Traficantes e pastores unidos pelo preconceito?

19 de setembro de 2017 0 Por Sérgio D`Giyan

Uma série de ataques a terreiros de umbanda e candomblé na região metropolitana do Rio de Janeiro instaura uma onda de medo e incerteza

por Pai Rodney — publicado 15/09/2017 06h00, última modificação 14/09/2017 15h30

 

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Os ataques a terreiros espalham o medo no Rio de Janeiro

No próximo domingo 17, a partir da uma da tarde, acontece em Copacabana a 10ª Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa. O babalaô Ivanir dos Santos está à frente do movimento que, neste ano, ocorre num contexto crítico no Brasil e especialmente no Rio de Janeiro, em meio a uma série de denúncias de depredações em terreiros de candomblé e umbanda.

Mais do que marchar por um Estado laico e pelo respeito à Constituição e aos direitos das minorias e dos povos de matriz africana, o momento pede que estejamos unidos por garantias essenciais, como segurança, justiça e igualdade.

Acreditar que minorias devem ser subjugadas e se submeter à vontade da maioria é pressuposto de regimes antidemocráticos, nazistas, despóticos. Respeitar e conviver com a diversidade é a base de um Estado Democrático de Direito, no qual a liberdade de consciência e de crença precisa estar garantida.

Não é de hoje que os povos de matriz africana denunciam atos de intolerância: pais e mães de santo expulsos de comunidades, adeptos proibidos de usar roupas brancas e insígnias dos orixás, fiéis atacados com pedradas etc.

A mídia havia noticiado em outras ocasiões, mas os acontecimentos das últimas semanas chocam pela crueldade e por associar, conforme denúncias encaminhadas à Secretaria Estadual de Direitos Humanos, as ações de traficantes e de milícias em terreiros do Rio de Janeiro a pastores e igrejas evangélicas.

Alguns vídeos de depredações, nos quais os criminosos ameaçam frequentadores e destroem com extrema violência objetos sagrados e locais de culto, viralizaram na internet. Nesses vídeos, o nome de Jesus é evocado, sobressaindo um tom de pregação misturado a “esculachos” típicos das facções criminosas.

O clima é de medo e incerteza, uma vez que as inexpressivas medidas do Estado não dão conta de coibir a série de ataques que parecem ser orquestrados para intimidar e impedir que terreiros sigam com seus rituais.

Com base nesses fatos, precisamos pensar na violência perpetrada pelo Estado ou poder público, ainda que simbólica, como um mecanismo que incita e justifica atos cometidos isoladamente ou por grupos que tomam para si a autoridade de julgar o outro de acordo com seus padrões morais e/ou religiosos. Além disso, neste sistema capitalista, interesses financeiros denotam certa conivência do Estado com atos que contrariam o bem comum e desrespeitam populações.

O governo federal, em decreto recente, liberou uma área da Amazônia para desmatamento e exploração de garimpo, passando por cima de tratados internacionais e desconsiderando reservas ambientais e indígenas.

O prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, não participa de nenhum evento que tenha a menor relação com a cultura afro-brasileira, reduziu consideravelmente a verba para as escolas de samba e pretende submeter o funcionamento de templos religiosos a sua sanção pessoal.

Em São Paulo, moradores de rua são vítimas de inúmeras ações arbitrárias e desumanas por parte da prefeitura. Em Minas Gerais, o Poder Judiciário chegou a limitar as práticas do candomblé.

Pode não haver relação direta entre as ações do Estado e os atos criminosos que têm pululado contra as minorias, mas a omissão gera um clima de impunidade e de desrespeito à lei.

Quando vemos índios assassinados por garimpeiros, traficantes associados a falsos pastores ou fanáticos fundamentalistas a destruir terreiros e perseguir seus adeptos, ou mesmo o aumento da violência contra moradores de rua, torna-se impossível não pensar que as instituições do Estado não estão cumprindo seu papel.

A seguir, um vídeo de depredação de um terreiro

https://youtu.be/ygcPSsEqvJ4

Parece ocorrer no Brasil uma inversão da ordem democrática. Alguns direitos conquistados por indígenas, quilombolas, povos de matriz africana, têm sido ameaçados ou simplesmente cassados. As bancadas ruralista e evangélica pautam o debate e legislam claramente de acordo com seus interesses.

De certa forma, o Estado avaliza a sociedade para manifestar toda sorte de ódio e discriminação. Instaura-se um vale-tudo, uma terra sem lei, onde aqueles que detêm o poder seguem firmes no intento de aniquilar o outro, o diferente, o inimigo. E é como inimigo que muitos fundamentalistas evangélicos se referem aos afro-religiosos e isso se reflete em ações do Poder Público.

Um bom exemplo são os casos cada vez mais frequentes de babalorixás e ialorixás julgados por terem suas liturgias mal compreendidas, com evidências de que o racismo religioso influencia nas decisões judiciais.

Charlatanismo, estelionato, lesão corporal, cárcere privado, maus tratos de animais, perturbação da ordem, infração à lei do silêncio e vigilância sanitária, formação de quadrilha são alguns dos crimes injustamente imputados a pais e mães de santo.

Usar roupas brancas, fios de conta ou manifestar a própria fé tornou-se um risco. O Estado segue omisso, conivente e muitas vezes parece reacender o projeto de branqueamento da nação. Os ecos ressoam e aplaudem a limpeza étnica que se quer empreender.

Para exterminar um povo é preciso destruir sua cultura. Talvez isso nos faça entender o porquê de tanta perseguição às crenças de origem africana. Na base do racismo, o fato de não reconhecer o outro como humano, como igual.

Digam-me: são humanos os que demonstram tanta indignação frente a um despacho numa encruzilhada, mas não se compadecem diante da morte de cinco jovens negros alvejados com mais de cem tiros da polícia sem terem cometido crime algum? E ainda que tivessem cometido, não há delito que justifique a desumanidade.

No início do século XX, era a polícia que invadia e destruía terreiros de candomblé, agora são os bandidos. O Estado, por ação ou omissão, dá o roteiro das cenas de horror protagonizadas desde sempre contra o povo negro e sua cultura. Que as autoridades tomem as devidas providências. 

 

Pai Rodney de Oxóssi é antropólogo, escritor e babalorixá. Há mais de 20 anos pesquisa relações raciais, racismo e religiões de matriz africana. É sacerdote do Ilê Obá Ketu Axé Omi Nlá. Escreve às sextas-feiras

 

Extraído do Caderno Diálogos da Fé, da Revista Carta Capital / São Paulo – SP
https://www.cartacapital.com.br/blogs/dialogos-da-fe/traficantes-e-pastores-unidos-pelo-preconceito