Breaking News

Sociedade se mobiliza contra agressões a religiões de matriz africana

Ataques em terreiros na Baixada Fluminense desencadeiam ações contra intolerância religiosa. Para pesquisadora, discurso de ódio proferido por alguns líderes evangélicos não representa a totalidade dos fieis. SP terá ato neste domingo

por Marcelo Santos, para a RBA publicado 23/09/2017 10h18, última modificação 23/09/2017 15h57

HENRIQUE ALVES / DIVULGAÇÃO CCIR
Domingo (17): em Copacabana, 50 mil pessoas participam da 10º Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa

 

ROGER CIPÓ/WWW.FACEBOOK.COM/OLHARDEUMCIPO
Liberdade religiosa é tema de caminhada na quarta (20) em São Paulo. Neste domingo (24) haverá novo ato, às 13h, no Masp

São Paulo – “Quebra tudo, quebra tudo!” A ordem partia de um suposto traficante, em Nova Iguaçu (RJ), e era dirigida a uma mãe de santo nas imagens que ganharam as redes sociais, na semana passada. Ele continuava. “O sangue de Jesus tem poder! Arrebenta as guias todas! Todo o mal tem que ser desfeito, em nome de Jesus!” Foi o sétimo registro de depredações e ataques a terreirosno mês, apenas na Baixada Fluminense

A diferença deste último caso, em relação aos demais, foram as fortes imagens, gravadas pelo próprio agressor, que viralizaram na internet. Os ataques, infelizmente, não são novidade. No dia 29 de agosto, por exemplo, a mãe Cintia de Ayara, dirigente do Centro Espírita Unidos pela Fé, também em Nova Iguaçu, encontrou o local revirado. “Invadiram e quebraram meu sagrado”, protestou ela, que classificou como atos de intolerância religiosa.

O babalorixá Marcio de Baru, responsável pela casa de candomblé Ilê Axé Obá Inã, na Vila da Penha, conta que durante as reuniões que ocorrem às segundas-feiras e aos sábados, moradores de um condomínio vizinho atiram pedras no local. “A gente fica muito preocupado com os casos de intolerância. Isso está me assustando cada vez mais e tem hora que penso até em parar”, lamenta.

De acordo com a pesquisadora e professora do Departamento de Sociologia da Universidade Federal Fluminense Christina Vital, o crescimento da fé evangélica reflete em diferentes aspectos do cotidiano das comunidades. As mudanças começaram a se evidenciar a partir da década de 1990 e, mais acentuadamente, nos anos 2000.

“Vários desses traficantes foram formados em lares evangélicos, compondo uma segunda ou terceira geração pentecostal em suas famílias. Desse modo, o referencial moral e estético pentecostal já lhes era de acesso simples no núcleo familiar, assim como nos contatos cotidianos nos seus lugares de moradia”, afirma Christina, autora do livro Oração de Traficante: Uma Etnografia (Editora Garamond).

Ela acredita que, apesar do discurso de ódio proferido por muitos e famosos líderes evangélicos, eles não representam a totalidade dos fieis ou mesmo dos pastores. “Não há só lideranças que insuflam o ódio. Há lideres sérios que estão militando pela melhoria de vida de um número significativo de pessoas. Então é preciso que aqueles que têm uma atuação mais respeitosa em relação ao outro comecem a ganhar espaço. Os evangélicos raivosos não representam a maior parte dos evangélicos no Brasil”, pontua.

Ações orquestradas

O babalawô Ivanir dos Santos, interlocutor da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR), observa que todos os ataques foram semelhantes, com homens armados com pistolas e porretes expulsando religiosos e destruindo os locais. “É nítido que se trata de algo orquestrado. Eles foram doutrinados por alguma liderança religiosa má a fazerem isso”.

De acordo com Ivanir, um levantamento com 1.014 atendimentos pelo Centro de Promoção da Liberdade Religiosa & Direitos Humanos (CEPLIR), referentes apenas ao estado do Rio de Janeiro, entre julho de 2012 e setembro de 2015, demonstraram que 72% das denuncias sobre intolerância religiosa tinham como alvo as religiões afro-brasileiras. De ofensas verbais, como xingamentos nas ruas, à destruição de espaços sagrados ao culto e agressões físicas. São inúmeros relatos, como em 2015, no caso da menina Kaylane Campos.

Acompanhada da avó, ela, que na ocasião tinha 11 anos, caminhava pela Vila da Penha, zona norte do Rio, quando um grupo de evangélicos, com bíblias erguidas, passaram a ofendê-las. Uma pedra foi arremessada pelo grupo e feriu a criança. O caso causou muita comoção na época.

HENRIQUE ALVES / DIVULGAÇÃO CCIR
Manifestantes esperam que poder público tome medidas para que crimes sejam punidos

Caminhada pela liberdade religiosa

No último domingo, Ivanir, Márcio, Cintia e outras 50 mil pessoas estiveram na Orla de Copacabana para a 10º Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa. O ato teve inicio em 2008, quando um grupo de umbandistas e candomblecistas foi expulso de uma comunidade na Ilha do Governador, Zona Norte do Rio de Janeiro, por traficantes convertidos a segmentos evangélicos neopentecostais. Em 2013 ocorreu outro caso emblemático. Quatro integrantes da igreja evangélica Nova Geração de Jesus Cristo invadiram o Centro Espírita Oxalá, no Catete, zona sul do Rio de Janeiro, e quebraram cerca de 30 imagens religiosas.

“Nós estamos aqui, mas uma coisa é o estado, e outra é a sociedade civil. Cabe ao poder público tomar medidas concretas para que esses crimes sejam reconhecidos e como tal, punidos. A comunidade tem que ficar vigilante e ser ouvida. As autoridades têm que aplicar uma lei mais severa e o Governo Federal deveria reconhecer que isso é um problema”, afirmou o babalawô Ivanir dos Santos, que criticou ainda a falta de grandes lideranças pentecostais e neopentecostais na caminhada e na defesa do respeito às outras religiões. “Se a lei 10.639/03 (que obriga o ensino da história da África e das culturas africana e afro-brasileira no currículo da educação básica) fosse respeitada, talvez isso não ocorresse”.

Ato em São Paulo

As imagens com as agressões em Nova Iguaçu também motivaram outras ações. Em São Paulo, um grupo se mobilizou pelas redes sociais para a Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa, ocorrida na noite desta quarta feira (20). Cerca de mil pessoas se reuniram na Praça da República, diante do prédio da Secretária de Educação paulista e partiram pelas ruas do Centro ao som do bloco afro Ilú Obá de Min e Dandara, com faixas e cartazes como “ Exú não é diabo” e pedindo respeito.

ROGER CIPÓ/ WWW.FACEBOOK.COM/OLHARDEUMCIPO
Integrantes do grupo Ilu Obá de Min tocam percussão durante ato em São Paulo

“Não queremos ser tolerados, queremos ser respeitados. Nunca desrespeitamos nenhuma religião. Nunca machucamos e nem quebramos nenhuma igreja por ai. Porque insistem em fazer isso conosco? Só queremos respeito”, desabafa Marcela de Jesus, 18 anos, uma das jovens que organizou a ação e que desde pequena é umbandista.

A mãe de santo Mejitó Aline, de Osasco, espera que ato como esses ajudem a criar uma frente de luta. Ela conta ser comum os ataques de intolerância. “Não podemos ter medo de cultuar nosso sagrado”, explica a mãe de santo, contando que um terreiro em Carapicuíba também foi alvo de vandalismo na última semana.

Respeito

Para o pastor batista Marco Davi, é incongruente dizer que existam traficantes evangélicos. “Se a pessoa teve uma experiência com Cristo, ela não tem como ser um traficante. Da mesma forma, em tese, não teria como ser intolerante. A bíblia, antes mesmo da Constituição, é nosso manual contra a intolerância. Ela nos ensina a amar o outro como a si próprio”, afirma o coordenador do movimento negro evangélico e idealizador do coletivo Discipulado Justiça e Reconciliação, que reúne a juventude negra evangélica em ações no Rio de Janeiro e São Paulo. “Essa ideia de guerra religiosa não é correta. O cristianismo também é uma religião de matriz africana.”

Segundo o pesquisador do Instituto de Estudos da Religião, Clemir Fernandes, a demonização das religiões de matrizes africanas teve seu ápice com o surgimento de grandes igrejas neopentecostais, como a Universal do Reino de Deus, que reforçou no imaginário popular que o candomblé e a umbanda representam o “mal”.

“Com a presença das religiões africanas no espaço público, como no caso das caminhadas em Copacabana, as pessoas vão aprendendo a conviver com a diversidade. É a pedagogia do respeito. Os evangélicos vão deixando de ser tão ostensivos e de demonizar as religiões africanas”, observa.

Ele, que participou da caminhada no Rio de Janeiro, conta que observou diversos grupos evangélicos, inclusive pentecostais, com faixas e carros de som em apoio ao respeito pelas diferentes formas de religião. Porém, vale lembrar, líderes mais famosos, como o polêmico pastor Silas Malafaia, não se manifestaram sobre os recentes casos de intolerância no Rio de Janeiro. “O Malafaia não dizendo nada, não criticando no programa dele, já é muito positivo”, considera Clemir, que também é pastor evangélico.

 

Extraído do site de noticias RBA – Rede Brasil Atual
http://www.redebrasilatual.com.br/cidadania/2017/09/sociedade-se-mobiliza-contra-agressoes-as-religioes-de-matriz-africana

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

Related posts

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *