animais.  Que Deus e os Orixás iluminem essas mentes para que o  amor e respeito à vida animal seja uma verdade incontestável.  .

AGENOR MIRANDA – fundador do Candomblé Verde no Brasil, contrário ao sacrifício dos animais

Agenor Miranda é uma personalidade muito respeitada no meio candomblecista por alguns e desconhecido por muitos.   Criou o Candomblé Verde no Brasil, cultuando a nossa irmã natureza e respeitando a vida dos animais.   Sempre afirmava que ” a força do Candomblé está na seiva das plantas e não no sangue derramado dos animais”.  Na verdade, um espiritualista muito desenvolvido e de valores elevados, dando enorme contribuição a essa religião com seus entendimentos  espirituais, distanciando-se dos arquétipos criados por outros candomblecistas  que até hoje praticam a emolação animal.   Em sua vida profissional foi um destacado professor do Colégio Pedro II, lecionando Latim, além de poeta e ensaísta, falecendo aos 105 anos, deixando um legado de conhecimento que precisa ser mais assimilado e colocado em prá tica em todos os terreiros de Candomblé em nosso país.       
Precisamos entender definitivamente que animais não são “coisas”, objetos, adereços religiosos;  são vidas sencientes que precisam ser respeitadas e, para isso, outro entendimento como respeito e compaixão a eles.   Espera-se, sinceramente, que esses rituais com animais tenham fim no Brasil.  Nenhuma religião, não apenas o Candomblé tem direito sobre a vida  deles.  São seres independentes, sencientes e que merecem dignidade, respeito por parte de todos nós, sem exceção.   Portanto, liberdade religiosa, sim! matança de animais nesses rituais, definitivamente, NÃO!            .   

Gilberto Pinheiro
jornalista(reg.24287) MTB
palestrante em escolas, faculdades,
ex-consultor da CPDA-OAB/RJ – Comissão
de Proteção e Defesa dos Animais
da OAB – Ordem dos Advogados do Brasil

 Somos o coração, a alma, a voz dos animais
Gilberto Pinheiro

Extraído do site do Jornal Diário de Petrópolis / Rio de Janeiro – RJ
http://diariodepetropolis.com.br/integra/gilberto-pinheiro-154305

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *