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SALVADOR: Santa Bárbara é a primeira de vários santos celebrados por fiéis no Verão

 

O espaço para o sincretismo foi lembrado pelo pároco da Catedral Basílica, que falou sobre a intolerância religiosa

Amanda Palma (amanda.palma@redebahia.com.br)

05/12/2015 08:43:00Atualizado em 05/12/2015 08:44:32

 

O cheiro de dendê se espalhou pelo Largo do Pelourinho. Nas janelas e nas roupas, o vermelho predominou, ontem, para homenagear, pelo sincretismo religioso, Santa Bárbara ou Iansã. A celebração abre o calendário de festas populares em Salvador e reúne fiéis como a aposentada Nilda Santos Santana, 65 anos, que se declara “devota de todos os santos”.

A  aposentada Maria Rodrigues, que dedica sua fé a vários santos,  não perde uma festa popular: ‘Curto tudo’ (Foto: Marina Silva/ CORREIO)
A  aposentada Maria Rodrigues, que dedica sua fé a vários santos,  não perde uma festa popular: ‘Curto tudo’ (Foto: Marina Silva/ CORREIO)

“Eu venho para todas essas festas. Santa Luzia, Conceição, Bonfim, tudo… É tudo uma questão de fé, né? Tudo que peço a Santa Bárbara, eu consigo”, garante a devota multifacetada, que acompanhou a missa desde cedo, bem perto do palco montado no Largo do Pelô. Mesmo sozinha, dona Nilda não deixa de ir em nenhum ano. “Antes, eu trazia meus filhos. Mas depois que eles cresceram, não quiseram vir mais, só que eu não ia deixar de vir, né?”.

Para ela, a santa é responsável por ter conseguido comprar uma casa na Ilha de Itaparica, no ano passado. Quem também atribui à santa a casa própria é a aposentada Maria Rodrigues, 70. “Graças a Deus, sou devota de Bárbara. Foi ela quem deu minha casa há 10 anos. Tudo que peço a ela vem mais rápido, com mais pressa”, lembrou a aposentada.

Maria também faz parte do grupo que dedica sua fé a diversas divindades. “Essa coroa aqui curte tudo, todas as festas. Dois de fevereiro (Iemanjá), Bonfim, tudo! Eu me aposentei foi para isso”, brincou, enquanto acompanhava a missa. Para depois da procissão, o programa também já era certo. “Vou tomar minha cervejinha e curtir bastante”, adiantou.

Milhares de pessoas tomam as ruas do Centro Histórico de Salvador para homenagear a Rainha dos Raios (Foto: Marina Silva/ CORREIO)
Milhares de pessoas tomam as ruas do Centro Histórico de Salvador para homenagear a Rainha dos Raios (Foto: Marina Silva/ CORREIO)

Já para Maria das Graças, 65, o momento era de reflexão e concentração na porta da Igreja do Rosário dos Pretos, também no largo, de onde acompanhou a missa campal. “Desde pequena que eu venho, acompanho a missa, a procissão, mas não é só aqui. Eu vou para todas as festas religiosas”, gabou-se.

A expectativa da devota é para a festa de Nossa Senhora da Conceição, que acontece na próxima terça-feira, no Comércio. “É a festa da minha mãe. É a que eu mais espero e que não perco por nada”, comentou.

Espaço para todos
Não só os católicos celebraram ontem. A costureira Valdeci da Silva, 54, lembrou que Iansã também é comemorada. “É também o dia para quem é do candomblé celebrar a Rainha dos Raios e, aqui, todo mundo tem o direito ao seu espaço de celebrar”, disse. Ao longo do cortejo, que tomou conta das ruas do Centro Histórico até a sede do Corpo de Bombeiros, na Baixa dos Sapateiros, muitas palmas e saudações: “Eparrei, Iansã!”.

Roupa vermelha e imagem para homenagear santa (Foto: Marina Silva/ CORREIO)
Roupa vermelha e imagem para homenagear santa
(Foto: Marina Silva/ CORREIO)

O espaço para o sincretismo foi lembrado pelo padre Lázaro Muniz, pároco da Catedral Basílica, que falou sobre a intolerância religiosa. “Precisamos de pessoas que comunguem a sua religião sem atingir o outro”, pregou.

Para a secretária estadual de Promoção da Igualdade Racial, Vera Lúcia Barbosa, que participou da missa, a reflexão sobre a intolerância repercute muito mais  do que parece. “Às vezes, nessas festas, o efeito sobre a reflexão é muito maior do que em propagandas, programas”, avaliou.

No meio da procissão, os sinais de que a festa iria continuar até de tarde já apareciam bem antes do meio-dia, com diversas mesas espalhadas pelo Terreiro de Jesus e na Praça da Sé.

Após a procissão e o banho de mangueira na sede do Corpo de Bombeiros, muita gente aproveitou para comer o tradicional caruru e aliviar o calor intenso com uma cervejinha, como fez um grupo de amigos de Maracangalha, distrito de São Sebastião do Passé, no Recôncavo. Há 20 anos, eles se reúnem para comemorar o aniversário do aposentado Antonio Bosco, que este ano fez 70 anos. “Ela é a minha protetora. Todos os anos, nós estamos aqui para comemorar”, contou o fiel e aniversariante.

Comemorada desde o século XVII, em Salvador, a festa de Santa Bárbara, este ano, teve o título de Patrimônio Imaterial da Bahia renovado.

 

 

Extraído do site do Jornal Correio 24 Horas / Salvador – BA
http://www.correio24horas.com.br/detalhe/noticia/santa-barbara-e-a-primeira-de-varios-santos-celebrados-por-fieis-no-verao/?cHash=3ee6a07d32218f22bf20e8d724d64b70

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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