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Selo Negro completa 15 anos

 

Selo Negro, da Editora Summus, completa 15 anos de atividade / Diário SP/Arquivo
Selo Negro, da Editora Summus, completa 15 anos de atividade / Diário SP/Arquivo

 

Por: Juca Guimarães | 05/11/2014 20:23
juca.guimaraes@diariosp.com.br

Um importante marco da cultura negra brasileira está completando 15 anos. Criado em 1999 pela editora Summus, o Selo Negro Edições é responsável pelo lançamento de diversos títulos que traçam um panorama histórico e acadêmico de uma produção literária brasileira pouco conhecida.  De acordo com a editora executiva da Summus, Soraia Bini Cury, são livros que ajudam a compreender melhor o mosaico étnico do nosso país. Confira a entrevista com a Soraia.

Como surgiu a ideia de criar o Selo Negro Edições?
A Selo Negro Edições foi criada em para atender a uma demanda de mercado. Na época, em 1999, nos baseamos em pesquisas existentes na área de consumo e em exemplos do mercado americano. O objetivo: produzir livros que suprissem, com informações de qualidade, a grande massa de afro-brasileiros em diversas áreas: história, sociologia, educação, política, literatura. Também queríamos colocar em evidência trabalhos de professores e pesquisadores que ajudassem a diminuir o preconceito e melhorar a autoestima dos negros brasileiros. Assim, as obras, embora foquem esse público, também são destinadas a todos os leitores que desejam compreender melhor o mosaico étnico brasileiro.

Na sua opinião, a literatura sobre a história dos negros no Brasil é deficitária?
Certamente. Conhecemos apenas uma ínfima parte da história dos negros, sobretudo nos livros didáticos, quando se fala sobre escravidão. Porém, a historiografia contemporânea tem comprovado que os negros foram protagonistas de sua própria história, tanto no período pré-colonial quanto nas lutas pela abolição e nos anos posteriores a ela. Em todas as esferas sociais – música, dança,educação, política, religião – e em diversos períodos é possível encontrar registros da atuação proativa dos afro-brasileiros na construção do nosso país, inclusive das mulheres.

Como funciona a escolha dos livros da coleção Retratos do Brasil Negro?
Procuramos biografar indivíduos cujos pensamentos e ações foram determinantes para a emancipação da população afrodescendentes e que, quase sempre, são esquecidos ou subestimados pela historiografia tradicional. Lima Barreto, por exemplo, ficou esquecido por décadas, justamente pelo fato de ser negro. O mesmo se pode dizer de João Cândido, que morreu da miséria. É um absurdo que isso aconteça, pois os negros e pardos não têm figuras positivas com as quais se identificar, não conhecem os feitos de seus antepassados.

 Qual das biografias teve maior procura pelos leitores?
Os nossos campeões de venda são Abdias Nascimento, Luiz Gama e Lélia Gonzalez.

Estamos no mês da Consciência Negra, quais são os avanços políticos e sociais que os negros conseguiram?
O movimento negro tem um longo histórico de lutas políticas para obter um status de igualdade com os brancos. Acredito que os dois maiores avanços das últimas décadas tenham sido a criminalização do racismo, a aprovação da política de cotas em diversas instituições públicas e a obrigatoriedade do ensino de História da África e Afro-Brasileira nas escolas.

 O que mais precisa mudar?
Muita coisa. Em primeiro lugar, é preciso admitir que no Brasil há, sim, racismo. A sociedade brasileira ainda não consegue assumir que a discriminação racial está presente no nosso cotidiano. Veja-se o caso do goleiro Aranha, do Santos. Ali ficou claro que as pessoas cometem atos racistas quase por impulso, porque esse comportamento está arraigado desde a infância. Depois, o Estado precisa investir ainda mais em políticas públicas que combatam a desigualdade histórica vivenciada entre brancos e negros. As cotas em universidades e em instituições públicas são um bom começo. Capacitar os professores para que conheçam a história dos negros no Brasil e no mundo é mais um passo importante, mas esse conhecimento precisa ser relacionado com o cotidiano dos estudantes, senão tende a não ser absorvido. Projetos culturais de incentivo à produção literária também são interessantes para ampliar o acesso ao tema.

Qual a importância de ter uma variedade grande de livros sobre a história dos negros no Brasil? É um modo de incentivar o jovem a ler mais?
Acredito que a maior vantagem seja criar um laço identitário entre a grande maioria da população e seus antepassados. Nós, brasileiros, carecemos de modelos positivos, mas os negros carecem ainda mais, pois só se veem retratados como escravos ou ex-escravos. O protagonismo negro vai muito além de um pequeno período da nossa história. Tivemos grandes políticos, abolicionistas, escritores, educadores, médicos, advogados, militares, jornalistas, músicos e artistas negros importantíssimos, mas cuja história nunca foi contada. Além disso, é claro, o tema, quando abordado de forma sedutora, incentiva o hábito da leitura. Como exemplo posso citar o livro A legião negra, que conta a história de um batalhão composto de afrodescendentes que lutou na Revolução de 1932. Trata-se de um romance, mas o autor partiu de fatos reais para compor a história. Em 2013, a obra foi adquirida pelo PNBE e distribuída a milhares de bibliotecas de escolas públicas em todo o Brasil.

Comparando com os Estados Unidos, por exemplo, em que pé está o registro da história dos negros?
Acredito que o registro acadêmico tenha avançado bastante nos últimos anos. Toda semana recebemos dezenas de originais que versam sobre temas específicos ligados à historiografia negra. No que se refere ao registro editorial, no entanto, ainda precisamos caminhar muito. Para produzir um livro de qualidade, o investimento é alto, mas quase nunca as livrarias apostam nesse tipo de material. Assim, os editores que publicam obras ligadas à história negra empreendem sozinhos essa caminhada, por vezes sem nunca recuperar o investimento. Mas, apesar disso, a Selo Negro acredita ser importante seguir em frente, dando voz a autores e pesquisadores que se dedicam ao verdadeiro registro da nossa história.

 

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Extraído do site do Jornal Diário de São Paulo

http://diariosp.com.br/blog/detalhe/27317/selo-negro-completa-15-anos

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Ilé Asé Omin Oiyn, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Hoje, é editor do Jornal Awùre. Diretor Financeiro da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. Colabora com a assessoria de comunicação do PPLE - Partido Popular da Liberdade de Expressão Afro-Brasileira. É sócio diretor na agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras.

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