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Subnotificação e negligência do poder público ferem religiões de matriz africana

 

Por Jobison Barros | Portal Gazetaweb.com     18/12/2016 08h30

 

 

Casos de intolerância religiosa acometem pais de santo diariamente; um deles vitimou ialorixá em terreiro

Religiosos de matriz africana dizem ser vítimas constantes de intolerância religiosa FOTO: DANIEL DABASI
Religiosos de matriz africana dizem ser vítimas constantes de intolerância religiosa
FOTO: DANIEL DABASI

O preconceito religioso ainda é gritante e, ao mesmo tempo, sorrateiro, quando adeptos de várias doutrinas pretendem manifestar-se no meio da rua ou em suas casas, igrejas, templos. Um dos públicos que vem sendo mais atingido, nos últimos anos, são os religiosos de matriz africana. Para o babalorixá Pai Célio, esta realidade só tem se intensificado devido à subnotificação provocada pelo medo das vítimas e em virtude da negligência do poder público.

Em entrevista à Gazetaweb, Pai Célio – que comanda a Casa de Iemanjá, no bairro de Ponta da Terra – lamentou o quadro triste da intolerância religiosa aqui no estado, comentando que, diariamente, pessoas são vitimizadas por uma rejeição “sem motivo”. O maior abuso parte da comunidade evangélica neopentecostal, segundo o babalorixá.

“Sofremos abuso todos os dias, seja pela forma como falamos, como externamos nosso pensamento, como nos vestimos, dançamos, enfim, o que você possa imaginar. Os neopentecostais nos taxam de diabo, macumbeiro, tudo o que há de ruim. E, como se não bastasse, já somos tão massacrados ao ponto de as vítimas de ataques não denunciarem os casos por represália, o que gera subnotificações, isto é, não temos dados concretos de casos de menor e maior gravidade. Além disso, o poder público é negligente, não dá o mínimo valor às ações criminosas”, explicou Célio, chamando a atenção das vítimas, para que noticiem os casos junto ao Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial (Conepir/AL), Ordem dos Advogados do Brasil, seccional Alagoas (OAB/AL), terreiros e Polícia Civil (PC).

Subnotificação e negligência do poder público ferem religiões de matriz africana FOTO: LARISSA BASTOS
Subnotificação e negligência do poder público ferem religiões de matriz africana
FOTO: LARISSA BASTOS

O babalorixá aproveitou a oportunidade para falar sobre o evento tradicional “Lavagem do Bonfim”, que acontecerá no dia 8 de janeiro, com ponto de partida na Igreja Nosso Senhor do Bonfim, no bairro do Poço. O tema deste ano é “Dizendo não à Intolerância Religiosa” e foi discutido em uma reunião ocorrida na quinta (15), no Museu da Imagem e do Som (Misa), no Jaraguá.
No encontro, que reuniu líderes religiosos de matriz africana de várias casas de Maceió, as pautas foram planejamento da Lavagem do Bonfim, projeto de um documentário em comemoração aos 16 anos do evento e apoio estrutural por parte do poder público. “É preciso ampliarmos as discussões e afinarmos o entendimento, tendo em vista o preconceito diário que sofremos e que foi intensificado há quinze anos, com a manifestação de vários movimentos culturais, sociais, religiosos e políticos. Mesmo desamparados, devemos mostrar nossa ?cara?”.

CASO EMBLEMÁTICO

Não precisa ir muito longe para verificar um acontecimento que chamou a atenção da sociedade e assustou os adeptos de matriz africana. É o caso de um terreiro de candomblé, situado no conjunto Frei Damião, no Benedito Bentes, em Maceió, alvo de um atentado à bala em setembro deste ano. A investida deixou a Ialorixá Cristiane da Silva, chamada Cristiane de Ogum, ferida por um disparo de espingarda calibre 12. Ela participava da festa em homenagem a São Cosme e São Damião, considerados protetores das crianças.

Equipe policial coleta provas após ataque a terreiro em Maceió FOTO: AILTON CRUZ/GA
Equipe policial coleta provas após ataque a terreiro em Maceió
FOTO: AILTON CRUZ/GA

O babalorixá contou que os filhos de santo estavam à porta do terreiro, quando os evangélicos passaram dirigindo a eles expressões injuriosas. “O pessoal respondeu apenas ?axé?. Um homem que estava no grupo disse que aquilo não ficaria assim e foi embora. Mas voltou minutos depois, na garupa de uma moto, e atirou no portão da casa. O tiro atingiu as costas de mãe Cristiane, que estava dentro do terreiro, próximo à porta”, relatou Janerson Alves.
Questionado sobre o fato, Pai Célio disse que não vem acompanhando as investigações, mas pontuou que é necessário solucionar o caso e punir os responsáveis. “Não posso nem dizer que foram evangélicos porque estaria me precipitando. Só sei que procuramos o Ministério Público, na pessoa do promotor Flávio Gomes, que se reuniu com a delegada Maria Tereza, presidente do inquérito. Cabe à polícia investigar”.

Promotor Flávio Gomes da Costa fala da subnotificação dos casos FOTO: PEDRO FERRO
Promotor Flávio Gomes da Costa fala da subnotificação dos casos
FOTO: PEDRO FERRO

O promotor Flávio Gomes, do Núcleo de Direitos Humanos, falou com a Gazetaweb, reforçando a informação de que existe uma subnotificação dos casos de intolerância religiosa. Apesar disso, os acontecimentos que chegam ao órgão, por qualquer via, são alvos de investigação.
“Quando soubemos do caso do terreiro de candomblé, requisitei à Polícia Civil a abertura de inquérito, tendo em vista uma suposta tentativa de homicídio, já que foi feito um disparo de arma de fogo com risco de atingir alguém em direção a um local habitado. Infelizmente, não temos dados concretos porque são situações não registradas, pois não chegam à polícia nem à Justiça. Só há procura quando é um fato emblemático”, disse o promotor.

A delegada Maria Tereza Albuquerque, do 8º Distrito Policial (8º DP), afirma que este é o primeiro caso de intolerância religiosa que chega à distrital. “Estamos investigando ainda, ou seja, na fase da oitiva de testemunhas. Não se pode adiantar nada para não atrapalhar o processo, mas, até o final do mês, concluiremos o inquérito com o possível indiciamento dos responsáveis”.

?DEUS NÃO ESTÁ NISSO?

Na visão do pastor Glauco Leitão, presidente da Ordem dos Pastores Evangélicos de Alagoas (Opeal), não existe limite a ser dado para a intolerância. Ele reforça que todos devem ter direito de prestar seu culto e, ao mesmo tempo, respeitar o culto alheio. Algo que é detestável deve ser combatido e desencorajado, conforme ressalta o pastor.

Pr. Glauco Leitão, da Opeal FOTO: DIVULGAÇÃO
Pr. Glauco Leitão, da Opeal
FOTO: DIVULGAÇÃO

“Nossa Constituição nos permite cultuar o que quisermos, somos um país laico. Há religiões que, em sua filosofia, prática e doutrina, divergem entre si É ?normal? haver uma discordância de pontos de vista, cada uma defendendo o que acredita e, naturalmente, opondo-se a tudo o que é contrário à sua crença”, ressalta o líder religioso, acrescentando que tantos os evangélicos quanto os de religiões de raízes africanas ou outra religião são defensores de seus credos, o que gera divergências e discussões, sendo inerte ao ser humano.
O líder religioso também lembra dois mandamentos da Lei de Deus: Amar a Deus sobre todas as coisas e Amar ao próximo como a si mesmo. “No amor, não cabe intolerância de nenhum tipo”, destaca Glauco.

O presidente da Ordem dos Pastores acrescenta que, em Alagoas, não há problemas relevantes a esse respeito, a não ser casos isolados que não refletem a realidade de um povo pacífico. No ano de 2016, a Marcha para Jesus teve como tema “Paz para nossa cidade”. Na ocasião, milhares de evangélicos saíram às ruas para combater todo tipo de intolerância e todas as formas de violência.

Sobre o ataque ao terreiro de candomblé, Glauco diz não acreditar que o atentado tenha sido praticado por evangélicos, mas sim, pessoas com a intenção de manchar a imagem de irmãos autênticos.

“Em todos os lados, a violência tem aumentado de forma assustadora. Igrejas católicas e evangélicas têm sido atacadas também, em maior número. No ano passado. uma igreja católica foi arrombada e furtada na Rua Fernandes de Barros, no centro de Maceió.

Glauco Leitão afirma que, desde a Quebra de Xangô de 01 de fevereiro de 1912, não se tem mais um levante preconceituoso e intolerante de grande porte em Alagoas.

“Em sua essência, o Cristão Evangélico ou Católico é pacífico. Aprendemos desde cedo que devemos ser mansos e humildes como Jesus, e que o amor é o maior dom que Deus nos deu. Diferente de outros estados, como Rio de Janeiro, São Paulo e Bahia, Alagoas não tem uma cultura de intolerância religiosa; podem existir alguns casos isolados por parte de pessoas ignorantes e vazias do amor de Deus. Nós somos contra todo e qualquer tipo de intolerância religiosa, especialmente as de agressões verbais e físicas. Seguramente, Deus não está nisso”, assinala.

Indagado acerca das religiões de matriz africana, o pastor pondera que as crenças conflitam diretamente com os mandamentos e princípios da Palavra de Deus, porém, o amor deve prevalecer. “Amamos os praticantes destas religiões e respeitamos sua escolha de culto. Só discordamos e não aceitamos as ?práticas?, porque ferem diretamente os mandamentos de Deus, contidos na Bíblia. Mas, em seu livre-arbítrio, cada um tem direito de seguir suas crenças sem ser, por isso, alvo de violência, discriminação ou intolerância religiosa”, frisou.

 

 

Extraído do site de notícias gazetaweb / Maceió – AL
http://gazetaweb.globo.com/portal/especial.php?c=23881

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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