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Série sobre Orixás chega ao fim com embate feminino versus masculino

Depois de vender 50 mil exemplares, último volume da série O Livro da Morte foi lançada em Salvador nesta segunda

Ana Cristina Pereira (ana.pereira@redebahia.com.br) 18/05/2015 22:04:00Atualizado em 18/05/2015 22:23:09   De um lado, a sábia Nanã e seu time gracioso formado por Iemanjá, Iansã, Oxum, Euá... Do outro, o velho Oxalá e seus guerreiros Ogum, Oxóssi, Xangô... E no meio de todos eles, Exu, que entre outras importantes tarefas estabelece a comunicação com os daqui da terra. Pessoas como o jornalista Newton Fernandes, personagem principal da trilogia Deuses de Dois Mundos, do publicitário carioca PJ Pereira, 41 anos. Depois de vender 50 mil exemplares de O Livro do Silêncio e O Livro da Traição, PJ lança o último volume da série, batizado de O Livro da Morte (Livros de Safra/ R$44,90/ 384 páginas). Em Salvador, cidade umbilicamente ligada ao projeto, ele autografou o romance nesta segunda, às 18h, na Livraria Saraiva do Shopping da Bahia.
Oxalá é o orixá  mais velho: respeito e tradição (Foto: Wilson Bernardo)
Oxalá é o orixá  mais velho: respeito e tradição
(Foto: Wilson Bernardo)
  Inspirada na rica mitologia iorubá, a ficção desta vez gira em torno dos orixás femininos. PJ explica que, depois de pesquisar bastante e reler os “mitos que já tinha investigado”, percebeu que havia um padrão na luta entre orixás masculinos e femininos. Uma luta, explica, que com frequência colocava em lados opostos o jovem poder físico masculino contra o poder mágico das mulheres mais velhas. “De repente, percebi que a mitologia Iorubá é cheia de toques revolucionários feministas, o que é uma luta tão antiga quanto a humanidade, mas ao mesmo tempo extremamente moderna”, afirma o autor. No cerne da disputa está a exclusividade dos orixás masculinos sobre o destino (odus). Escolhido É justamente a incapacidade de Orunmilá de prever o destino que desencadeia a trama, lá no livro um. Maior adivinho do Orum - mundo sagrado dos orixás e de outras entidades - ele um dia se vê de mãos abanando. Para recuperar seus poderes, confiscados pelas mães ancestrais, ele convoca um time de poderosos guerreiros e parte para a aventura. Além de toda articulação no plano sagrado, os deuses pedem um ajudante na terra (Aiê). É aí que o ambicioso Newton Fernandes entra na trama. O jornalista passa a se corresponder com Exu, que vai trilhá-lo na sua missão espiritual. Do total estranhamento em relação àquele pedido à aceitação. Mas não sem passar por muitos percalços.  
Oxum representa a força feminina  (Foto: Wilson Bernardo)
Oxum representa a força feminina 
(Foto: Wilson Bernardo)
PJ conta que já havia tomado a decisão de matar o personagem desde o início da trilogia. “Esse era o único final possível na minha opinião. O interessante para mim não é o que aconteceu com ele, mas sim como isso foi acontecer. Por isso, estruturei o lado contemporâneo de uma forma que a história pudesse ser contada de trás para frente ”, diz.Logo no início do Livro da Morte sabemos que a missão é fracassada. A narrativa começa com Newton colocando um despacho para Exu numa esquina do badalado bairro da Vila Madalena, em São Paulo, e à espera da morte. O assassino será um desafeto envolvido em uma das muitas tramoias que o jornalista se meteu. Mas o responsável mesmo é Exu. O Livro da Morte, assim como os dois anteriores da série, é narrado de duas formas autônomas. A parte do Orum segue de forma mais tradicional, como um conto. Já a da terra é frenética, através de postagens num blog - lido da última para a primeira postagem. Foi uma opção ousada. Mas PJ diz que a pergunta que move o leitor não é ‘o que acontece agora’, mas sim ‘por que aconteceu?’. “Foi um desafio sob o ponto de vista de estilo, mas acho que ajudou a contar a história sobre as consequências da vida de uma forma interessante”, resume o escritor. Axé Baiano Lançar o Livro da Morte em Salvador é muito mais que uma questão mercadológica. A origem do projeto tem tudo a ver com a Bahia e muito dos candomblés baianos está na trama de PJ, que atualmente mora em São Francisco, nos Estados Unidos. Foi depois de se tornar amigo de Zeno Millet, neto de Mãe Menininha do Gantois (1894- 1986), que ele resolveu conhecer o candomblé mais de perto. Passou a estudar e se aproximar de terreiros e pessoas da religião. PJ conta que pesquisou muito em livros, mas queria ter uma referência mais sólida para poder estabelecer uma linha entre o que poderia usar ou não.  
Série sobre Orixás chega ao fim com embate feminino versus masculino
Série sobre Orixás chega ao fim com embate feminino versus masculino
A Bahia também está muito presente através dos pesquisadores do tema, como mostra a bibliografia no final do livro. Entre eles, destaca-se o fotógrafo e etnólogo Pierre Verger (1902-1996), que PJ diz que foi sua principal fonte. “Seus relatos são muito vívidos e crus ao mesmo tempo. Exatamente o que eu procurava. Tanto que dois dos três livros abri com frases tiradas de obras dele”, afirma.“Minha primeira escolha foi em focar nos candomblés da Bahia e, mais especificamente, por causa dos meus relacionamentos, no terreiro do Gantois. Muito embora tenha falado muito também com gente do Opó Afonjá”, afirma o autor. Com prefácio do jornalista e apresentador Marcelo Tas e posfácio do pesquisador Arthur Veríssimo, o Livro da Morte também traz um glóssario com as palavras em iorubá. Outras Telas A trilogia teve os direitos de adaptação para cinema, quadrinhos e TV vendidos para a The Alchemists, produtora multiplataforma dos seriados Smallville, Heroes e East Los High, que tem bases em Hollywood e São Paulo. Segundo PJ, ainda não há prazo para as adaptações ficarem prontas, mas deve demorar um pouco. “Os produtores me consultam a cada etapa e trabalhamos juntos para que eu esteja sempre confortável com a maneira como a história está sendo trazida à vida”, conta. Nada mal para quem começou a escrever a trilogia em 2001, e só conseguiu publicá-la uma década depois. PJ diz que teve muita dificuldade em despertar o interesse dos editores, que consideravam que o mercado não receberia bem sua criação. O que ele define como uma mistura de preconceito com o tema e medo de arriscar. Autor acredita que trilogia ajuda a diminuir preconceito Nascido e criado no Rio, o publicitário PJ Pereira sempre foi fascinado por tecnologia e mitologia. Dessa combinação surgiu a inspiração para a série Deuses de Dois Mundos, que agora chega ao fim, após quinze anos. Ele é fundador da agência de publicidade Pereira & O’Dell, baseada em San Francisco, na Califórnia. Em 2013, PJ Pereira conquistou um Emmy na categoria Innovation in Storytelling. No Festival de Cannes, já ganhou quatro Grand Prix.
PJ Pereira lança hoje, na Saraiva do Shopping da Bahia, o Livro da Morte, último de trilogia sobre orixás (Foto: Divulgação)
PJ Pereira lança hoje, na Saraiva do Shopping da Bahia, o Livro da Morte, último de trilogia sobre orixás
(Foto: Divulgação)
Exu tem uma importância fundamental na trama, tanto no mundo dos homens quando no dos deuses. Como você elaborou a construção deste orixá tão controverso e sedutor? Primeiro foi a incompreensão, o estigma e o medo o que me atraíram a essa entidade. Ao trabalhar com ele, no entanto, descobri mais do que uma grande injustiça. Exu é o mais complexo dos orixás e portanto o mais interessante de escrever. Na minha cabeça, essa história sempre foi sobre ele. Sobre suas nuances, imprevisibilidades, suas facetas. Tive que planejar o ritmo com muito cuidado para que essa descrição não acontecesse rápido demais. Ter uma trilogia, em vez de um volume único ajudou bastante nisso. Difícil foi me segurar para não colocar tudo logo de cara só para mostrar que eu havia entendido direito. Você afirma que a trilogia Deuses dos Dois Mundos nasceu como uma reação ao seu próprio preconceito. Mas entre o preconceito e a decisão de estudar e transformar o resultado num produto cultural há um grande caminho. Fale um pouco sobre ele. Um dia eu me descobri amigo de gente do santo e percebi que não era possível que tanta gente de bem fosse ligada a esse culto ao demônio. Então resolvi estudar para entender onde eu havia deixado algo escapar. Descobri essa raiz impressionante, charmosa, intrigante, que não me deixou parar mais de estudar. Em que momento você percebeu que a mitologia iorubá sobre os orixás rendia uma boa trama de ficção? Não percebi. Simplesmente aconteceu. Um dia, estava estudando os mecanismos do jogo de búzios e a ideia dos Odus e perguntei o que aconteceria se os búzios caíssem de lado, ou fora da tábua... todas as vezes. O desconforto foi tão grande que percebi que aquela era uma história que merecia ser contada. Só então eu fui procurar os personagens ideais e resolvi que os orixás mais novos, aqueles que foram gente antes de virarem orixás como Ogum, Xangô, Oxóssi, Iansã e Oxum seriam uma boa escolha.   Você afirma que um dos seus objetivos era atrair pessoas de vários credos e culturas. Como foi a reação ao livro pelo povo de santo? Eu tinha muito medo que não gostassem, que percebessem a obra como desrespeitosa. Por isso, quando lancei o primeiro volume, nem fui a Salvador. Pensei: “Não vou na terra onde aprendo tudo, porque não quero que eles achem que eu tenho algo a ensinar”. Eventualmente, no lançamento do segundo volume, pessoas diferentes da cidade me convidaram, então eu achei que aquela era a hora de ir. Houve algumas críticas, porém: 1) muitos se incomodaram com a maneira como eu retratava Exu como apenas um menino de recados de Orunmilá; 2) Que minha utilização das Iá Mi Oxorongá como vilãs era machista. Em ambos os casos, tudo que pude fazer foi dizer que esperasse até o terceiro livro. E agora pronto. Não preciso mais guardar segredo. Fora isso, tinha receio de contar algum segredo que não deveria ser contado. Então dizia aos meus entrevistados que não me contassem nenhum deles pois assim eu ficaria protegido de revelá-los. Alguns amigos me disseram que parte das coisas que contei contém segredos sim, mas que como nunca fui iniciado e não teria como saber essas informações, essas descobertas lógicas ou criativas, eles estavam mais confortáveis. Oh, claro que eu não acerto todas, pelo visto. E eles também não me dizem quais pontos eu adivinhei, quais errei feio. Você acha que a trilogia pode ajudar na redução do preconceito histórico que as religiões de origens africana sofrem no país e seguem firme em pleno século XXI? Tenho certeza que sim. Já vi várias discussões a respeito, entre o povo de santo e ateus, evangélicos... acho que enfocar os orixás pelo lado mitológico, não religioso, essa história diminui as barreiras para quem não conhece, e faz com que sintam que conhecer as raízes culturais por trás dessas religiões não é uma afronta a sua própria fé. FICHA Livro: Deuses de Dois Mundos – O Livro da Morte Autor: PJ Pereira Editora: Livros de Safra Preço: R$ 44,90 (384 páginas)   Extraído do site do Jornal Correio 24 horas/ Salvador – BA http://www.correio24horas.com.br/detalhe/noticia/serie-sobre-orixas-chega-ao-fim-com-embate-feminino-versus-masculino/?cHash=d9a838df08501d054664553e98b9a4b6

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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