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Ritual: Sacrifício de animais: algumas reflexões

 

por Pai Rodney — publicado 08/09/2017 07h00, última modificação 06/09/2017 15h45

A tentativa de proibir tem sido cada vez mais frequente. Mas o que incomoda tanto? Qual a intenção não revelada?

 

Wikimedia
O sacrifício é a condição para a continuidade da vida

Em diversas Câmaras municipais e Assembleias Legislativas tramitaram projetos para proibir o sacrifício de animais em rituais e cultos religiosos. O Tribunal de Justiça de São Paulo, em decisão recente, derrubou por maioria absoluta uma lei do município de Cotia, que fixava multa de 1.504 reais a quem utilizasse, mutilasse ou sacrificasse animais em locais fechados e abertos com finalidade mística, iniciática, esotérica ou religiosa. No caso de empresas, a multa seria de 752 reais por animal, além da perda do alvará de funcionamento.

O alvo obviamente eram os povos de matriz africana, que incluem em suas práticas rituais de sacrifícios de várias espécies animais, como cabritos e carneiros, galinhas e outras aves. A lei foi considerada inconstitucional e revogada, mas seus efeitos ainda reverberam e alimentam toda sorte de perseguição e intolerância contras as religiões afro-brasileiras.

A Constituição Federal de 1988 deveria por si só assegurar o direito às práticas tradicionais do Candomblé, mas ainda requer alguns dispositivos que as regulamentem. Acreditávamos que o Estatuto da Igualdade Racial daria conta de inserir esses rituais na esfera das garantias constitucionais, mas a intolerância religiosa ainda se sobrepõe, especialmente aquela empreendida pelas bancadas evangélicas e por setores mais conservadores da sociedade.


Talvez eu não seja suficientemente capaz de explicar e é bem provável que muitos não queiram ou não consigam entender, mas é necessário que se fale a respeito desse tema. Trata-se aqui de uma tentativa de desmistificar uma série de questões, esclarecer um sem-número de equívocos e descontruir os preconceitos em relação ao sacrifício de animais no Candomblé. Tentativa pretensiosa, é verdade. Então, lanço algumas informações que podem abrir um debate e nos instigar a refletir sobre o assunto.

Primeiramente, deve-se admitir que seria impossível esgotar esse debate num breve artigo. Desta forma, proponho que, com base nos elementos aqui levantados, pensemos sobre o sacrifício e sua função estruturante no Candomblé. Não vai aqui nenhuma pretensão de mudar opiniões. Não há espaço para tantos argumentos e, ainda que houvesse, para quem não está aberto a ouvir não adianta explicar.

Sabemos que as religiões africanas também são vítimas do racismo e por isso sofrem com a discriminação e o preconceito. A intolerância religiosa é uma das faces do racismo. Nesse sentido, a matança de animais (e a não utilização de eufemismo é deliberada) é muitas vezes o pretexto para se destilar ódio e desrespeito em relação ao Candomblé, suas práticas e sua gente.

Recaem sobre os povos de terreiro acusações de maus tratos e crueldade com animais, o que é absolutamente infundado. O sacrifício de animais é uma condição para a subsistência e para a manutenção espiritual da comunidade. É uma prática que não está para ser modificada ou questionada, faz parte e pronto. Em outros termos, como ponto fundamental da fé configura-se como algo indiscutível. E não cabe ao Estado, à sociedade, muito menos a outras religiões, coloca-lo em dúvida ou determinar como deve ser conduzido. A regulamentação legal ou jurídica é para assegurar o direito à realização do ritual, não para submetê-lo à secularização.

Para se compreender o significado do sacrifício no culto aos orixás, é preciso entender o que é axé, ou seja, a força que assegura a existência dinâmica e que torna possível o processo vital. Axé é o poder de realização, o devir. No Candomblé, o sacrifício visa ampliar, acumular e distribuir o axé. O ritual não tem um sentido expiatório, pois em nossa religião não existe a noção de pecado, não havendo, portanto, o que expiar.

Por estar ligado simbolicamente à fertilidade, à concepção e ao nascimento, o sangue é detentor de axé. O sacrifício é a condição para a continuidade da vida, considerando, principalmente, que todo os seres vivos se alimentam.

Nós, humanos, estamos também inseridos no universo da cultura e por isso atribuímos significados específicos a nossas necessidades vitais. Portanto, inúmeras religiões conferem ao alimento e à alimentação um sentido sagrado. Judeus e muçulmanos, por exemplo, só consomem carnes de animais abatidos de acordo com suas liturgias e até os produtores se adaptaram a essa exigência.

Também no Candomblé, a carne que será consumida pelos iniciados deve ser sacralizada. São vetadas as carnes de animais que foram submetidos a algum tipo de sofrimento. Todas os atos públicos e festividades de um terreiro são precedidas de matança.

Nesses ritos, o sangue impregna de axé os assentamentos sagrados. Os animais são limpos e seus órgãos vitais são preparados, ofertados aos orixás e compartilhados em comunhão pelos fiéis. A carne será o alimento da comunidade na festa e no dia-a-dia. Como os terreiros de Candomblé normalmente se localizam em regiões carentes, o excedente muitas vezes é dividido com a vizinhança.

Como bem sabemos, a compreensão total desses ritos milenares só pode ser absorvida por meio da vivência e ao longo do tempo. Contudo, é fundamental que os olhares sejam expurgados do racismo e que essas pequenas informações sejam elementos que agucem a boa vontade para entender o diferente antes de julgá-lo.

Não precisa aceitar, mas tem de respeitar.

Pai Rodney de Oxóssi é antropólogo, escritor e babalorixá. Há mais de 20 anos pesquisa relações raciais, racismo e religiões de matriz africana. É sacerdote do Ilê Obá Ketu Axé Omi Nlá. Escreve às sextas-feiras

 

Extraído do caderno Diálogos da Fé, da Revista Carta Capital / São Paulo – SP
https://www.cartacapital.com.br/blogs/dialogos-da-fe/sacrificio-de-animais-algumas-reflexoes

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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