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Terreiro viking Ritual de umbanda na Irlanda atrai estrangeiros em clima de maior tolerância do que no Brasil

 

FELIPE SÁLES

 

Dublin 2 JAN 2016 – 13:10 CET

O pai no Santo Rodrigo D'Oxosse, em Dublin, na Irlanda
O pai no Santo Rodrigo D’Oxosse, em Dublin, na Irlanda

Quando decidiu fundar um terreiro de umbanda em Dublin, na Irlanda, há cerca de um ano, Rodrigo Oliveira não teve dificuldade em invocar Oxossi, um dos orixás do panteão desta religião brasileira, para um intercâmbio na terra dos vikings. O mais tenso seria superar preconceitos, num país cuja história é marcada por sangrentos conflitos religiosos entre católicos e protestantes. Ainda assim, não chegou a ser uma surpresa que o maior caso de hostilidade partisse justamente de brasileiros. “Estávamos em busca de um espaço quando entramos em contato com uma das maiores escolas de inglês de Dublin, cujo dono é brasileiro. Quando soube do objetivo, o responsável disse, logo de imediato, que já havia uma sala dedicada a cultos, no caso evangélicos, e não queria misturar as coisas”, lembra  Pai Rodrigo D’Oxosse, como é conhecido toda terça-feira.

Houve também o caso de uma médium, fiel da umbanda que se comunica com os espíritos dos ancestrais, que estava num pub muito frequentado por brasileiros. “Ela conversava sobre o centro e, de repente, uma mulher que ouvia a conversa começou a dizer que aquilo era coisa do demônio. Foi um momento difícil”, lembra. A peregrinação continuou até chegar a hora de encarar a desconfiança, dessa vez, dos irlandeses. Um galpão de 100 metros quadrados numa área comercial no centro de Dublin parecia perfeito, até que a imobiliária questionou se o objetivo do grupo era fazer bruxaria. Mas bastou um e-mail, no qual explicou a história da mais brasileira das religiões, para o contrato ser fechado. Nascia assim a Tenda de Oxosse e Pai Severino de Congo, o primeiro terreiro de umbanda na Irlanda.

O desafio seguinte foi preparar os rituais de proteção da casa, que exigem ervas específicas para cada orixá, segundo a crença dos umbandistas. Quando Ogum, por exemplo, o orixá do trabalho, indica ervas como Peregun, nativa da África Ocidental e dificilmente encontrada na Europa, o jeito é convencê-lo a usar um alecrim ou manjericão.

A chegada da religião brasileira ao mundo europeu tem várias nuances. Uma delas é a adaptação da festa de Iemanjá, a rainha do mar, que no Brasil acontece no dia 2 de fevereiro, para o mês de julho na Irlanda. As festas para esta divindade da umbanda acontecem sempre dentro do mar. Em julho as temperaturas mais civilizadas permitem o acesso às praias irlandesas. “Não teve jeito. A entidade até aguenta [o frio], mas o médium, não”, brinca Pai Rodrigo.

Os orixás vêm atraindo estrangeiros, entre italianos, russos, argentinos, venezuelanos, portugueses e, claro, irlandeses como Paddy Barrett, de 47 anos. Ele ouviu falar da umbanda por meio de amigos que viveram seis meses no Brasil, até que, diante de problemas afetivos, decidiu ver de perto. Durante uma cerimônia, no mês de junho, Paddy estava compenetrado; ora baixava a cabeça, ora batia palmas e até tentava entoar um verso e outro dos cantos da umbanda. Quando recebeu o passe de energia de um dos médiuns (transmitido pelas mãos, que lembra outras técnicas de energização como reiki) retornou a seu assento visivelmente impactado.

“Acho fantástica essa conexão direta e fico fascinado com a mudança no semblante dos médiuns. Quando jovem, eu tinha medo do Deus católico. Com a umbanda é diferente. Sinto um clima mais harmonioso, de maior compaixão. Minha namorada, que é protestante, só não veio ainda por preguiça”, conta o irlandês, que mora na periferia de Dublin e enfrenta uma hora de trânsito até o terreiro.

Paddy até começou a estudar português desde que se converteu este ano. Enquanto aprende, ele recebe os recados dos médiuns brasileiros que falam sob inspiração dos orixás, mediante um intrincado processo de tradução simultânea. Os médiuns repassam aos auxiliares  (conhecidos por cambonos) que traduzem a pregação para o inglês. Sorte deles que a russa Anuta Alferova, 33 anos, tinha um bom inglês. Há um ano em Dublin trabalhando como designer, ela fazia sua primeira incursão num terreiro, com objetivos inicialmente antropológicos.

“Tenho uma espiritualidade forte. Já fui a diferentes tipos de rituais, mas nunca me apeguei. Vim apenas para conhecer, mas se eu me sentir conectada, por que não?”.

Essa curiosidade com a religião brasileira ficou evidente quando eles fizeram o primeiro trabalho externo. Trinta e cinco pessoas embarcaram num ônibus rumo a uma cachoeira em Glenbarrow, no centro-oeste do país, a duas horas da capital. Quando Rodrigo incorporou o caboclo, devidamente trajado com um penacho e um charuto, o povo que fazia trilha na região achou que se tratasse de alguma encenação teatral. Cerca de 20 pessoas ficaram por ali, de soslaio, até que parte do grupo se juntou à cerimônia batendo palmas no ritmo do atabaque. Mas nem sempre é assim.

“O som do tambor é meio irritante, né?…”, admite o engenheiro irlandês Fergus Devine, que trabalha num escritório em cima do terreiro. “Mas fora isso, não vejo problema. Cada um com sua fé”.

O Brasil tem o quinto maior contingente de residentes não-europeus na Irlanda, segundo o último Censo de 2011, que apontou 8.704 brasileiros em toda a Irlanda. A saudade de casa gera momentos de angústia e alguns aplacam a saudade visitando o terreiro. Amanda Rodrigues, 27, designer de moda no Brasil e babá na Irlanda, se mudou há três anos e, apesar de já estar adaptada, decidiu procurar ajuda espiritual. Antes, porém, teve de encarar seus próprios preconceitos. “Fui criada no catolicismo, então eu mesma tinha bastante resistência à umbanda. Mas já estou na minha segunda visita. Sou grata por ter encontrado o terreiro”, conclui.

Quando Amanda esteve lá havia outros 28 visitantes, número inferior à média de 50 porque, segundo Pai Rodrigo, era dia de sol – uma espécie de milagre na Irlanda, famosa pelas chuvas incessantes. Ao todo, 17 pessoas trabalham no terreiro. Elas dividem despesas de 1.600 euros por mês, sendo 875 euros apenas de aluguel, juntamente com doações de frequentadores e empresários brasileiros no país, além da venda de doces, salgados e produtos religiosos no próprio terreiro.

Assim acontece também em outros países na Europa. Os números são imprecisos, naturalmente devido à volatilidade de brasileiros exilados, mas pelo menos 40 terreiros estariam em funcionamento no continente, a maioria em Portugal, mas também na Inglaterra, Espanha, Alemanha, França, Itália, Bélgica e até Suíça.

Porém, não há articulação entre os diferentes grupos. Por isso, Pai Rodrigo D’Oxosse vive atento à conexão Brasil-Irlanda, a fim de importar produtos de toda sorte. Seus contatos são muitos, afinal, 18 dos seus 27 anos foram dedicados aos orixás em São Paulo. Aos 24, ele largou a rotina de bancário para tentar a vida no estrangeiro. Desde então trabalha como barman no The Sugar Pub e, talvez por providência divina, acabou morando justamente numa casa de brasileiros umbandistas, onde aconteciam cerimônias informais. No ano passado, quando passou 20 dias de férias no Brasil, decidiu voltar para a Irlanda com um terreiro a bordo. Embarcou com duas malas inteiras dedicadas apenas a produtos religiosos, até, enfim, encontrar um espaço para acolher os orixás.

“É curioso como, olhando em retrospectiva, fomos encontrando as pessoas certas até chegarmos a  essa comunhão que temos hoje. Acho que os orixás também queriam vir pra cá”, brinca.

 

Extraído da versão brasileira do Jornal El País / Espanha
http://brasil.elpais.com/brasil/2015/11/21/cultura/1448135511_548008.html

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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