Terreiro do Gantois ganhará centro comunitário com nome de Mãe Carmen

Imagem: Divulgação/Secom PMS

Espaço vai beneficiar comunidade do entorno com cursos e atividades culturais

salvador

Júlia Vigné

julia.nunes@redebahia.com.br

28.01.2018, 07:31:00

Atualizado: 28.01.2018, 07:31:54

 

O Terreiro do Gantois, uma das casas mais tradicionais do candomblé, fundada em 1849, no bairro da Federação, em Salvador, vai ganhar um centro comunitário dentro de suas instalações com atividades culturais e cursos. A área, que será construída pela Prefeitura, foi projetada pelos arquitetos da Fundação Mário Leal Ferreira (FMLF) a pedido das lideranças do terreiro, que foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 2002. A nova unidade terá o nome da atual ialorixá do santuário, Mãe Carmen do Gantois.

O objetivo é ter um local específico para os projetos sociais que já ocorrem na casa e ampliar o atendimento à população da Federação. A ordem de serviço para construção do equipamento será assinada pelo prefeito ACM Neto ainda este mês.

Em quatro meses, o centro comunitário será implantado na área lateral do Terreiro do Gantois para atender a população da comunidade do entorno. Serão investidos R$ 713.261,33, provenientes de recursos municipais. As obras serão coordenadas pela Superintendência de Conservação e Obras Públicas (Sucop). Apesar da intervenção ser da prefeitura, a gestão do local será exclusivamente dos membros do terreiro. A ideia da FMLF é preservar a área tombada e construir o centro no terreno com desnível.

“No ‘primeiro andar’ terá um salão para palestras com capacidade para 50 pessoas, além de uma sala para cursos e um consultório médico. Divisórias removíveis serão instaladas no local, para que o salão possa ser ampliado em eventuais necessidades. Em um segundo local terá uma sala para percussão e para leitura, com uma pequena arquibancada”, explicou Tânia Scofield, presidente da fundação.

Trabalho social
A importância do trabalho social para o Terreiro do Gantois está estampada na descrição do trabalho da casa. “É preciso sempre lançar mão de ações que resultem no aproveitamento da comunidade, para evitar o agravamento do risco social que assola nossa Cidade. O Gantois é uma casa-mãe, um templo que preserva a herança ancestral e preocupa com a humanização das condições”, diz a descrição do Ilé Iyá Omi Àse Iyamasé em site institucional.

O psicólogo Danilo Pinto, 31 anos, Ogan no terreiro, explica que o local já realiza diversos trabalhos sociais em suas instalações, mas que não existia um local específico para que eles fossem realizados. Ainda segundo ele, a implantação de um centro comunitário irá possibilitar uma expansão no alcance dos serviços prestados pelo terreiro.

“Com a criação do espaço, algumas ações que a gente podia fazer, mas não conseguia, poderão ser implantadas. Eu mesmo, como psicólogo, poderei auxiliar as pessoas. Antes não podia porque não dava para atender dentro do espaço religioso”, ilustrou.

Imagem: Divulgação/Secom PMS

O diferencial do Rum Alagbê é justamente esse: trazer o ensinamento da musicalidade do candomblé, feita exclusivamente por homens na religiosidade, para mulheres. Nas aulas, criadas em 2001, é ensinado o ofício para mulheres como a estudante Brenda Silva, 20. Ela conta que desde seus 4 anos toca no projeto.Segundo Danilo, 70% das ações do terreiro são voltadas para a comunidade. Dentre elas, estão um grupo de capoeira, a distribuição de 300 cestas básicas por mês e o projeto Rum Alagbê, que ensina a musicalidade do candomblé para pessoas de todas as idades – e sexos.

“Eu aprendi muito com o projeto e ainda tenho muito o que aprender. O projeto tira muitos jovens da rua. Eu via todo mundo indo, tive curiosidade e fui. Eu era pequena, peguei um agogô para tocar e tive vocação”, comenta. Brenda diz ter orgulho de já ter tocado no Teatro Castro Alves (TCA) e na Praça da Sé para grandes públicos.

O projeto é comandado pelo alagbê, músico, mestre em etnomusicologia pela Ufba e professor de percussão popular da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Iuri Passos, 38, que explica que um dos marcos do projeto é o ensinamento dos atabaques para mulheres.

“Se tratando de um projeto de inclusão social, é importante que todos sejam incluídos. É claro que nós não estamos formando alabês, que são as pessoas responsáveis pela musicalidade do candomblé, mas o projeto traz esse cunho de autoafirmação e empoderamento feminino”, afirma Passos.

Tradição em ajudar
Para André Santos, membro da Comissão dos Terreiros Tombados, os terreiros têm a tradição de manter espaços de convivência e pretendem garantir que isso aconteça. Ele cita algumas delas, como Ilé Axé Oxumarê – Casa de Oxumarê, que realiza cursos de corte e costura, economia solidária, doação de alimentos, atendimento jurídico e cursos de informática.

A Escola Municipal Eugênia Anna dos Santos também é lembrada por Santos. Instalada dentro do terreiro Ilê Axé Opô Ofonjá, de Mãe Stella de Oxossi, a escola começou a funcionar em 1978. No início, era uma creche que atendia crianças entre 6 meses e 5 anos e atualmente alunos da 1ª à 4ª série do ensino fundamental.

A importância da integração entre os terreiros e a comunidade em torno é destacada pelo presidente do Coletivo de Entidades Negras (CEN), Marcos Rezende. Ele destaca que a própria existência de terreiros em lugares mais afastados – onde eles podiam se esconder, na época em que a prática era proibida -, ajudou a fundação de diversos bairros. Dentre eles, Rezende cita Engenho Velho da Federação e Mata Escura.

O papel das unidades de saúde dos bairros também era realizada pelos terreiros. “O terreiro era o primeiro local em que as pessoas iam pedir ajuda. Agora é posto de saúde, mas antes a comunidade procurava no terreiro. A tradição do terreiro sempre foi de dialogar e desenvolver o entorno”, ressaltou.

Com relação ao centro comunitário, o presidente do CEN afirma que é uma “forma de coroar e mostrar a responsabilidade e reconhecimento por parte dos órgãos públicos do trabalho do terreiro”.

“Isso só demonstra a grandeza da casa, o quanto ela é respeitada e reconhecida pelo povo do entorno. O Gantois tem histórico de aproximação e de diálogo”, afirmou.

História
O Terreiro do Gantois é considerado área de proteção cultural e paisagística pela Prefeitura de Salvador (desde 1985) e é tombado pelo Iphan, a partir de 2002. O nome oficial é lé Iyá Omi Àse Iyamasé, mas é conhecido popularmente como Gantois. Fundado em 1849 pela africana Maria Júlia da Conceição Nazareth, o terreiro constitui-se em um espaço sagrado de expressão religiosa que mantém os costumes e os legados milenares dos povos Iorubá (Abeokutá).

O terreiro segue uma tradição matriarcal com base na estrutura familiar de manutenção dos laços parentais. Nele, as dirigentes são sempre do sexo feminino obedecendo aos critérios de hereditariedade e consanguineidade. O nome Gantois deve-se ao antigo proprietário do terreno, o traficante de escravos belga Édouard Gantois, que arrendou as terras a Maria Júlia da Conceição Nazareth.

 

Extraído do site do Jornal Correio 24hs / Salvador – BA
https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/terreiro-do-gantois-ganhara-centro-comunitario-com-nome-de-mae-carmen/

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