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Sabores e saberes salgueirenses

Helena Theodoro | 09/12/2014 08h35

helena_e_renato_298Quadra do Salgueiro, sábado de ensaio! Alegria total de estar com o povo oriundo do morro da pedreira, daqueles que cultuam Xangô, o orixá do fogo, desde longa data, gente da minha tribo carioca-tijucana-salgueirense. Tudo na quadra nos remete ao vermelho e branco de Xangô, que caracteriza uma escola que,como diz em seu lema,” não é melhor, nem é pior, é apenas diferente”!

Muitos os nomes que a ela se ligam nestes 61 anos de existência: Calça Larga, Arlindo Cruz, Fernando Pamplona,Rosa Magalhães, Joãozinho Trinta, Laíla, Ronaldinho Mestre-sala, Irmãs Marinho, Haroldo Costa, Renato Lage, Prof. Julio Machado, o Xangô do Salgueiro e muitos outros, que são referencias do carnaval carioca e que deram uma identidade muito especial à essa escola. O Prof. Julio personificou o orixá representativo da comunidade, após sair como destaque de Xangô pela primeira vez em 1969, no enredo Bahia de todos os deuses, que deu o título máximo ao Salgueiro.

A partir daí, passou a sair como o destaque Xangô em todos os desfiles até sua morte em março de 2007. O Prof. Julio, historiador e pesquisador, falava sempre de como representava o protetor da comunidade e orixá da justiça e do poder político para os salgueirenses.

Conversando com Renato Lage comentei da emoção que nos passa o ritual feito pela escola, que através da dança dos mestres-salas e porta-bandeiras, energiza toda a quadra com sua dança da reza, a dança do samba, apresentando a bandeira sempre aberta, com os valores comunitários sendo espalhados pelo movimento da bandeira no ar por todos os cantos da quadra, sendo reverenciado por todos os seus componentes. Neste ritual a escola afirma sua existência no ritmo da bateria chamada “A furiosa” por conta da batida de Xangô, o alujá, muito vibrante, forte e rápido.

As baianas, representação das mulheres mais velhas e sábias, bem como a Velha Guarda, fazem a união entre as diferentes gerações, girando para entrar em sintonia com o movimento da terra, antes dos passistas femininos e masculinos, que demonstram toda a energia e vigor juvenil do grupo. É um ritual que a todos eleva e empolga, aglutinando o grupo em torno de seu hino, de sua dança e de sua comunidade. Renato Lage comentou a identidade da escola e de como o enredo de 2015 , ao valorizar a comida mineira, situa toda a importância dos saberes trazidos pelos negros, índios e brancos e que se traduzem nos sabores muito típicos de Minas Gerais, que se espalharam por todo o país.

Desde os tempos de Tia Ciata, no quintal de quem muito se consumiu comida e arte, sabor e saber vem se confundindo. Não podemos pensar em reunião de sambistas sem pensar no prazer do preparo e degustação de pratos e iguarias, feitas pelas baianas e pelos mestres da arte de cantar e cozinhar.

As escolas de samba foram criadas em reuniões festivas, bem como muitas associações foram feitas regadas a petiscos, cervejas, almoços e jantares. A comida engendra a criação, fazendo com que o sagrado e o profano, com suas múltiplas representações simbólicas, engendrem no Imaginário Social um conjunto de relações imagéticas que atuam como memória afetiva de uma cultura, sendo expressa em seus rituais e cantigas.
As festas sacras ou profanas se fizeram presentes no cotidiano da cidade, mesclando diversas culturas e trazendo sempre a comida como presença obrigatória. Constantemente o povo negro da cidade descia os santos dos altares, batendo os tambores para acabar com as calamidades, afastar epidemias, festejar a vida, sempre com muita música e muita comida.

10845915_846470808708639_6213885271176790232_nSeja na tradição de Angola/ Congo (banto), mais presente no Rio de Janeiro e em Minas Gerais, como na da Nigéria (nagô) da Bahia e Pernambuco, cozinhar é considerado um ato sagrado e os alimentos são tratados de forma ritualística.

Noites inteiras são destinadas ao preparo dos alimentos que fazem parte das festas, sendo que pessoas especiais em cada comunidade de samba têm a responsabilidade de preparar as carnes dos animais, os cereais, os legumes, as frutas. O espaço da cozinha é de alto significado para a vida dos deuses, sua manutenção e a renovação do axé – elemento vitalizador das propriedades e domínios da natureza , quando o sagrado se aproxima do homem pela boca, ficando, por isso este espaço nas mãos das conhecidas “tias baianas”, as senhoras mais velhas da tradição. A cozinha é o lugar onde as baianas transformam morte em vida, usando os temperos, a água, o azeite e o fogo.

Para as baianas quituteiras, que se relacionam ainda com a tradição afro-brasileira, a cozinha é um espaço de criação, de manutenção da saúde da comunidade e de celebração de seus orixás, que representam a energia da vida. O preparo dos pratos podem ser acompanhados de cantigas, palmas e toques e em alguns espaços mais tradicionais, de samba de raiz. Vamos esperar, ansiosos, o que o Salgueiro nos reserva.

 

 

 

Helena Theodoro - Carnaval

Helena Theodoro – Carnaval

Carioca, escritora, doutora em Filosofia, mestre em Educação, pesquisadora de cultura afro-brasileira, coordenadora do curso de Pós-graduação de Figurino e Carnaval da UVA.

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.

 

Extraído da Coluna de Helena Theodoro, no Blog do Jornalista Sidney Rezende
http://www.sidneyrezende.com/noticia/241730+sabores+e+saberes+salgueirenses

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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